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Três histórias para crianças

10 de outubro de 2014

Ainda acabo fazendo livros onde nossas crianças possam morar.
– Monteiro Lobato

Era uma vez três escritores que recriavam o mundo com palavras. Mas palavras adultas, sérias demais para crianças. Então, Clarice Lispector, Rachel de Queiroz e Erico Verissimo aceitaram o grande desafio de dar vida a outras palavras, que riem e bailam e dão piruetas no universo mágico da literatura infantil. Foi com esta palavra, “mágico”, que Rachel de Queiroz estreou nesse universo ao inventar um menino muito especial.

Vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura Infantil, O menino mágico, de 1969, conta a história de Daniel, um garoto de seis anos de idade: “Quem o visse, diria que era um menino igual aos outros, mas nisso estava enganado. Porque aquele menino era mágico. (…) Deu para fazer mágicas de repente – ele mesmo não desconfiava, mas um dia descobriu”. Ao descobrir, deparou-se com uma realidade que punha seu poder constantemente em dúvida, e da qual fazia parte seu irmão mais velho, cujo conhecimento mais formal marcava a radical diferença entre os dois: “O irmão de Daniel lia muito na enciclopédia em oito volumes” e “sendo ainda menino era quase como uma pessoa grande, para saber tudo que pessoa grande sabe”. Por isso, ironiza o narrador: “O fato é que, com todas aquelas sabedorias, o irmão de Daniel não servia para brincar com ele”.

 

Capa do livro O menino mágico, de Rachel de Queiroz. Acervo Clarice Lispector/ IMS.

O personagem com quem Daniel se identifica é Jorge, o primo pouco mais velho e muito inteligente, que não tem medo de se aventurar. Para conseguir os prêmios oferecidos por um programa de TV, Jorge se inscreve e participa do concurso mesmo sem o consentimento da mãe. Essa aventura dos meninos resulta em castigo e muita diversão, sempre perpassada pelos versos com que Daniel realiza suas mágicas, poetizando a realidade. A palavra “poesia” vem do verbo grego poiesis, que significa criar, fazer, plasmar. E é nisso que reside o poder mágico do menino.

Clarice Lispector também transpôs esse limite ao criar – incentivada pelos próprios filhos – um coelho inteligente, branco e gordo, chamado Joãozinho. O mistério do coelho pensante, de 1967, seu primeiro livro de literatura infantil, é uma história que “só serve para criança que simpatiza com coelho” e “só acaba quando a criança descobre outros mistérios”. Como na história do menino mágico, o que importa é usar a imaginação, não só para resolver o mistério principal da narrativa – como Joãozinho conseguia fugir da sua casinha feita de grades muito estreitas e pesadas se só era possível sair dela se alguém a levantasse? – mas também para criar outros. Desde o início, a autora avisa: “Deixei todas as entrelinhas para as explicações orais. Peço desculpas a pais e mães, tios e tias, e avós, pela contribuição forçada que serão obrigados a dar”.

 

Capa do livro O mistério do coelho pensante, de Clarice Lispector. Acervo Clarice Lispector/ IMS.

Nessa história, a narradora dialoga com Paulo ou Paulinho. Trata-se, na realidade, de Paulo Gurgel Valente, nome do filho de Clarice que, na infância, foi autor do “pedido-ordem” que resultou na narrativa: “Pois olhe, Paulo, você não pode imaginar o que aconteceu com aquele coelho”. Esse recurso, de se dirigir à personagem, aproxima a narradora de seus leitores e propicia um maior envolvimento das crianças com a história. Paulinho representa, na verdade, todos os meninos e meninas com os quais é possível estabelecer um diálogo direto a partir da oralidade. Nessa “conversa íntima”, cada criança pode solucionar o mistério a seu jeito: “Que é que você acha que Joãozinho fazia quando fugia? (…) Quando você descobrir, você me conta”.

E será que o menino mágico se encontrou algum dia com o coelho pensante? Sim. O menino mágico chegou às mãos de Clarice Lispector em outubro de 1969 e hoje faz parte do acervo da escritora no Instituto Moreira Salles. Na dedicatória, a autora escreveu: “À ‘colega’ Clarice, esta experiência meio frustra[da] que não se pode comparar às delícias do seu Coelho Pensante, com um abraço afetuoso da Rachel”.

 

Dedicatória de Rachel de Queiroz a Clarice Lispector. Acervo Clarice Lispector/ IMS.

O terceiro e último personagem dessas histórias é Fernandinho, o menino mágico de Erico Verissimo. Publicado pela primeira vez em 1956, quando o escritor lançou a coleção Gente e Bichos, “As aventuras do avião vermelho” narra a história de um menino que se apaixona pelo avião vermelho do Capitão Tormenta, personagem de um dos livros que o pai lhe dá: “Eram histórias muito bonitas. Um aviador valente, o Capitão Tormenta, entrava no seu avião e voava para as nuvens… Ia até a África caçar leões e outros bichos. Descia na China e cortava os rabichos dos chineses. Passava pela Índia e dava tiros nas cobras e nos tigres de Bengala”.

 

Página do livro Gente e bichos, de Erico Verissimo. Acervo Erico Verissimo/ IMS.

Um belo dia, o pai chega com um pequeno avião de brinquedo. Fernandinho, então, instigado por uma mosca falante, passa a buscar uma forma de ficar pequeno para caber na aeronave. Aqui, mais uma vez, a imaginação da infância supera a sabedoria do adulto: “− Pois sim, meu querido, quando ficares grande poderás entrar num avião”, diz o pai ao filho, que replica: “− Não, papai, eu acho que só posso entrar no avião quando ficar pequeno”. Quando ele descobre a lente que diminui as coisas, inventa o seguinte plano:

Quando todos em casa estavam dormindo, o nosso valente Capitão Tormenta se levantou da cama na ponta dos pés, abriu devagarinho a porta do escritório, caminhou sem fazer barulho até a mesa do pai, trepou numa cadeira e pegou a lente que fazia as coisas ficarem menores. Voltou para o quarto, acendeu a luz, botou a mão no queixo e começou a pensar…

Pensou assim:

Quando a gente bota este vidro em cima duma coisa, essa coisa fica pequena, não fica? Pois então vou botar este vidro em cima de mim e vou ficando pequeno, pequeno, pequeno, até poder entrar no avião. Depois, entro no avião e faço o motor funcionar e saio voando. Vou à China, à Índia, à África, como o Capitão Tormenta.

E foi mesmo! Mas só depois de ir à lua, quando descobriu que tudo lá era de gelo e os homens tinham pernas de sapo e olhos de mosca. A primeira de mil e uma descobertas dessa grande aventura no avião vermelho. Se o “olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê”, como afirma o poeta Manoel de Barros, Fernandinho transviu o mundo como só as crianças e poetas sabem fazer. Sim: “É preciso transver o mundo”.

 

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