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“Triunfo”, a estreia de Clarice na imprensa

17 de junho de 2015

Dentre o conjunto de documentos doados por Paulo Gurgel Valente ao Instituto Moreira Salles, estão algumas fotografias, 120 cartas de Clarice Lispector às irmãs Tânia Kaufmann e Elisa Lispector e, especialmente, um exemplar da revista Pan. A edição de número 227, de 25 de maio de 1940, traz em três páginas o conto “Triunfo” – a primeira colaboração de Clarice Lispector na imprensa de que se tem registro. O romance de estreia, Perto do coração selvagem, seria lançado somente em 1943.

 

 

“Triunfo”, que não foi recolhido em nenhum de seus livros posteriores, antecipa a temática que percorrerá toda a obra clariciana. O conto é ambientado no espaço doméstico e relata a experiência da separação a partir do ponto de vista da personagem Luisa, cuja discussão atormentada com o marido na noite anterior o faz ir embora. A ausência, o extremo vazio e a incerteza do retorno ressaltam os itens que antes pareciam não existir para ela – aprendera a enxergar apenas o marido (e sua vidinha cotidiana), seu objeto e o objetivo principal.

Soam 11 horas, compridas e descansadas. Um pássaro dá um grito agudo. Tudo imobilizou-se desde ontem, pensa Luisa. Continua sentada na cama, estupidamente, sem saber o que faça. Fixa os olhos numa marinha em cores frescas. Nunca vira água com tal impressão de liquidez e mobilidade, nem nunca notara o quadro. De repente, como um dardo, ferindo agudo e profundo: “Ele foi embora”.

A narrativa explora todo o vocabulário semântico do olhar, acentuando, assim, a sensação de carência e dependência dessa figura masculina. A partir do abandono, a personagem vê-se sozinha, tudo em volta é ruidoso, medíocre e pesaroso. Luisa estranha o lugar que lhe deveria ser, supostamente, familiar.

O início da virada se dá quando, depois de chorar até sentir-se lassa, “vai até a pia e molha o rosto”. (Água.) Através desse ato, “a sala de jantar [que] estava às escuras, úmida e abafada” é de súbito iluminada pela claridade das janelas abertas de uma só vez. O ar é novo e toca em tudo. Luisa percebe que as coisas – sempre as coisas – “não estavam de todo destituídas de encanto. Tinham vida própria…”.  Mais que isso: se antes o mundo inteiro era a parte interna (seu homem, seu quarto – lençóis e travesseiros –, teto, noite sem lua), agora, inclinada na janela – área externa –, Luisa visualiza as árvores, a estrada de barro vermelho. Reorientada em seu território, ela parte para a ação: recolhe algumas roupas e vai lavá-las num grande tanque no fundo do quintal da casa. (Água.) Luisa deixa o lar e desafia o inesperado.

 

 

Não seria exagero afirmar que a cena da lavagem de roupas tem uma forte nuance erótica: “Assim inclinada, movendo os braços com veemência, o lábio inferior mordido no esforço, o sangue pulsando-lhe forte no corpo, surpreendeu a si mesma (…). Uma brisa doce arrepiou-lhe os fiozinhos da nuca, secou-lhe a espuma nos dedos. Luisa terminou a tarefa” e, exausta, “sentia um calor…” quando, subitamente vem a ideia de se banhar na “torneira grande, jorrando água límpida”. “Tirou a roupa, abriu a torneira até o fim e a água gelada correu-lhe pelo corpo, arrancando-lhe um grito de frio.” O banho improvisado “fazia-a rir de prazer (…)” e “de sua banheira abrangia uma vista maravilhosa, sob um sol já ardente”.

Não há como deixar de evocar aqui o valor simbólico da água nas mais diversas tradições literárias e culturais. Desde o rio de Heráclito, no qual nem homem, nem as águas são os mesmos depois do mergulho – tudo, tudo flui; passando pelos rituais católicos, como o batismo e a água-benta; e ainda o culto na mitologia céltica “[às] águas [que] simbolizam a substância primordial de que nascem todas as formas e para a qual voltam, por regressão ou por cataclismo”¹, garantindo longevidade, força criadora e cura. Há de se mencionar também, dentre os cinco rios do Hades, o Lete, cujo toque nas águas (letais) faz com que as almas esqueçam suas memórias terrenas e iniciem o processo de retorno ao mundo dos vivos. Um dos dois principais mitos sobre o nascimento de Afrodite tem estreita relação com a água: o titã Cronos corta os órgãos genitais do déspota Urano e joga-os ao mar e é desse contato que nasce a deusa da beleza, fertilidade e sexualidade.

Mais que as forças esgotadas, a água restitui a liberdade a Luisa, devolve-lhe a estabilidade e o sentimento de autossuficiência: “Olhou em torno de si a manhã perfeita, respirando profundamente e sentindo, quase com orgulho, o coração bater cadenciado e cheio de vida”. Após o banho, vem-lhe a certeza triunfante: o marido voltaria “porque ela era mais forte”, porque é dela – laço mais fraco? – que ele precisa e depende.

¹ ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

 

 

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