Retratos de Penn

Um dos recortes expressivos da trajetória do fotógrafo Irving Penn são os retratos. Suas lentes capturaram não apenas pessoas comuns, como também grandes figuras do mundo das artes, de atrizes a cineastas, de escritores a estilistas, como mostra a exposição Irving Penn: centenário, em cartaz no IMS Paulista entre 21 de agosto e 25 de novembro de 2018. A convite do IMS, Sergio Augusto, jornalista e escritor da área de cultura, escreveu pequenos textos para acompanhar alguns dos retratos à mostra. Numa linguagem saborosa, ele conta histórias dos personagens e da própria foto, que podem ser lidas aqui.

Audrey Hepburn (1929-1993)

Audrey Hepburn. Paris, 1951. Foto de Irving Penn. © The Irving Penn Foundation

Atriz de cinema, musa do costureiro francês Hubert de Givenchy e embaixadora especial da Unicef de 1988 a 1993. Para muitos, a mulher mais delicada, refinada e charmosa da tela, impecável na comédia e no drama, Audrey — que alguém disse ter mais sex-appeal na ponta do nariz do que outras atrizes no corpo inteiro — ganhou todos os prêmios do show business (Oscar, Tony, Emmy e Grammy) que disputou, e, de quebra, uma variedade de tulipa batizada com seu nome.

Nascida em Bruxelas, criada em Londres e Amsterdam, ela foi bailarina e modelo antes de estrear no cinema, aos 19 anos, em modestas comédias inglesas, que lhe abriram as portas de Hollywood. A princesa e o plebeu transformou-a em estrela e ainda lhe valeu um Oscar. Outras quatro vezes seria indicada ao prêmio de melhor atriz, ao longo de uma carreira que interrompeu em 1967 para dedicar-se inteiramente à criação dos filhos.

Penn fotografou Audrey em 1951, quando a atriz rodava, na França, seu quinto filme, Nous irons à Monte Carlo. Ela ainda faria um longa e duas séries de TV antes de estrelar, em 1953, A princesa e o plebeu.

Saul Steinberg (1914-1999)

Steinberg com máscara de nariz. Nova York, 1966. Foto de Irving Penn © Condé Nast

Desenhista e cartunista americano de origem romena, com passagem pela Itália, Paris, Nova York e Hollywood. Um dos artistas gráficos mais notáveis do século XX, mundialmente consagrado por seus trabalhos como ilustrador e humorista na revista The New Yorker, para a qual desenhou 85 capas e 642 ilustrações ao longo de quase 60 anos. Aforista do traço, seu grafismo lacônico, alternadamente figurativo e abstrato, irônico e satírico, grotesco e cubista, meio Grosz, meio Klee, meio Mirò, influenciou mais de uma geração de cartunistas mundo afora, entre os quais os brasileiros Millôr Fernandes e Jaguar.

Do pai impressor, encadernador e fabricante de caixas em Bucareste, herdou o fascínio por papel, rabiscos, marcas e carimbos. Sonhava com uma carreira literária, mas desistiu por causa da língua: “Ninguém lê romeno”. De todo modo, deixou sua marca até em escritores como Italo Calvino e Georges Pérec.

Ainda morava na Itália quando seus primeiros desenhos saíram em publicações argentinas, na década de 1930. Em dezembro de 1940, cinco anos antes de estrear na New Yorker, ilustrou sua primeira capa de revista, a carioca Sombra, lançada em  dezembro de 1940. Ganhou duas exposições no Brasil: no Masp (em 1952) e no Instituto Moreira Salles (em 2011).

Foto tirada em 30 de setembro de 1966. A máscara de papelão foi ideia do próprio Steinberg.

Colette (1873-1954)

Colette. Paris, 1951. Foto de Irving Penn © The Irving Penn Foundation

 

Escritora, jornalista e mímica. Numa época em que só artistas masculinos se identificavam pelo sobrenome, Sidonie Gabrielle Colette deu o primeiro passo para se impor como a primeira mulher moderna e liberada da França. Por acreditar que a mulher “é capaz de fazer tudo que um homem faz, exceto xixi, de pé, contra um muro”, militou com vigor pela liberação sexual feminina — por escrito e ao vivo —, escandalizando os setores mais conservadores da sociedade parisiense. Um espetáculo de pantomima que coestrelou com a amante, no Moulin Rouge, em janeiro de 1907, acabou sob vaias da plateia e intervenção da polícia. A obra literária que mais fama lhe deu, Gigi, publicada em 1944, virou musical na Broadway e depois filme, na década seguinte. Penn fotografou Colette em Paris, no verão de 1951, três anos antes de sua morte.

