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Sobre Otto Lara Resende

A atividade jornalística frenética a que logo se dedicou em Diário de NotíciasO GloboDiário Carioca e Correio da Manhã, do Rio, não o sequestrava do contato quase sempre diário com os amigos, fossem eles os do quarteto mineiro ou os muitos outros a quem se ligaria fraternalmente ao longo da vida. A produção diária para os jornais tampouco o impediu de manter uma correspondência de tal modo febril que guardou centenas de cartas, hoje talvez a parte mais estimulante de seu acervo – sofria de “cocaína postal”, dizia. Não sem razão, portanto, em 1994 a Empresa de Correios e Telégrafos o homenageou com a emissão de um selo em sua homenagem, a efígie do escritor desenhada pelo artista plástico Fernando Lopes.

Entre os diversos assuntos que abordou no jornal carioca Última Hora, em que assumiu o cargo de redator principal em 1951, adotou o pseudônimo J.O. para assinar despretensiosas críticas de cinema. No ano seguinte, publicaria seu primeiro livro, a coletânea de contos O lado humano. Depois de dirigir o tabloide semanal Flan, lançado por Última Hora, Otto assumiu a direção da revista Manchete, cargo que abandonaria em 1956. O escritor amargaria críticas ferozes contra seu segundo livro de contos, Boca do inferno, lançado em janeiro de 1957, em que a infância atormentada pela ideia do pecado e da morte se apresenta muito mais dramática do que pura ou feliz.

Em meio à “saraivada de incompreensões, quase insultos” que o livro despertou, o contista seguiu para Bruxelas com a família, em maio de 1957, a convite do Itamaraty para ser adido cultural na Embaixada do Brasil. Na capital belga, declararia ter vivido os três anos mais felizes de sua vida. Nesse período, deu aula de Estudos Brasileiros na Universidade de Utrecht, na Holanda, quando se deleitou com o mundo acadêmico que – dizia – o fascinava. Repetiria a experiência acadêmica na Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), em 1971, depois de desempenhar as funções de advogado da Procuradoria do Distrito Federal e até mesmo a de diretor do então Banco Mineiro da Produção, entre 1963 e 1964.

Ainda que a ficção de Otto Lara Resende posterior a Boca do inferno não mantenha os tons carregados deste seu livro, o autor seria, de um modo geral, considerado um contista sombrio, em contraste com a personalidade solar que exibia quando em grupo e que, creem alguns, teria ofuscado sua obra. O apuro da linguagem, no entanto, é o mesmo nos contos de O retrato na gaveta, de 1962, As pompas do mundo, de 1975, e O elo partido & outras histórias, de 1992.

Escritor obcecado pela expressão perfeita, Otto Lara Resende voltava exaustivamente aos textos para corrigi-los, e foi com superior exigência que se dedicou a seu único romance, O braço direito, de 1963, do qual há cinco versões em seu arquivo. O livro, que dá voz a Laurindo Flores, bedel de um orfanato do interior de Minas, foi publicado em Londres como The inspector of orphans, em 1968.

A despeito de seu “seu soberano desprezo por gloríolas, mesmo glórias”, Otto Lara Resende recebeu diplomas, medalhas, títulos e prêmios que hoje tornam longuíssima a sua cronologia. Declarava-se “um poço de contradições”, e, se aceitou a imortalidade que a cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras lhe garantiu, em 1979, esteve mais próximo do jornalismo ao assumir a direção da Rede Globo de Televisão, em 1974. Naquela emissora, em 1977, fez um programa de entrevistas intitulado Jornal Painel, além de um quadro no Jornal da Globo, no qual entrevistou personalidades literárias. Em 1983, saiu da emissora e se aposentou no cargo de procurador do Estado do Rio de Janeiro.

“Familioso, familial”, declarava-se, conviveu amorosamente com a mulher, Helena Pinheiro de Lara Resende, com quem se casara em 1950, e com os quatro filhos: André, Bruno, Cristiana e Helena. “Como pai, me considero, modéstia à parte, uma mãe exemplar”, gabava-se.

Em 1992, integrou o Conselho Consultivo do Instituto Moreira Salles (IMS), ao lado de, entre outros, Francisco Iglésias, Antonio Candido, além de membros da família Moreira Salles.

A morte, que com a idade ele afirmava ser “palpável”, chegou num momento em que, animado, assinava uma crônica na coluna diária intitulada “Rio de Janeiro”, no jornal Folha de S. Paulo. Parte dessa sua produção foi publicada postumamente em Bom dia para nascer, de 1993, que teve como organizador o jornalista Matinas Suzuki Jr.

Otto Lara Resende morreu em 28 de dezembro de 1992, no Rio de Janeiro.

 

No IMS

O Acervo Otto Lara Resende chegou ao Instituto Moreira Salles em 1996. É formado de biblioteca de 7.097 itens, entre livros e periódicos, catalogada; e de arquivo com produção intelectual contendo 1.897 documentos, entre os quais manuscritos e datiloscritos em diferentes versões, correspondência com 8.360 itens que revelam o fiel missivista que foi esse escritor, minucioso colecionador, 19 documentos pessoais, 6.100 recortes de jornais e de revistas, 2.166 fotografias, 54 desenhos de artistas diversos, entre os quais Millôr Fernandes, Ziraldo e Borjalo, além de duas monotipias em nanquim de Mira Schendel.

Por ocasião dos dez anos de sua morte, em 2002, o Instituto Moreira Salles lançou Três Ottos por Otto Lara Resende, com inéditos pinçados do arquivo do escritor, sob organização da professora Tatiana Longo dos Santos. Em 2011, a editora Companhia das Letras, com apoio de pesquisa do IMS, deu início à publicação das cartas do escritor. O primeiro título, O Rio é tão longe, contendo a correspondência de Otto com Fernando Sabino, foi organizado pelo jornalista e escritor Humberto Werneck. Na ocasião, foi lançada a segunda edição da coletânea de crônicas Bom dia para nascer, com o mesmo organizador.