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Contraste

Reencontro com o desconhecido

18 de fevereiro de 2020 |

Um sentimento comovente e perturbador tomou conta de Bettina Lenci, filha do fotógrafo Peter Scheier, na noite em que esteve no IMS Paulista para assistir à abertura da exposição do pai. Na imensidão da Galeria 3 ocupada pela obra de Scheier, Bettina descobriu um pai que não conhecia. Ainda tomada por esta emoção, ela escreveu e postou em seu site pessoal o texto reproduzido abaixo.

Ao meu pai, em tempo

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A voz que aqui escreve é minha mesmo. Não sei como contar o que segue sem ser debulhando meus sentimentos sobre o que vivi no dia 25 de janeiro de 2020, data da inauguração da exposição de fotos de Peter Scheier no Instituto Moreira Salles.

Meu pai, fotógrafo durante as décadas de 40 a 70, ficou conhecido por ser um dos bons fotógrafos comerciais da época. A família sobreviveu com o ganho do seu trabalho.

O fotógrafo Peter Scheier / Acervo IMS

Iniciou sua carreira de fotojornalista na revista O Cruzeiro. Dessa fase o IMS expõe fotos impressas da revista. O universo de seus serviços abrangia fotos de arquitetura, fábricas, eventos políticos, história da vida de seus filhos, e também a história do Museu de Arte de São Paulo e a construção de Brasília, desde os primórdios. Este período está amplamente explorado nesta homenagem ímpar e histórica à foto em si e ao Fotojornalismo Brasileiro.

Todos temos um pai. Fictício, real, desconhecido, substituto, um número infinito de adjetivos para se “chamar de pai”. Eu tenho o meu. É real até onde o “vejo” como ele era ou foi para mim. Nesse dia 25, desnudo um pai desconhecido que despertou sentimentos – vamos denominá-los de “psico / afetivos / emocionais, na falta de outros melhores – ocultos até hoje para mim. (Lembro que não sou mais adolescente e sim uma senhora de idade que atende por avó).

Quando entrei no espaço da exposição – aliás maravilhosamente montada no IMS – a primeiríssima, a imediata manifestação foi uma lágrima. Olhei para aquele imenso recinto que só pertencia aos 40 anos de trabalho de Peter Scheier, a esta altura ainda meu pai cuja influência em minha vida é indelével.

Ao voltar para casa exaurida e estranhamente órfã, meus sentimentos estavam embaralhados. Não sabia como adotar as sensações até então desconhecidas para mim.  Faltava uma informação, uma apenas, que obtive nesse dia 25 de janeiro:  Peter Scheier não foi meu pai! O conjunto de sua obra fotográfica me mostrou que seu mundo não foi o da família. Suas estranhezas passaram a fazer sentido. Ele vivia um mundo isolado, com ligações afetivas pouco claras com a gente. Fomos excluídos do seu mundo: a matéria externa da forma, da natureza, do movimento, das cores, a busca de sentido “das coisas”, a busca de Deus. Um mundo ocupado com a interpretação da vida no ângulo de sua lente, do seu ponto de vista humano (pode-se observar, no conjunto da exposição, a intensa presença do Homem).

Ouvi a avaliação de uma visitante e belíssima fotógrafa, Maureen Bissiliat: “É impressionante! Seu pai não fotografava para ele. Ele fotografava para o Outro.”

Peter Scheier, ou injustamente PS como sempre o identifiquei, foi um criador de imagens que contam histórias e é assim que todo fotógrafo merece ser reconhecido.

Descobri, transformada de menina filha em adulta, por acaso filha de Peter Scheier:  O Respeito. Respeito que nunca percebi ser o sentimento que lhe devia em vida, e isso deve tê-lo machucado. Hoje, dia 25, imagino que deve ter sofrido a falta do meu respeito. No IMS ele foi dignamente respeitado e reconhecido.

Respeito, hoje, mais do que nunca, significa educação emocional, percepção avançada, sensibilidade e, ao menos, um bom verniz de cultura.

Provavelmente era o que ele esperava de nós filhos. Desculpa, pai!