#RioUtópico: um projeto em construção

Thyago Nogueira
Curador da exposição

Esta exposição da artista Rosângela Rennó reúne fotografias, mapas e dados de mais de 50 localidades do Rio de Janeiro, selecionadas porque seus nomes sugerem alguma situação utópica ou ideal. A artista também convoca a todos para contribuir com fotos desses lugares, que serão acrescentadas às paredes enquanto a mostra estiver em cartaz.

Como a fotografia pode representar o intricado tecido social e urbano que dá forma e caráter a uma cidade? Como os moradores valorizam e descrevem os lugares onde vivem? Qual é a melhor imagem do Rio de Janeiro: a beleza icônica de seus cartões-postais ou as cenas do dia a dia capturadas em câmeras e celulares?

Convidada para desenvolver um projeto em torno de temas já presentes nas coleções fotográficas do Instituto Moreira Salles, Rennó distribuiu uma tarefa a jovens cariocas: fotografar cenas que distinguissem seus bairros e pesquisar a história de sua formação. O passo seguinte foi lançar uma convocatória nas redes sociais para que qualquer um pudesse enviar imagens das localidades escolhidas.

O Rio de Janeiro é prodigamente fotografado, mas boa parte das imagens forma apenas um belo showroom da zona centro-sul, área que corresponde a cerca de 10% do território da cidade. Uma imagem sedutora do Rio pode unir moradores de várias regiões em torno da mesma utopia, mas a repetição desses pontos de vista também pode fazê-los subestimar o interesse pela própria realidade. Como olhar então para esta outra extensa parte?

Em vez de um autor único, múltiplas vozes; no lugar dos ícones de sempre, a paisagem caleidoscópica; para além do território batido, a geografia ampliada. Aos poucos, um outro Rio surge descortinado, nas palafitas da Vila União, nas diagonais da Linha Amarela, nos retratos dos lideres comunitários ou na iluminação prometida pela estátua da Liberdade.

Enxergar a melancolia rural de Santa Cruz, a distopia ereta de Ilha Pura, o monótono padrão do Minha Casa Minha Vida ou o oceano de lajes indomáveis é um contraponto necessário a uma cidade que corre o risco de flertar com o próprio narcisismo.

Estas vistas, personagens e fotos de família oferecem um mapa sentimental da cidade, que valoriza a perspectiva do indivíduo e mostra como a representação da convivência urbana também é uma forma de se aproximar da utopia.

Thyago Nogueira, curador e coordenador da área de Fotografia Contemporánea do Instituto Moreira Salles


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