The Clock, de Christian Marclay

 
por Heloisa Espada
Coordenadora de artes visuais do IMS
 
The Clock é uma videoinstalação composta por milhares de cenas de cinema e televisão que fazem referência ao horário do dia. Em todos os casos em que a hora é mencionada por um personagem ou surge na tela, seja em objetos de pulso, de bolso, em torres de igrejas, mostradores digitais ou cuco, ela coincide com a hora real do lugar em que a obra está sendo mostrada. Com duração de 24 horas, o trabalho é, portanto, um imenso relógio formado por fragmentos de filmes de toda a história do cinema. Ao exibir uma série de ícones cinematográficos, a montagem tem o poder de ativar a memória afetiva do espectador, que pode permanecer na sala durante o tempo que quiser.

O assunto de The Clock é, sobretudo, a relação que estabelecemos hoje com o tempo. A presença constante do relógio na tela revela as possibilidades narrativas de cada minuto, e é também uma oportunidade para digressões em torno de cenas de Pulp Fiction ou Taxi Driver, filmes de James Bond ou Indiana Jones, produções de Kurosawa ou de Woody Allen. A trilha sonora, por um lado, cria uma impressão de continuidade, mas a montagem, por outro, reforça uma sensação de suspense, que é sucessivamente frustrada, pois nenhuma das situações mostradas chega a um desfecho. No escuro confortável da sala de exibição, o espectador é confrontado com a ideia de finitude, sendo o tempo cinematográfico igual ao da realidade.

Desde o fim dos anos 1970, Christian Marclay (San Rafael, Estados Unidos, 1955) trabalha a partir da apropriação de discos, músicas, filmes, imagens e outros produtos culturais de um universo urbano e de consumo de massa. Seu principal procedimento é a colagem. Suas performances, fotografias e videoinstalações ressignificam os materiais e códigos apropriados, ao mesmo tempo que lidam com a dimensão absurda e naturalizada da presença excessiva das mídias nas sociedades de consumo global.