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A grande viagem da fotografia

13 DE janeiro DE 2020 |

No dia 25 de setembro de 1839, o navio-escola mercante Oriental-Hydrographe partiu do porto de Paimboeuf, no estuário do rio Loire, no oeste da França, para uma longa viagem de circum-navegação do globo. Levava a bordo 80 jovens franceses e belgas, instrutores, instrumentos científicos e algo totalmente inédito numa expedição daquele tipo: um aparelho de daguerreotipia, técnica fotográfica que reproduz imagens sobre uma placa de cobre revestida em prata. Havia poucos meses que o invento se tornara público, anunciado por um de seus desenvolvedores, Louis-Jacques-Mandé Daguerre (1787-1851), que durante anos aperfeiçoou o artefato em parceria com Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833). A viagem vinha sendo preparada desde 1838, mas teria sido "segurada" pelo capitão Antoine Lucas para receber a bordo o aparelho, apenas um mês depois da sua apresentação oficial, em 19 de agosto, numa reunião conjunta das academias francesas de Ciências e de Belas Artes. O governo acabara de comprar os direitos sobre o invento, colocando-o em domínio público. Em troca, deu a Daguerre e à família de Niépce uma pensão vitalícia e, ao mundo todo, acesso àquela arte embrionária, através de um artefato que prescindia de conhecimento técnico e por uma quantia que o jornal Gazette de France já havia classificado como "irrisória".

Essa viagem e seus desdobramentos são tema do livro O Oriental-Hydrographe e a fotografia, da historiadora e pesquisadora carioca Maria Inez Turazzi, com lançamento na quinta-feira, dia 16 de janeiro, às 18h30, no IMS Rio. Às 20h, ela fala sobre sua extensa pesquisa numa mesa-redonda com a participação do pesquisador Pedro Vasquez, do diretor do Centro de Fotografia de Montevidéu, Daniel Sosa, e do diretor do Museu Histórico Nacional, Paulo Knauss, com mediação de Sergio Burgi, coordenador de Fotografia do IMS.

 

O Oriental-Hydrographe e a fotografia
Edição em português do livro O Oriental-Hydrographe e a fotografia, de Maria Inez Turazzi

 

“O livro da Maria Inez tem uma ligação muito forte com a fotografia, porque é a primeira embarcação a incorporar um equipamento fotográfico para uma viagem de circum-navegação que tem vários desdobramentos”, diz Burgi. “Está associado a questões amplas, como qual o papel da imagem tanto no sentido de difusão quanto de poder, domínio e presença. É uma invenção francesa, num navio francês, que tem o objetivo de levar uma nova tecnologia ao resto do mundo, algo de imperial.”

A data do lançamento no IMS carioca não é aleatória. Foi num dia 16 de janeiro, há 180 anos, que Louis Comte, capelão do navio, onde também ministrava a bordo disciplinas como religião e música, produziu as primeiras fotos do espaço urbano do Rio de Janeiro. Pelo menos duas imagens atribuídas a ele sobreviveram: uma delas é a do chafariz de Mestre Valentim no Largo do Paço; a outra, uma vista do mercado da Candelária e a então chamada praia do Peixe, com o mosteiro de São Bento ao fundo, vistos do cais Pharoux. Uma terceira, em que D. Pedro II chega de carruagem ao Paço, vem tendo sua autoria contestada por historiadores, a partir de investigações técnicas e historiográficas. (Aqui, é necessário um parêntese para dizer que o imperador tornou-se um dos maiores entusiastas da fotografia no país; em março, dois meses depois da chegada do Oriental-Hydrographe, já manipulava o seu próprio daguerreótipo.)

As três imagens citadas faziam parte do acervo da família imperial, e foram vendidas por d. Pedro Carlos, trineto do imperador, a um colecionador paulista. Estão reproduzidas no livro, que traz 160 imagens – apesar de o título se referir a fotografia, elas são poucas, pois era uma técnica bem recente na primeira metade do século XIX. A maior parte das ilustrações reproduz documentos, pinturas, mapas, gravuras e desenhos, como o que retrata o Palácio de São Cristóvão, onde o aparelho também teve uma demonstração.

