Ailton Silva, o alquimista

15 de maio DE 2019 |

Ainda garoto ele já mostrava ser bom, muito bom, nas aulas de química. Em suas lembranças de moleque ganham destaque aquelas experiências malucas de misturar de tudo um pouco para ver no que vai dar. Para Ailton Silva, deu na profissão que ele abraçou em 1995, aos 15 anos, quando entrou num laboratório fotográfico como aprendiz e, diante das imagens brotando dos papéis imersos em reveladores, pensou: é aqui que eu quero ficar. Ficou até 2001, quando chegou ao Instituto Moreira Salles, no Rio, e se tornou, um ano depois, responsável pelo laboratório fotográfico da instituição. A vocação e a curiosidade de alquimista só cresceram, e o levaram além da tarefa de ampliar e imprimir, com maestria, as imagens do gigantesco acervo do IMS. Há alguns anos ele vem se dedicando a refazer processos históricos de fotografia, o que significa criar seus próprios reveladores, papéis e negativos de vidro para alcançar a excelência conseguida por Marc Ferrez, uma das estrelas da coleção do IMS, no século XIX.

Isso mesmo. Para Ailton, nada se compara à beleza de um negativo de vidro de colódio, exatamente como aqueles feitos por Ferrez, ele próprio um entusiasmado pesquisador de técnicas e novos processos em seu tempo. Se esse negativo ganhar uma cópia em papel albuminado, então, é o paraíso. “A casadinha do colódio com esse papel foi feita para funcionar, é uma coisa maravilhosa, perfeita. Ferrez e outros daquela época sabiam o que faziam. E com o negativo de vidro de 30cm, 40cm, você já começa o trabalho com uma matriz muito maior, então a cópia é sublime, os tons incríveis! Não há comparação”, conta ele, que também é fotógrafo. E exigente. “Eu só fotografo com filme, sou totalmente analógico, não conseguiria fazer nada melhor com uma câmera digital”.

Mergulhado nesse universo aparentemente anacrônico numa era de imagens digitais de alta precisão, Ailton não esconde a empolgação ao descrever as inúmeras experiências na fabricação do próprio colódio – que ele prepara em seu ateliê, no Centro do Rio –, técnica que apenas mais duas pessoas no Brasil, segundo ele, dominam. Fala da mistura do éter, do ácido sulfúrico, do ácido nítrico, dos muitos erros e acertos até achar a temperatura ideal para nitratizar o algodão sem provocar sua combustão… Aos 39 anos, Ailton ainda é aquele garoto apaixonado por química que explica, com evidente orgulho e felicidade, como se constata no vídeo abaixo, registrado por Laura Liuzzi, o processo de criação de um negativo de vidro de colódio e sua posterior cópia em papel albumina.

A admiração pelo trabalho de Ferrez vem de longa data. O laboratório no qual Ailton começou a trabalhar em 1995 mantinha uma área de organização e conservação de acervos e pertencia a Sergio Burgi, que em 1999 se tornaria o coordenador de Fotografia do IMS. Em 1998, quando o instituto adquiriu a Coleção Gilberto Ferrez, com 15 mil imagens do fotógrafo filho de franceses, nascido no Rio, Burgi foi contratado para analisar o material. O jovem aprendiz foi com ele. “Ailton já era o que é hoje. Tinha toda a capacidade de enfrentar desafios, uma grande sede de conhecimento”, afirma Burgi, ressaltando que uma das exigências para que o garoto permanecesse no trabalho era apresentar um boletim escolar com boas notas. Mais tarde, ao estruturar o laboratório fotográfico do IMS, não pensou duas vezes em chamá-lo. “Era a parte que eu gostava, tratar, limpar, higienizar. Já ampliei negativos de quase todos os fotógrafos do acervo”, lembra Ailton.

Burgi diz que o laboratorista nunca deixou de surpreendê-lo, em todos esses anos de trabalho conjunto. “Uma coisa é você dominar um fazer, que é algo que vem com a prática, com o aprendizado. Outra coisa é pegar toda essa bagagem para fazer uma pós, e pensar outras questões. Hoje ele dialoga num nível altíssimo com a fotografia contemporânea e com a do século XIX”, afirma o coordenador, lembrando ainda os sinceros elogios que o trabalho de Ailton arranca de profissionais exigentes, como Claudia Andujar, que tiveram suas obras ampliadas por ele para exposições (Claudia Andujar: a luta Yanomami, estreou no IMS Paulista e chega ao IMS Rio em julho deste ano).

A partir daquele primeiro encontro com a obra de Ferrez, o contato de Ailton com a produção daquele que é considerado o principal nome da fotografia brasileira do século XIX tornou-se cada vez mais próximo. Em 2005, o IMS começou a preparar a exposição O Brasil de Marc Ferrez, que seria apresentada no ano seguinte. O objetivo era produzir cópias em papel albuminado a partir dos negativos originais de vidro do fotógrafo, para obter um resultado mais próximo do que o próprio fazia. Ailton, ao lado de João Carlos Horta e Tiago Moraes, trabalhou no projeto com afinco, quebrando muita cabeça, como ele diz, para dominar o processo. Algumas daquelas ampliações, aliás, podem ser vistas na mostra Marc Ferrez: Território e imagem, em cartaz no IMS Paulista até dia 21 de julho. “Foi algo mágico para mim, minha maior experiência com fotografia, com certeza”, reconhece. “Eu, muito curioso, ia atrás de tudo, querendo entender o que estava acontecendo. Até então jamais poderia passar pela minha cabeça que seria possível fazer uma cópia em albumina nessa altura. Achava lindo, mas impossível. Depois disso nunca mais parei de trabalhar com processos históricos. Fiz cianotipia, platinotipia, platino/paládio...”.

