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Mergulho na obra de Coutinho

30 de setembro de 2019

São cadernos antigos de espiral com anotações, decupagens de filmes, roteiros de projetos que nunca saíram do papel, rascunhos de projetos que viraram outra coisa no meio do caminho. Labirintos caóticos de frases, observações práticas (“corta isso, odeio isso”), trechos que parecem hieróglifos. Um “material de fetiche” que convida a um mergulho mais profundo na obra daquele que foi um dos principais documentaristas brasileiros, Eduardo Coutinho (1933-2014). Desde janeiro de 2019 abrigado no Instituto Moreira Salles, o acervo de Coutinho, com trabalhos produzidos majoritariamente no período em que ele fez parte do Cecip (Centro de Criação de Imagem Popular) – guardião do material até então –, surpreendeu o jornalista Carlos Alberto Mattos durante sua pesquisa para o livro Sete faces de Eduardo Coutinho, o primeiro a traçar uma análise completa de toda a obra do cineasta, publicado pelo IMS em parceria com o Itaú Cultural e a editora Boitempo.

“Eu achava que fosse encontrar menos material, não imaginava que ele guardasse tanta coisa. Coutinho não tinha muito apego, ele marcava um livro arrancando a página que queria e jogava fora o resto”, lembra Mattos, cujo novo livro incorpora e expande Eduardo Coutinho – O homem que caiu na real, lançado em Portugal em 2003, com pouquíssimos exemplares distribuídos no Brasil. No acervo sob a guarda do IMS, até então inédito a pesquisadores – são 1.754 itens que incluem, além dos cadernos e roteiros, fotografias, boletins escolares, prêmios, e 467 documentos audiovisuais (U-matic, Betacam e filme 35mm) –, estão projetos como À sombra de São Paulo, que seria um documentário com moradores de uma favela na capital paulista, e outro sobre personagens entrevistados por Mário de Andrade na famosa missão de pesquisa folclórica realizada em viagens pelo Nordeste nos anos 30.

Eduardo Coutinho e Adrian Cooper nas filmagens de O Fio da Memória (1991. 115 min.). Arquivo Eduardo Coutinho / Acervo IMS
Eduardo Coutinho e Adrian Cooper nas filmagens de O Fio da Memória (1991. 115 min.). Arquivo Eduardo Coutinho / Acervo IMS

O mergulho no material foi usado não apenas no livro como na Ocupação Eduardo Coutinho, que o Itaú Cultural inaugura dia 2 de outubro em São Paulo, em parceria com o IMS, e tem Mattos como cocurador. Tanto o livro, que será lançado na abertura do projeto, como a própria Ocupação não seguem um percurso cronológico e biográfico. Até porque, como lembra Mattos, a vida pessoal do cineasta era muito recolhida. “Ele não partilhava a vida pessoal dele com a profissional, era uma característica dele. Então é difícil estabelecer relações diretas entre a biografia e a obra”. Por isso, afirma, sua preocupação foi mostrar um autor multifacetado, entremeando temas e expandindo a ideia que se faz da produção do diretor de Cabra marcado para morrer, sempre identificado com o que o pesquisador chama de “cineasta de conversa”. “Ele é muito conhecido de Santo forte para cá. A tendência é se tomar o Coutinho por isso, o cara que sentava diante de alguém e tinha uma conversa extraordinária com essa pessoa. Mas há um Coutinho antes disso também. Ele é bem múltiplo, tem uma trajetória muito interessante”.

Entre outros recortes, Mattos busca mostrar que a passagem de Coutinho pela ficção preparou-o para encontrar o que há de ficcional nas pessoas reais. O cineasta guardava uma forte ligação com o teatro, por exemplo. Além de ser um espectador assíduo de espetáculos teatrais na década de 50, trabalhou com o diretor Amir Haddad. Adaptou A falecida, de Nelson Rodrigues, com Leon Hirszman, e em Faustão (1970) criou uma história de cangaço inspirada em Henrique IV, de Shakespeare.