“Meu projeto sempre foi o de pesquisar o que considero a grande contribuição desse livro: não ser apenas uma descrição dessa viagem, mas fazer uma conexão entre o universo marítimo do século XIX e a cultura visual da mesma época”, explica Maria Inez. Não é um livro só descritivo. “Trata do universo marítimo porque é a história de uma expedição naval, imbuída de espírito das viagens de circum-navegação, O imaginário dessas viagens era muito grande.” A ideia foi colocar na obra a visualidade da época, as imagens que aquelas pessoas conheciam.

 

O Oriental-Hydrographe e a fotografia
Folheto de propaganda do Oriental-Hydrographe divulgando a expedição, 1839. Arquivos Diplomáticos da Bélgica, Bruxelas. À direita, cabine de um navio mercante da mesma época. Gravura publicada na revista Le Magasin Pittoresque, Paris, 1840. Desenho de A.J.A./ Coleção particular - Rio de Janeiro

 

É assim que, ao lado de fragmentos de jornal, anunciando a viagem do Oriental-Hydrographe, e folhetos de propaganda que listavam as condições de admissão ao navio-escola e instruções para as famílias com jovens no empreendimento, há desenhos e gravuras do porto de Paimboef no período da expedição e das cidades visitadas, como Lisboa, Rio de Janeiro e Montevidéu; cenas da vida dentro de um navio-escola à época, e até uma vasta iconografia de naufrágio, como a reprodução da capa do primeiro volume de Naufrágios célebres, publicada pelo capitão Lafond de Lurcy em 1843, ou um litogravura, de autor desconhecido, dos restos de um naufrágio na baía do Rio de Janeiro. O tema tem razão de ser: o Oriental-Hydrographe naufragou (sem vítimas fatais, à exceção do projeto propriamente dito) ao largo de Valparaíso, no Chile, em 23 de junho de 1840. Este fato, diz a autora, explica em parte o silêncio em torno da viagem.

“Era uma expedição da Marinha Mercante, foi cercada de muito entusiasmo e recebeu apoio financeiro e logístico da França e da Bélgica, mas fracassou em seu objetivo”, conta Maria Inez. A viagem foi palco de duelos. “Muitos alunos e professores abandonaram o barco nos portos, oficiais já vinham recebendo informações de que era uma bagunça, que o capitão era libertário, considerado muito tolerante com a indisciplina.” Não interessava colocá-la nos anais da circum-navegação. “Houve inclusive suspeita de que o naufrágio, diante de todos esses episódios, fora planejado, talvez para receber o seguro.”

 

O Oriental-Hydrographe e a fotografia
Mapa mostrando a costa acidentada e rochosa de Playa Ancha, Valparaíso, no Chile, onde o Oriental-Hydrographe naufragou, c. 1850. Litografia de Jacobsen Hermes/ Biblioteca Nacional do Chile

 

A pesquisadora Inez decidiu "tirar o navio do fundo do mar" ao visitar uma exposição no Paço Imperial, em 1998, com foco em daguerreótipos de coleções cariocas. Mas a pesquisa se iniciou de fato em 2001, quando, durante uma estadia de um ano na França, embrenhou-se em numerosos arquivos em busca de documentos. O trabalho, que a levou também a Portugal, à Bélgica e ao Uruguai, entre outros países, foi interrompido em várias ocasiões – nesse meio tempo, conciliou a carreira acadêmica com a publicação de alguns livros, mas escreveu dois artigos sobre a expedição que a fascinara, publicados na Revista de História da Biblioteca Nacional e na Revista Acervo do Arquivo Nacional.

Nos artigos, e mais detalhadamente no livro, ela aponta que a popularização da fotografia provocada pelo Oriental-Hydrographe não foi casual. “O que demonstro no livro é que não é só apego pela novidade. Há uma rede de conexões de interesses diplomáticos, culturais, de fazer uma difusão da fotografia pelo mundo.” A imprensa, na época, trazia a novidade da invenção antes mesmo da própria invenção: “Havia uma expectativa em conhecê-la. Foi a primeira invenção a ter essa grande promoção cultural, antecipada ao próprio conhecimento.”

O livro que chega agora ao Brasil foi editado pelo Centro de Fotografia de Montevidéu, ligado à prefeitura da capital uruguaia, e que promove um extenso trabalho de preservação e difusão dessa arte. Ganhou três versões diferentes, em espanhol, inglês e português, esta com apoio do IMS. A autora almeja agora uma edição em francês, língua-mãe daqueles homens e jovens que se lançaram ao mar em 1839.

Nani Rubin é jornalista e integra a coordenadoria de internet do IMS


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