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Um tanto frio e meio pálido

22 de outubro de 2018

A série Primeira Vista traz textos de ficção inéditos, escritos a partir de fotografias selecionadas no acervo do Instituto Moreira Salles. O autor escreve sem ter informação nenhuma sobre a imagem, contando apenas com o estímulo visual. Para este mês, Carlos Eduardo Pereira criou “Um tanto frio e meio pálido”, inspirado numa fotografia de Alécio de Andrade, carioca que viveu grande parte de sua vida em Paris, e fez das cenas cotidianas da capital francesa um de seus temas preferidos. Entre 20 de outubro de 2018 e 24 de março de 2019, o IMS Rio apresenta a mostra Cartas a Alécio de Andrade, que reúne 45 retratos de intelectuais e artistas com os quais o fotógrafo conviveu no Brasil e na França.

Pont Neuf, Paris, 1976. Alécio de Andrade / Acervo IMS

 

o sujeito totalmente alheio às possibilidades da rua

dormindo sentado no banco da praça

não sabe que aqui vez ou outra aparece um gatuno?

não tem medo de que levem seu relógio?

carteira

celular

será que não tem medo?

ou de que nem levem nada mas de que resolvam lhe fazer uma maldade só por diversão?

fiquei pensando: na sua maleta pode haver alguma coisa de valor

escondido no meio destes panos encardidos

destes potes sujos

pode ser que tenha algo de valor

num dos bolsos da japona azul

o china dormindo pesado

de repente num momento de meditação

imaginando como vai pintar o que tiver que pintar

antes de qualquer coisa

como um atleta

um nadador que pensa a prova do início até o fim

antes de qualquer coisa

do instante de cair na água até chegar na outra margem do canal

pensando os movimentos que fará

o ritmo das pernas batendo

da respiração alternada uma hora pra esquerda e outra hora pra direita

pensando o tempo que fará de borda a borda e que vai ter que ser menor que do que o último tempo que ele fez

pensando os trancos

as cotoveladas que vai ter que aplicar num concorrente que se meta em sua reta

de repente desistiu de pintar qualquer coisa com preguiça do tempo que demora pra pintar qualquer coisa na tela

de repente ficou tomando conta destes cacarecos de um pintor que foi ali rapidinho e que já volta

nesse caso um tomador de conta que não tem muito talento

nesse caso corre o sério risco de que pinte um miserável assumindo o lugar desse pintor

e que esse miserável pinte nesta tela uma desgraça qualquer que vier na cabeça

de repente um japonês que se perdeu de seu grupo de amigos turistas

talvez um bocado cansado dessa correria de tirar todas as fotos possíveis de tudo que aparece pela frente

então acaba que chega um gaiato e que monta justamente à sua frente um cavalete

gaiato que por sua vez foi ali rapidinho e já volta

fiquei pensando: se o cara que dorme na rua é artista que passa chapéu no metrô

funcionava melhor se fosse músico

um tocador de violino

fiquei pensando: de repente é apenas um velho esquecido na praça na esperança de esquentar os seus ossos ao sol

se essa função de pintar fosse minha eu pintava era o sol

não pintava nem ponte nem prédio nem barco

mas o sol

firmava a vista o tempo todo neste sol que está se pondo agora e entrava numa de pintar raio por raio

de amarelo com vermelho eu fazia um laranja

pintava este sol que aquece nada e que ilumina muito pouco

pintava o sol

Carlos Eduardo Pereira nasceu no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1973. Cursou História na UFRJ e Letras na PUC-Rio, na habilitação Formação do Escritor. Lançou, em novembro de 2017, seu primeiro romance, Enquanto os dentes, pela editora Todavia.

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