“A passagem pelo Cecip (entre 1986 a 1999), pela produção de documentários sobre questões de educação, ambientais, também ajudou a fazer com que ele, quando se libertasse disso, não quisesse lidar mais com temas, apenas com pessoas”, lembra Mattos. A partir de Santo Forte (1999), continua o pesquisador, acontece a “libertação” de Coutinho. “Ele diz ‘vou fazer um filme sobre religião só conversando com as pessoas, e vou fazer numa favela só’. E foi dissecando isso cada vez mais. Depois de Santo Forte ele fez Babilônia 2000, filmado num dia só. Era o que chamava de prisões, nas quais ele reduzia ao máximo o campo geográfico e temporal. Ou saía ou não saía um filme dali”.

No acervo de Coutinho no IMS estão, por exemplo, os CDs gravados com depoimentos de personagens para vários documentários. Os pesquisadores iam a campo preparando as fichas nas quais descreviam as pessoas e as histórias que elas contavam. O diretor de Edifício Master (2002) e Peões (2004) ouvia as gravações e selecionava seus personagens a partir delas. Seu método consistia em não encontrar ninguém antes da filmagem, lembra Mattos, porque queria que contassem suas histórias para ele como se fosse a primeira vez. “Ele achava que tinha um frescor, um potencial de surpresa que não haveria se já tivessem falado com ele antes”, observa o jornalista. “Havia todo um ritual da distância entre ele e o personagem, e ele tinha que ver o olho da pessoa enquanto estava filmando”.

Diante de Coutinho eram todos personagens. Movia o cineasta a crença de que, diante da câmera, a pessoa está sempre fazendo um papel de si própria. Tanto que nos créditos de seus documentários ele registrava os participantes assim, como “personagens por entrada em cena”. “A semente da ideia de um teatro da vida, de um teatro de si mesmo, já está presente desde o início. Foi ficando mais complexo e estranho no final, com filmes mais ousados em termos de estrutura e linguagem”, comenta Mattos, citando Moscou (2009) – com registros de workshops e ensaios de As três irmãs, de Tchekcov, pelo grupo de teatro Galpão –, e Jogo de cena (2007), com mulheres contando suas histórias de vida, depois reinterpretadas por atrizes.

O jornalista também destaca a faceta mais experimental do documentarista, como o de um Um dia na vida, filme nunca comercializado por questões de direitos autorais: durante todo o dia 1 de outubro de 2009 Coutinho gravou trechos de comerciais e programas diversos da TV aberta, construindo uma colagem incômoda sobre o conteúdo que chegava ao público. O filme era parte de uma pesquisa do diretor, que futuramente queria fazer um filme inteiro apenas com citações estapafúrdias, extraídas das fontes mais distintas e improváveis. “Ele colecionou, com Laura Liuzzi (que trabalhou com o cineasta e integra o núcleo de vídeo do IMS), cinco cadernos de citações retiradas de editais de cinema até comunicados de síndicos de edifícios e manifestos políticos. Queria botar atores e pessoas comuns lendo esse texto com uma entonação que não tivesse nada a ver com o texto, queria discutir o plágio, a apropriação, a paródia. Era uma face pouco conhecida dele”, observa Mattos. Já em Le Télephone (1958), breve ficção surrealista (6 minutos) feita em 1958, quando ele estudava no Institut des Hautes Édutes Cinématographiques (Idhec), em Paris, se via a faceta experimentalista em ação: o curta é todo  baseado em frases extraídas de um livro de conversação em francês.

Documentos, fotografias e outros itens do acervo do IMS compõem quase 90% da Ocupação Cultural, que reúne ainda objetos como a câmera principal usada em Cabra marcado para morrer (pertencente à cinemateca do MAM), e a cadeira na qual ele sentava os personagens dos seus últimos três filmes (do acervo da Videofilmes). “Coutinho era completamente agnóstico, mas totalmente mágico no pensamento, ia criando pequenos amuletos. Depois de usar a cadeira em Jogo de cena, que deu certo, ele achava que só funcionaria novamente se os personagens se sentassem ali”, conta Mattos.

Durante o período da exposição haverá exibição da filmografia de Coutinho e cursos e palestras com profissionais que trabalharam diretamente com ele. Dia 7 o diretor João Moreira Salles, que produziu filmes como Edifício Master e Jogo de cena, entre outros, além de ter finalizado, em 2015, a derradeira obra de Coutinho, Últimas conversas (com a montadora Jordana Berg, colaboradora assídua do cineasta), ministra a masterclass “Como fazer cinema com quase nada: a gramática mínima de Eduardo Coutinho”.

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