Frases de Colette:

“Faça qualquer besteira, desde que com entusiasmo.”

“O único ruído másculo que um homem produz numa casa é o de sua chave, quando ele está cambaleando e tentando encontrar o buraco da fechadura.”

“Algumas mulheres levantam as pestanas como se estivessem tirando a roupa.”

“Nossos companheiros perfeitos nunca têm menos que quatro patas.”

Le Corbusier (1887-1965)

Le Corbusier. Nova York, 1947. Foto de Irving Penn © The Irving Penn Foundation

 

Charles-Edouard Jeanneret-Gris, Le Corbusier, foi um arquiteto, urbanista, pintor, escultor e teórico suíço naturalizado francês. Um dos cinco maiores arquitetos do século XX, ao lado de Frank Lloyd Wright, Alvar Aalto, Mies van der Rohe e Oscar Niemeyer. Criou as bases do movimento moderno de características funcionalistas e abriu caminho para o international style de Rohe, Walter Gropius e Marcel Breuer.

Adepto das linhas retas, seu estilo despojado, síntese de influências sem limite geográfico, absorveu até soluções da arquitetura oriental. Duas vezes visitou a América do Sul, em 1929 e 1936, e numa delas sobrevoou o Rio de Janeiro em avião pilotado por Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe. Seu projeto de interligar toda a cidade por um sinuoso viaduto acabou relegado ao baú das utopias.

A foto de Le Corbusier foi tirada em Nova York, em 1947. Penn improvisou um assento biomórfico que prenuncia os voluptuosos contornos da capela de Ronchamp, na França, desenhada pelo arquiteto três anos depois.

Frase: “Por lei, todos os edifícios deveriam ser brancos.”

T.S. Eliot (1888-1965)

T.S.Eliot. Londres, 1950. Foto de Irving Penn © The Irving Penn Foundation

Thomas Stearns Eliot, poeta modernista, dramaturgo, editor e crítico literário. Nobel de Literatura de 1948. Nascido na América e autoexilado na Inglaterra desde os 25 anos de idade, acreditava que sua poesia não seria o que é se tivesse nascido na Inglaterra e não seria o que é se tivesse permanecido na América.

Nenhum outro poeta de língua inglesa exerceu mais influência no Ocidente que o autor de A terra inútil, A canção de amor de J. Alfred Prufrock e Quatro quartetos. Eliot é hoje mais conhecido pelo público em geral por causa do musical Cats, inspirado em 15 poemas sobre gatos de sua autoria, publicado em 1939, e duas frases de efeito: “Abril é o mais cruel dos meses” e “Poetas imaturos imitam, poetas maduros roubam”.

Um inglês típico, do chapéu ao guarda-chuva, fotografado em Londres, em 1950.

“Porque conheço tudo isso, tudo isso...
Conheço as noites, as manhãs, as tardes,
Tendo medido a minha vida com colherinhas de café
Conheço as vozes mortiças que aos poucos vão morrendo
Sob a música de uma sala afastada”

(A canção do amor de J. Alfred Prufrock, 1920. Trad.: Paulo Mendes Campos)

Elsa Schiaparelli (1890-1973)

Elsa Schiaparelli. Nova York, 1948. Foto de Irving Penn © The Irving Penn Foundation

 

Estilista romana de alma francesa e a maior referência da moda conceitual. Ligada a vanguardistas como Picabia, Duchamp, e, em especial, a Dalí, submeteu a moda a todas as possibilidades de expressão e liberdade. Sua inspiração tanto podia vir do circo como da astrologia, da música, da Commedia dell’Arte e do fundo do mar.

Foi a primeira do ramo a criar uma coleção temática, a quebrar a rigidez da roupa, rompendo com o padrão aprovado pelos maridos e pela sociedade da época. Visionária, com ideias inovadoras de inspiração surrealista, não impunha limites nem à ousadia nem ao exagero, o que talvez explique ter sido ela a estilista predileta da atriz Mae West.

Era o oposto da austera e discreta Chanel. Investia em cores vibrantes (deve-se a ela a expressão rosa-choque) e adereços chamativos, como botões em forma de castiçais, cartas de baralho, coroas e espelhos. Fazia (ou pretendia fazer) mais arte do que roupas e chapéus.

