um retângulo na mão


O fotógrafo Sergio Larrain nasceu em Santiago no Chile, em 1931, e morreu aos 81 anos, em fevereiro de 2012. Começou cedo, em 1949, a trabalhar com fotografia, mas a vida que levou cercada de mistérios encerrou sua carreira no final dos anos 1960, quando saiu de cena em busca de desenvolvimento espiritual e iluminação. Deixou para trás histórias surpreendentes como o dia em que rasgou algumas páginas e jogou no lixo toda a edição do fotolivro El retangulo em la mano (1963), título que dá nome à exposição em cartaz no IMS Rio entre os dias 12 de maio e 9 de setembro de 2018. Uma de suas fotografias inspirou o argentino Julio Cortazar a escrever Las Babas del Diablo (1959), que conta a história do envolvimento acidental de um fotógrafo com um crime de morte, e deu origem ao filme Blow Up (1968), do cineasta italiano Michelangelo Antonioni.

“Chiloé, isla de leyendas”, texto de Santiago del Campo e fotos de Sergio Larrain. O Cruzeiro Internacional, ano II, n. 22, 1/12/1958, pp. 48-53.

A edição em espanhol da revista O Cruzeiro Internacional, a publicação ilustrada mais lida no Brasil em meados do século XX, foi o primeiro emprego de Larrain como fotógrafo freelancer. São seus anos de formação, quando criou gosto pelo fotojornalismo que o levaria, mais tarde, a se aproximar de Henri Cartier-Bresson e associar-se à famosa agência fundada pelo francês, a Magnum. Suas fotos resistem a classificações: não se enquadram totalmente no “novo fotojornalismo” promovido pela revista americana Life ou mesmo pela Magnum, tampouco nos critérios fechados da fotografia moderna. Com ênfase no ser humano, seu “estilo” era marcado por composições nada óbvias, em que o chão se faz muito presente, os horizontes aparecem muitas vezes inclinados e figuras surgem desfocadas em primeiro plano, como a observar a foto que acontece atrás de si. A câmera é seu “retângulo na mão”, como dizia. Através dela, Larrain captura o mundo com um olhar vivaz e despreocupado de convenções.

O escritor chileno Roberto Bolaño  (1953-2003) tinha uma maneira muito própria de definir o conterrâneo: “Tenho a impressão de que Larrain é o turista perfeito, o turista-medusa, [...] a quem foi concedido um olhar que também é uma forma de se mover. Rápido, ágil, jovem e indefeso, Larrain observa a cidade que é um labirinto e, ao fazê-lo, também nos observa.” Um personagem e tanto por trás das câmeras.


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