O pipoqueiro da esquina

Eucanaã Ferraz
Curador da exposição

 

Entre 1979 e 1981, Carlos Drummond de Andrade publicou em sua coluna no Caderno B do Jornal do Brasil as famosas “pipocas”, nome que dera a seus chistes, frases-relâmpagos cheias de humour que retratavam criticamente o país. Admirador e amigo de Drummond, o artista, escritor e jornalista Ziraldo percebeu que as sátiras das “pipocas” à vida brasileira eram potencialmente charges – faltavam apenas os desenhos que se associassem às palavras. Disse isso ao poeta, que, entusiasta do trabalho de seu conterrâneo, concordou com o convite que se seguiu: juntar texto e traço. Surgiu, assim, o livro O pipoqueiro da esquina, publicado pela Codecri em 1981, no qual várias “pipocas”, agora com nova configuração, retratavam um país sempre desconcertante e desconcertado.

Trinta e seis pranchas originais da série estão expostas aqui – além de bilhetes, cartas, poemas, fotos, objetos notáveis que contam um pouco da amizade entre os dois mineiros na época em que trabalharam no Pipoqueiro.

O humour é uma das marcas que definem a escrita de Carlos Drummond de Andrade desde sua estreia em livro, com Alguma poesia (1930). Do mesmo modo, a atenção voltada para o fato cotidiano não se esgotou nos primeiros anos, mais devedores dos ideais modernistas. “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”, lemos no célebre poema “Mãos dadas”. Esse desejo radical de compreensão do seu tempo e dos seus contemporâneos faz ver o espírito de cronista que ganhou corpo numa ininterrupta colaboração com a imprensa.

De sua parte, Ziraldo sempre foi um apaixonado pela literatura, como comprova sua brilhante carreira de escritor.

A parceria CDA/Z oferece-nos, sobretudo, retratos de um certo Brasil (alguns, sob muitos aspectos, infelizmente, atual), mas é também um elogio à amizade, ao diálogo e à liberdade.