Negativo de vidro de colódio (à direita) feito por Ailton Silva no IMS Rio. À esquerda, a cópia em papel albumina

Portanto, quando ele matutava um tema para guiar seu trabalho na pós-graduação, em 2009, na Universidade Cândido Mendes, sua ligação com o passado acabou sendo a escolha óbvia. E assim nasceu o projeto Álbum comparativo do fotógrafo Marc Ferrez, no qual Ailton revisitou alguns dos pontos geográficos do Rio de Janeiro registrados há muitas décadas. Chegou a passar dias abrigado na Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, para conseguir reproduzir com exatidão as panorâmicas fantásticas que se tornaram a marca registrada de Ferrez. Foi testando exaustivamente enquadramentos, luzes, materiais, misturando o digital ao analógico. O resultado da empreitada, com suas fotos ao lado das de Ferrez, virou, além da dissertação, uma exposição homônima em 2010 no Centro Cultural Carioca.

O fotógrafo Ailton expôs  seus trabalhos em outras ocasiões. Em 2017, por exemplo, apresentou a individual Albuminas contemporâneas, no Centro Cultural Justiça Federal, e participou da coletiva Artesania fotográfica - A construção e a desconstrução da imagem, no BNDES, usando papéis albuminados de grande formato como suporte. Na confecção de tanto papel, gastou nada menos do que 30 dúzias de ovos. E fez um acordo com uma padaria vizinha para que ela aproveitasse todas as gemas (na confecção do papel somente a clara do ovo é necessária) em pães, bolos e doces. Depois disso, ele percebeu que precisava avançar ainda mais em sua pesquisa. “Vi que eu já dominava a albumina, mas a matriz, ou seja, o negativo, ainda não era sensacional. Aí nunca me sentia satisfeito. Então investi pesado na pesquisa sobre o colódio. As pessoas que investigaram isso a fundo no século XIX desenvolveram uma coisa para a outra”.

Ao fabricar os próprios colódio e papel, Ailton teve mais folga para investir num item igualmente fundamental: as câmeras de grande formato, como as usadas por Ferrez no século retrasado. Além de uma Svedovski, polonesa, de 11 x 14 polegadas, que ele usa mais frequentemente, comprou outra de 21 x 37 cm (para fazer panorâmicas) e uma terceira de 16,5 x 26,5 cm. “Priorizei esses formatos pensando em desenvolver o trabalho em torno de Ferrez com o IMS, reproduzindo os pontos de vista que ele fotografou, mas indo além. Quando se tem o equipamento certo fica mais fácil. É muito chato fazer o que ele fez em formato digital, por exemplo. Parece uma cópia aguada de algo muito mais bacana”, observa.

Ailton Silva mostra o negativo de vidro de colódio, feito no IMS Rio, à moda de Marc Ferrez. Foto de Laura Liuzzi

Sergio Burgi ressalta a importância de ter um profissional como Ailton dentro de uma instituição como o IMS, que não é apenas um abrigo para um acervo gigantesco. O coordenador argumenta que toda fotografia “é performance, pura interpretação”, e que cada arquivo de autor precisa ser lido e elaborado por novas gerações. Como uma leitura de partituras, na qual cada músico encontra seu tom próprio. “O legado da fotografia na cultura é muito maior do que está nos arquivos. A mera reprodução dela não é o entendimento dela. Guardadas as proporções, um laboratorista de ponta é como um violinista de ponta”, compara ele.

Ou seja, no caso da imersão de Ailton no trabalho de Ferrez, o que ele procura não é simplesmente achar o lugar exato em que o fotógrafo do século XIX registrou determinada imagem. “É necessário entender o processo inteiro, o colódio, a albumina, o equipamento da época. E Ailton faz isso, vai buscar novas leituras. Ele deu um salto para um tipo de projeto que podemos fazer aqui. Nesse caminho ele aprende tanto para ele, como linguagem própria, como para o IMS, de pesquisa sobre o acervo. É muito prazeroso ver alguém com esse domínio tão elaborado do fazer”.

Se no decorrer do projeto, ainda em andamento, Ailton procurou os mesmos enquadramentos, mesmos processos, mesmos suportes e até os mesmos equipamentos usados por Ferrez, ele reitera a afirmação de Burgi, lembrando que este é um trabalho que ultrapassa em muito a dimensão da homenagem. “Torna-se uma reflexão sobre o fazer fotográfico. Acho que esse é um trabalho importante para o IMS, mas por outro lado também estou investindo em minha linguagem. E quero fazer algo dentro da cidade que não seria possível para Ferrez naquela época, consigo avançar no que ele fez. Viajar um pouco, experimentar as coisas”.

Por falar em experimentação, foi durante as muitas tentativas de encontrar a fórmula perfeita do colódio, sem ajuda de qualquer manual, que Ailton criou o que ele considera uma das mais belas séries que já fez como artista visual. Todos os erros inevitáveis causados pelo colódio que passou do ponto, pelo nitrato de prata derramado sem querer sobre o negativo de vidro – dando a ele um tom inesperado, mas bem-vindo –, ou pelo próprio vidro quebrado e incorporado a um suporte de papel são comemorados pelo fotógrafo. “Acabei criando coisas realmente interessantes. Por isso achei que deveria investigar melhor esses erros e estou indo adiante”, conta ele, que por enquanto só compartilha as imagens nas redes sociais, mas tem planos de expor os trabalhos “errados” algum dia. O alquimista continua a exercer sua vocação.

Mànya Millen é jornalista e integra a coordenadoria de internet do IMS