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Um projeto ético, uma luta sem fim

21 DE DEZEMBRO DE 2018 |

Curador da exposição Claudia Andujar: a luta Yanomami, Thyago Nogueira destaca o paradoxo que permeia e torna ainda mais relevante o projeto da artista, relembrado em aproximadamente 300 imagens e uma instalação que ocupam dois andares do IMS Paulista até abril de 2019. Desde 1971, quando encontrou pela primeira vez esse povo indígena ameaçado de extinção, Claudia percebeu a importância de revelar ao Brasil e ao mundo, em suas fotografias, a devastação que o grupo sofria com obras do governo e garimpos na região amazônica. Foi adiante em sua tarefa, mesmo que isso significasse transgredir os próprios valores Yanomami. “Quando alguém morre, os Yanomami apagam tudo o que pertenceu a essa pessoa, todos os seus rastros, para que não aumente o sofrimento de quem ficou. Eles não têm uma boa relação com a imagem”, lembra Thyago. “Então esses registros fotográficos existem por uma certa licença deles, pela urgência de perceber que a fotografia era um instrumento que poderia salvá-los da mesma sociedade que criou esse instrumento, e que está massacrando sua população”.

Como resume o curador, a obra de Claudia com os Yanomami não existe como um projeto estético, mas “como um projeto ético”. Um projeto que, embora construído ao longo das décadas de 70 e 80, permanece atual diante da renovação das ameaças do presidente eleito da República, Jair Bolsonaro, de rever demarcações de terras indígenas e autorizar o garimpo em várias delas. “Nossa luta não acabou, a luta vai continuar”, afirmou a fotógrafa durante a conversa que marcou a abertura da exposição, dia 15 de dezembro. “Provavelmente vai haver um movimento para tirar a importância das terras indígenas e de seus povos, não só dos Yanomami. Então vocês que estão aqui devem pensar nisso. No fato de que nós vamos ter que continuar a defender os valores das culturas indígenas, dos povos originais que estavam aqui antes da chegada dos europeus. Todo ser humano tem o direito de viver, é isso que tem que ser entendido.”

O curador lembra que a exposição, pensada há anos como um documento histórico, uma homenagem a uma das grandes artistas brasileiras – que nasceu na Suíça, foi criada na Transilvânia, voltou para a Suíça durante a Segunda Guerra depois que a família de seu pai, de origem judaica, foi exterminada pelos nazistas, emigrou para os Estados Unidos, e chegou ao Brasil em 1955 – acabou ganhando uma outra dimensão em 2018. “Vieram as eleições, e o que era homenagem virou algo urgente. A estupidez com que a questão indígena está sendo tratada pelo novo governo é a mesma que fez o trabalho da Claudia ser tão importante nos anos 1970”, observa ele. “Tudo está sendo repetido exatamente da mesma forma, é chocante.”

A mostra, concebida a partir da pesquisa minuciosa realizada durante anos no arquivo da artista, composto por mais de 40 mil negativos, é quase didática ao acompanhar cronologicamente o percurso de Claudia, expondo a transformação de um projeto jornalístico e artístico em uma luta política. “Queremos que o público se aproxime e entenda esse universo complexo e rico que é a cultura Yanomami, e não o veja numa chave estereotipada, como normalmente acontece”, diz Thyago.

Nesta conversa com Thyago Nogueira ocorrida na abertura da exposição e registrada por Maria Clara Villas, Claudia Andujar conta mais sobre sua vida, desde os anos difíceis na Europa durante a Segunda Guerra até a descoberta do Brasil e, depois, do povo Yanomami, que se transformou no projeto maior de sua vida

No primeiro andar do IMS Paulista está o trabalho realizado pela fotógrafa na região do Catrimani, em Roraima, entre 1971 e 1977. Nesse conjunto, vê-se a obra da jornalista que, aos 40 anos, contratada pela revista Realidade, mergulha num universo distinto sem ainda compreendê-lo direito. Aos poucos vai ampliando seu entendimento e também a complexidade das obras que produz, fazendo experimentações de luz e sombra para tentar traduzir em imagens o que não se enxerga a olhos nus. “Há toda uma riqueza do mundo espiritual que você não vê. Grande parte da vida dos Yanomami se passa num plano espiritual, mental. Para eles tudo é conectado, o personagem real e o mítico convivem no mesmo plano”, explica Thyago.

O trabalho de Claudia vai se transformando até o momento em que o que ela faz deixa de ser jornalismo, ou documentação antropológica. “Ela se vê livre para construir com os índios uma interpretação original da cultura deles, que vai se transformar numa representação de luta”, afirma o curador. No primeiro andar estão à mostra alguns dos desenhos originais do universo Yanomami feitos pelos próprios índios, resultado de um projeto proposto a eles por Claudia em 1974.

O segundo andar lembra de maneira contundente as razões das batalhas travadas pela fotógrafa principalmente a partir de 1977, quando ela é expulsa da terra dos Yanomami pela Funai, já que seu ativismo começava a chamar a atenção da ditadura militar. Ali estão os registros da devastação, em forma de doenças ou atos violentos, que os índios sofreram no contato com os brancos. Grande parte dessa documentação pode ser vista numa nova versão da instalação Genocídio do Yanomami: morte do Brasil, apresentada pela primeira vez em 1989, e que projeta, em 16 telas, imagens de um mundo em derrocada feitas entre 1972 e 1984.

“Depois da expulsão Claudia foi se engajando mais, publicando livros, levantando fundos e denunciando no Brasil e no exterior as mortes em massa dos índios, vítimas das doenças como sarampo e varíola, levadas pelos trabalhadores das construtoras na região”, relembra Thyago. Em 1978, ao lado de Carlo Zacquini, missionário que já vivia com os Yanomami e a ajudou na aproximação com eles desde sua chegada ao Catrimani, e do antropólogo Bruce Albert, ela consegue montar a Comissão Pela Criação do Parque Yanomami (CPPY). Sua obra funcionava todo o tempo como um testemunho precioso e incontestável da realidade indígena. Depois de muitos anos e brigas em diversas instâncias de governo, ela vê finalmente, em 1992, a demarcação das terras Yanomami virar realidade.

Durante o processo de pesquisa e organização da mostra, que precisava apresentar, ao mesmo tempo, a carreira de uma artista importante e a história de uma cultura distinta e complexa, Thyago diz ter se envolvido de maneira visceral com a questão. “Foi uma exposição muito difícil de montar, foi difícil ver a crueldade. Espero que a gente consiga explicar a gravidade da situação, o massacre que temos feito há 400 anos com uma população completamente indefesa”. O curador lembra que os Yanomami se referem a Claudia como mãe, e garantem que só estão vivos por causa dela. Uma mulher que decidiu lutar pela sobrevivência de um povo e mostrou “que com esse compromisso conseguiu fazer uma mudança para a história do país e da humanidade”.


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