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Sobre Mario Quintana

Curiosamente, Quintana, que se celebrizaria como poeta, estreou com o conto “A sétima personagem”, publicado no Diário de Notícias, de Porto Alegre, em 1926. Só no ano seguinte ele teria um poema publicado. Antes do primeiro livro de versos editado pela Globo, foi com a tradução de Palavras e sangue, de Giovanni Papini, de 1934, que ele estreou na editora gaúcha. Deve-se, em parte, ao seu trabalho de tradutor em tempo integral o êxito da casa em introduzir autores estrangeiros no panorama literário brasileiro. Ainda no fecundo ano de 1934, ele iniciou colaboração, que se revelaria longa, no Correio do Povo, de Porto Alegre. Quintana não teve filhos e sempre preferiu os quartos de hotel ao aconchego de uma casa ou um apartamento. Doce no trato e no temperamento, não deixava de surpreender: na revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, apresentou-se como voluntário e marchou para o Rio de Janeiro, onde ficou seis meses como integrante do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre. Na verdade, era encarregado do diário da tropa. Em 1940, por insistência de um de seus irmãos e de Erico Verissimo, publicou, pela Globo, seu primeiro livro: a coleção de 35 sonetos intitulada A roda dos cata-ventos, recheada da presença provinciana de Porto Alegre, ainda que com transposições, como em “Quando eu morrer e no frescor da lua/ Da casa nova me quedar a sós,/ Deixai-me em paz na minha quieta rua.../ Nada mais quero com nenhum de vós!”.

Com os textos curtos e poéticos publicados na coluna “Do Caderno H”, ele iniciou, em 1945, colaboração na revista Província de São Pedro. Muitos textos nesse estilo seriam publicados ao longo de sua fiel colaboração no Correio do Povo, o que não o impediu de lançar o segundo livro de versos, Canções, em 1946, em que, diferentemente do primeiro, se revela moderno, gozando de plena liberdade da forma. A este livro se seguiria Sapato florido, de 1948, com prosa poética e alguns aforismos: “Amar é mudar a alma de casa”, escreveu o poeta nesse livro que precedeu O aprendiz de feiticeiro, de 1950, e Espelho mágico, do ano seguinte. Estes são apenas alguns títulos de uma extensa obra que, não só por extensão, mas por mérito, levou-o a se candidatar a uma vaga na Academia Brasileira de Letras em 1981. Derrotado pelo professor Eduardo Portella, concorreria ainda duas vezes, sem sucesso. “Ainda vou ter a minha imortalidadezinha”, garantia ele à sobrinha, Helena, a quem confiou os papéis de que hoje se compõe seu arquivo.

Quintana colecionou dezenas de cadernos em que fermentavam aforismos, muitos deles posteriormente reunidos em livros. “Quinta-essência de cantares…/ Insólitos, ingulares…/ Cantares? Não! Quintanares!”. Assim preferiu se referir Manuel Bandeira aos versos do poeta gaúcho, considerando-os “insólitos, singulares”. Quintana, porém, achava que mais se aproximavam da música angustiada de Mahler. De um modo ou de outro, o autor de Canções pararia de cantar. Antes disso, a prefeitura de Alegrete, sua cidade natal, homenageou-o com uma placa de bronze, para a qual o poeta enviou a seguinte mensagem de inscrição: “Um engano em bronze é um engano eterno”. Certamente não passou de mais de uma de suas divertidas ironias.

Mario Quintana morreu em 5 de maio de 1994, em Porto Alegre.

 

No IMS

O Acervo Mario Quintana chegou ao Instituto Moreira Salles em 2009. É formado de biblioteca de cerca de 1.200 itens, entre livros e periódicos, ainda não catalogada; e de arquivo com aproximadamente: produção intelectual contendo 1.130 documentos, entre os quais rascunhos de poemas, frases e haicais, correspondência com 2.092 itens, 80 documentos pessoais, 2.700 recortes de jornais e de revistas e 400 fotografias.

Em agosto de 2009, o Instituto Moreira Salles homenageou Mario Quintana com a edição nº 25 dos Cadernos de Literatura Brasileira, a ele dedicado. No dia 18 de setembro de 2012, no evento que se intitulou Releituras de Quintana, realizado em parceria com a editora Alfaguara, os poetas Eucanaã Ferraz e Italo Moriconi falaram sobre o homenageado.