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Arquivo Peter Scheier


Texto da curadora

Heloisa Espada

O Instituto Moreira Salles possui cerca de 35 mil imagens do fotógrafo alemão Peter Scheier (Glogau, Alemanha, 1908-Ainring, Alemanha, 1979), a maioria negativos fotográficos de sua trajetória profissional no Brasil. O acervo inclui também um vasto conjunto de documentos – certificados, contratos, cadernos, cartões de visita, carimbos, portfólios, álbuns de família, livros, revistas e jornais – que, junto com as fotos, contam sobre a atuação diversificada do Estúdio Peter Scheier, uma empresa familiar que funcionou na cidade de São Paulo entre o início da década de 1940 e 1975, quando o fotógrafo e sua esposa, Gertrudes Willheim, retornaram para a Alemanha.

A exposição Arquivo Peter Scheier é resultado de um mergulho nessa coleção do IMS e de pesquisas em coleções particulares e acervos de outras instituições que possuem obras do fotógrafo, como o Instituto Peter Scheier, a Casa de Vidro, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. A mostra destaca alguns conjuntos fotográficos notáveis na trajetória de Scheier – sua passagem pela revista O Cruzeiro, seu trabalho junto ao Masp nos anos 1940 e 1950, os registros da I Bienal de Artes de São Paulo, a intensa colaboração junto a arquitetos modernos baseados em São Paulo, a fotografia de indústria, além de reportagens sobre Brasília e Israel. Ao mesmo tempo, por meio de documentos variados, a exposição procura evidenciar que a imensidão de seu arquivo permite outras leituras e outras interpretações.

Comerciante judeu da pequena cidade alemã de Glogau, Peter Scheier se refugiou no Brasil em 1937. Construiu sua trajetória profissional em São Paulo, num momento de crescimento econômico do país e em contato com outros imigrantes que se instalaram aqui durante e após a Segunda Guerra Mundial. Scheier testemunhou aspectos marcantes das transformações da sociedade brasileira nos anos 1940 e 1950. Do ponto de vista formal, muitas de suas imagens – sobretudo os registros de arquitetura, da indústria e da metrópole São Paulo – constroem uma imagem idealizada dos “anos dourados” no Brasil. Por outro lado, sua atuação junto à revista O Cruzeiro explicita as contradições profundas já presentes naquele processo de crescimento econômico, seja por reportagens sobre as misérias do país ou pelo viés preconceituoso e sensacionalista que caracterizava a publicação. O trabalho de Scheier foi pautado pelas transformações que marcaram o fotojornalismo internacional a partir dos anos 1930, por soluções formais de caráter moderno e por compromissos comerciais. Seu arquivo, como um todo, revela as ambiguidades de uma sociedade de muitas faces. Não apresenta uma síntese do Brasil, mas, antes, uma realidade de difícil leitura.


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