Oito horas de relógio

 
por Daniel Pellizzari

Para além da fruição estética, passar um fim de noite e parte da madrugada em The Clock é um exercício prazeroso de expectativa e foco. Prestar atenção na tela, prestar atenção nos vizinhos, prestar atenção na própria atenção durante, tudo compõe a mesma experiência. Os sofás são confortáveis, a escuridão é uterina. Poderia ser um problema se o que acontece na tela fosse tedioso, mas a videoinstalação de Christian Marclay é tão hipnótica que o público mal percebe o tempo passar enquanto assiste ao tempo passando. Relógios de pulso, relógios de mesa, relógios-cuco, ampulhetas, cigarros queimando, crânios de memento mori, o Big Ben. 22h19: "uma viagem no tempo em uma máquina construída para isso", neste caso, por escolha própria, durando oito horas inteiras.

Às 23h11 a sala começa a lotar. Está chegando a catarse, que em The Clock acontece nas metades redondas: meio-dia, meia-noite. Enquanto isso, na tela, pessoas também esperam, algumas em vão. Muitos telefones tocam. Vem a contagem regressiva, e então as surpresas: vá e veja. Na sala, um crescendo de cochichos que começa a se esvair perto das 00h10, ainda que ninguém pareça disposto a sair dos sofás. "Feche os olhos", ordena o homem na tela quarenta e nove minutos depois da uma hora da manhã. "Feche os olhos". Mas obedecer é impossível, tantas coisas acontecem à nossa frente e a tentação de dar alguma ordem às imagens e aos sons é forte demais. Queremos saber - ou inventar, se necessário - o que acontece em seguida, como uma coisa leva à outra.

Quando medido pelo relógio, o tempo não tem lacunas, jamais toma fôlego, é impiedoso em sua constância e repetição. Um segundo vem sempre depois do outro. O tempo interno é maleável e elástico, segue as marés do próprio ritmo. Em The Clock, mais do que em qualquer outro filme, tempo externo e tempo interno se harmonizam em uma montagem integrada. As elipses na justaposição de planos na tela são preenchidas com avidez pela mente do espectador, escravizada pela tentação de criar sentido e continuidade, em um efeito Kuleshov levado à última potência. Muitas vezes o resultado é cômico, ainda que narrativas mais trágicas acabem por emergir. A única coisa que nunca acontece: nada acontecer.

Até porque não leva muito para que o apelo da ordenação narrativa se espalhe para incluir o entorno. De onde teriam vindo aquelas três pessoas muito animadas que entraram na sala e ocuparam um único sofá às 3h26? Para onde irão em seguida? Serão amigos de infância ou se conheceram nesta noite? Às 3h28, na tela, começam os pesadelos. Para o público de uma maratona The Clock, os sonhos virão mais tarde e obedecerão a uma nova lógica. Às 4h01, uma ema passeia pelo interior de uma casa. "Talvez eu já esteja sonhando", hesita o espectador, e a incerteza se estende até o primeiro despertador tocar às 4h30 em ponto. Ainda levará quase trinta minutos para o primeiro raio de sol brotar na tela. Mesmo cronometrados com precisão, passam rápido até demais.
 
A videoinstalação The Clock, de Christian Marclay, está em cartaz no IMS Paulista até 19 de novembro. Uma vez por semana, sempre das 10h de sábado às 20h de domingo, projeções especiais permitirão acompanhar na íntegra as 24 horas de duração do filme.

 

  • Daniel Pellizzari integra a coordenadoria de internet do IMS