Schiaparelli posou para Penn em 29 de março de 1948, meses antes de ser convidada pelo cineasta John Huston para desenhar o figurino da personagem Jane Avril (Zsa Zsa Gabor) em Moulin Rouge.

W.H. Auden (1907-1973)

W.H. Auden. Nova York, 1947. Foto de Irving Penn. © The Irving Penn Foundation

Poeta e ensaísta anglo-americano, W.H. Auden (Wystan Hugh Auden) levou o prêmio Pulitzer de Poesia de 1947. “A melhor cabeça do século XX”, para o também poeta e ensaísta russo-americano Joseph Brodsky. Seu virtuosismo técnico e estilístico só não era maior que sua versatilidade e o ecletismo de suas escolhas. Fez versos políticos e morais, amorosos e religiosos, irônicos e enciclopédicos, modernistas e afeitos às formas simples da balada e do haicai. Pelo menos dois deles — Era da ansiedade e 1º de Setembro de 1939 — retrataram como nenhum outro o mundo que nos levou à Segunda Guerra Mundial.

Auden morou alguns meses em Berlim, no final dos anos 1920, passou cinco anos dando aulas na Inglaterra, na década seguinte, e dois meses agitando a propaganda republicana na Guerra Civil Espanhola, até se mudar para os Estados Unidos, em janeiro de 1939. Naturalizado americano em 1946, sustentou-se até o fim da vida ensinando poesia e cultura, dando palestras e escrevendo artigos e ensaios para as publicações mais importantes do Ocidente.

Foi ainda parceiro de Stravinky na ópera The Rake’s Progress e documentarista.

Esta foto foi tirada para uma reportagem da revista Vogue, em 1947, dois anos depois da publicação da primeira antologia poética de Auden na América.

Blues fúnebre

“Detenham-se os relógios, cale o telefone,
jogue-se um osso para o cão não ladrar mais,
façam silêncio os pianos e o tambor sancione
o féretro que sai com seu cortejo atrás.

Aviões acima, circulando em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Pombas de luto ostentem crepe no pescoço
e os guardas ponham luvas negras como breu.

Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto
meus dias úteis quanto o meu fim de semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto.
Julguei o amor eterno: quem o faz se engana.

Apaguem as estrelas: já nenhuma presta.
Guardem a lua. Arriado, o sol não se levante.
Removam cada oceano e varram a floresta.
Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante.”

(Tradução: Nelson Ascher)

Truman Capote (1924-1984)

Truman Capote. Nova York, 1948. Foto de Irving Penn © The Irving Penn Foundation

 

Escritor, roteirista, dramaturgo e jornalista. Autodidata precoce, Capote, nascido em Nova Orleans, aprendeu a ler e escrever sozinho, e ainda era adolescente quando guardou seus primeiros contos na gaveta.

Aos 17 anos, conseguiu uma ocupação burocrática na revista The New Yorker, até se firmar como um de seus mais destacados colaboradores. Também publicou narrativas curtas e reportagens em The Atlantic Monthly, Harper’s Bazaar e Mademoiselle. Sua romanceada não ficção, A sangue frio, publicada em 1966, é considerada o marco zero do jornalismo literário. Sua segunda obra mais famosa é a novela Breakfast at Tiffany’s, editada em 1958 e adaptada ao cinema três anos depois. Capote detestou o filme, lançado no Brasil com o título de Bonequinha de luxo.

Uma das línguas mais venenosas do mundo literário e artístico americano, Capote dedicou-se, no final da vida, a falar mal dos outros em programas de TV. Para Gore Vidal, talvez seu maior desafeto, Capote “fez da mentira uma arte — uma arte menor”.

Penn fotografou Capote duas vezes, em 1948 e nos anos 1960.

Frases de Capote:

“Gosto de televisão porque ela me permite falar coisas sobre as quais não acho que valha a pena escrever.”

“O fracasso é o tempero que dá sabor ao sucesso.”

“Não sou santo ainda. Sou alcoólatra. Sou viciado em drogas. Sou homossexual. Sou gênio.”

“A vida é uma peça de teatro razoável, com um terceiro ato mal escrito.”

Ingmar Bergman (1918-2007)

Ingmar Bergman. Estocolmo, 1964. Foto de Irving Penn © The Irving Penn Foundation

Diretor de cinema, teatro e televisão sueco. Dos artistas mais admirados e autorais do século passado, no palco (“a esposa fiel”) e na tela (“a grande amante, onerosa e exigente”), encenou Shakespeare, Molière, Ibsen, Strindberg, e legou ao cinema alguns dos mais intensos dramas sobre desajustes afetivos, o medo da morte, a crença (e descrença) em Deus e a problemática feminina, como Noites de circo, Morangos silvestres, O sétimo selo, Persona, O silêncio e Cenas de um casamento.

Bergman pertence a uma fase do cinema em que ainda era possível fazer e sonhar com filmes estética e emocionalmente ousados, exigentes e adultos, sem concessões ao gosto pausterizado das massas e às oscilações da moda. Seu complexo e dinâmico uso de sombras, closes, espelhos e profusas referências simbólicas deu aos filmes que dirigiu (um total de 70 em 57 anos de carreira) uma feição distintamente expressionista, que gerou discípulos até no cinema brasileiro.

Foto tirada em 1964, pouco depois do lançamento do filme Para não falar de todas essas mulheres. Justo no instante em que Bergman, ao cabo de duas horas e suando em bicas, fechou os olhos para descansar um pouco, Penn acionou o disparador da câmera.

Richard Avedon (1923-2004)

Richard Avedon. Nova York, 1978. Foto de Irving Penn © The Irving Penn Foundation

 

O mais inventivo fotógrafo de moda e publicidade dos Estados Unidos. Com ele, as fotos de moda, em contraste com as de Irving Penn, econômicas e estáticas, ganharam movimento, um tipo de glamour mais desenvolto, e sobretudo descobriram o ar livre. Mas Avedon foi muito além das passarelas, registrando com sua câmera a essência da energia e da inquietação dos anos 1960. Foram de sua autoria alguns dos melhores flagrantes da campanha pelos direitos civis.

Célebre por imortalizar a ninfeta Brooke Shields apertada em um jeans Calvin Klein e a atriz Nastassja Kinski enroscada, nua, numa jiboia, para a revista Vogue, seus trabalhos ajudaram a definir a imagem do estilo, da beleza e da cultura da América, na segunda metade século XX. Diretor de arte da revista Harper’s Bazaar, colaborador de Vogue, Life e Look, serviu de inspiração ao personagem de Fred Astaire no musical Cinderela em Paris e foi, em seus últimos 12 anos de vida, fotógrafo exclusivo da revista The New Yorker.

Avedon posou algumas vezes para o velho amigo Penn. Esta foto é de setembro de 1977.

Nathan (1882-1958) e Mencken (1880-1956)

George Jean Nathan e H.L.Mencken. Nova York, 1947. Foto de Irving Penn © The Irving Penn Foundation

George Jean Nathan (1882-1958) e H. L. Mencken (1880-1956), a dupla de jornalistas que mais contribuiu para civilizar a América. Revelaram ao público nova-iorquino o teatro de Ibsen, Shaw,  Eugene O’Neill, Tennessee Williams e Arthur Miller. Eram críticos brilhantes e mordazes de quase todas as artes nas revistas The Smart Set, The American Mercury e The American Spectator, em guerra permanente com a mediocridade, os preconceitos e a hipocrisia da sociedade americana.

Nathan, modelo de Addison DeWitt, o crítico teatral encarnado por George Sanders no filme A malvada, era capaz de demolir em poucas palavras uma peça ou um filme ruim. É dele um dos motes mais plagiados por intelectuais blasés do mundo inteiro: “Bebo pra tornar as outras pessoas interessantes”.

Mencken, polemista, lexicógrafo, analista implacável da política, das religiões organizadas, dos ricaços exibicionistas e do sentimentalismo da classe média, deixou um farto acervo de frases memoráveis:

“Quando se ouve um homem falar de seu amor por seu país, podem saber que ele espera ser pago por isto.”

“Nunca pus um charuto na boca antes dos nove anos.”

“Viver neste mundo sem se deixar contaminar por seus preconceitos morais é como passar uma temporada no inferno sem suar.”

“Toda pessoa normal se sente tentada, de vez em quando, a cuspir nas mãos, içar a bandeira negra e sair por aí cortando gargantas.”

“Imoralidade é a moralidade daqueles que estão a se divertir mais do que nós.”

“Pode ser um pecado pensar mal dos outros. Mas raramente será um engano.”

Nathan (à esquerda) e Mencken posaram para esta foto em 1947.