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Eduardo Coutinho ocupa o IMS

6 DE OUTUBRO DE 2020 |
Exposição Ocupação Eduardo Coutinho no IMS Rio. Foto de Laura Liuzzi

 

Documentarista cujos filmes têm uma escuta atenta sobre as narrativas de seus entrevistados, Eduardo Coutinho costumava dizer que toda memória é inventada. A frase se referia à escolha e à interpretação de cada um sobre fatos passados, que não podiam ser checados pelo diretor.  Mas a memória do próprio cineasta, o legado de sua vida e de sua obra, tem uma narrativa incontestável e bem documentada. E estará sendo contada a partir de 10 de outubro na Ocupação Eduardo Coutinho, mostra que reabre à visitação do público as galerias do IMS Rio, fechadas desde 14 de março devido à pandemia da Covid-19.

O visitante terá toda a segurança para explorar a exposição, de acordo com as normas sanitárias impostas pela pandemia. A começar pelo número controlado de pessoas que poderão permanecer simultaneamente em cada uma das cinco salas. Para garantir o espaçamento, a visita, gratuita, só será permitida mediante agendamento – serão cinco agendamentos a cada meia hora.

É bom notar que o horário de funcionamento do IMS Rio também foi temporariamente reduzido – está aberto de terça a sexta, das 12h30 às 16h30; e sábado, domingo e feriados (exceto às segundas), das 10h às 14h. Se o visitante desejar permanecer nos jardins, antes ou depois de percorrer as galerias, deverá fazer um agendamento específico para isso. Da mesma forma, se pretende consumir no café e restaurante Empório Jardim, é imprescindível fazer uma reserva, exclusivamente pelos telefones (21) 2239-3443 ou (21) 3284-7424. Em todos os espaços do instituto, será obrigatório o uso de máscara. Veja aqui os protocolos de visita do IMS Rio.

 

Eduardo Coutinho, 1987. Foto de Zeca Guimarães

 

Ainda pensando nas normas de segurança e para garantir o distanciamento, o IMS substituiu os bancos coletivos por banquetas individuais e instalou sensores que acionarão automaticamente o som das telas com a aproximação dos visitantes, para que não seja necessário tocar em nada.

Concebida e realizada pelo Itaú Cultural em São Paulo, com cocuradoria do crítico Carlos Alberto Mattos, a Ocupação Eduardo Coutinho tem farto conteúdo audiovisual, documentos e objetos que pertenceram ao cineasta, ou que foram criados e usados na produção de seus filmes e projetos. O conteúdo é basicamente o mesmo da versão de São Paulo, que esteve em cartaz em outubro e novembro de 2019. As principais diferenças dizem respeito ao modo de exibição dos vídeos e filmes, em telas maiores, com mais conforto, e aos documentos mostrados – são os originais, que pertencem ao acervo do IMS (na exposição do Itaú a maioria era de fac-símiles). Há ainda uma cronologia aplicada na parede e uma coletânea de frases do cineasta, que não existiam em São Paulo.

A exposição tem um percurso obrigatório, que começa pela Sala 1, onde há uma homenagem a Coutinho: ela abriga uma espécie de instalação com duas fotos suas em grande formato, cartazes de filmes e cenas de produções em que ele aparece – um deles é a exibição para a comunidade de Engenho Galileia, em 1981, de imagens de Cabra marcado para morrer (1964-1981) filmadas ali em 1964.

Na sala 2 há fotos de infância e de sua passagem por Paris, quando cursou direção e montagem no prestigioso Institut des Hautes Études Cinématographiques (Idhec). Coutinho viajou para a Europa aos 24 anos, depois de ganhar um prêmio respondendo a perguntas sobre Charles Chaplin num programa da TV Record. Foi nessa escola que fez seu primeiro curta-metragem, Le téléphone (1959), que o público poderá ver neste mesmo núcleo. Assim como excertos de seu primeiro longa, O homem que comprou o mundo (1968), uma comédia com Marília Pêra e Flavio Migliaccio, produzida por Zelito Vianna. Também estão nesta sala entrevistas concedidas por ele e registros desses primórdios do trabalho no cinema. Entre as curiosidades, edições da revista piauí em que Coutinho foi um dos autores da seção "Horóscopo por Chantecler".

 

Caderno de anotações de Edifício Master, de Eduardo Coutinho

 

Considerada um talismã nos filmes do diretor, a cadeira utilizada pelos personagens entrevistados nos filmes Jogo de cena (2007), As canções (2011) e Últimas conversas (2015) é uma das atrações da sala 3, que tem vasto material da produção dos filmes, como os cadernos de anotações de Coutinho, roteiros, anúncio para atrair personagens para Jogo de cena, além de trechos que mostram o seu processo de criação. E ainda objetos pessoais, como sua máquina de escrever e o cinzeiro que utilizava em sua sala no Centro de Criação de Imagem Popular (Cecip).

Na sala 4, há preciosidades de sua brevíssima carreira como ator, em pontas  em filmes nos anos 1960, como Câncer (1968), de Glauber Rocha, ou emprestando sua voz. Em Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz, Coutinho faz a voz de um juiz;  no documentário Nelson Freire (2003), de João Moreira Salles, é dele a voz que lê uma carta do pai do pianista para o filho. Há ainda uma tela com o nome "Conversa em crise" onde serão exibidos trechos em que a conversa chega a um impasse,  "ou porque o interlocutor questiona algo e ele, desafiado, fica sem saída, ou dá um problema na filmagem e ele se complica", conta o curador Carlos Alberto Mattos. Na mesma sala, em outra tela com o nome "O lugar do silêncio", serão exibidos trechos de seus filmes em que a palavra, sempre tão presente, dava lugar a uma pausa, numa tensão entre o que era dito e o que era calado. E, em "Potências da fala", ele reafirma, com trechos de seus filmes, sua habilidade como entrevistador, capaz de tirar falas surpreendentes das pessoas diante dele. "O som mais bonito que existe é a voz humana”, costumava dizer.

Na sala 5, há mais material sobre o processo de realização dos filmes, como um e-mail do produtor João Moreira Salles para Fernanda Torres a respeito de Jogo de cena, o roteiro da série Identidades brasileiras, não realizada, que deu origem a Santo forte (1999), registros fotográficos dos ensaios de Moscou (2009) e muito material documental de Cabra marcado para morrer – como os rascunhos dos textos de narração de Coutinho e Ferreira Gullar, com anotações de Coutinho para a entrada de imagens. É um material precioso, que vai de uma inesperada fotografia da montagem que o documentarista dirigiu em 1960 da peça Pluft, o fantasminha, de Maria Clara Machado, na Maison du Brésil na Cité Universitaire, onde morou em sua temporada na capital francesa, até anotações e fichas dos entrevistados de Últimas conversas.

No contexto da abertura da exposição, Últimas conversas, derradeiro filme de Eduardo Coutinho, está disponível para o público no canal do IMS no YouTube, desde segunda-feira, 5/5, e até o dia 10/10, quando será tema de um encontro online, às 18h,  reunindo o crítico e curador Carlos Aberto Mattos, o produtor e cineasta João Moreira Salles e a montadora Jordana Berg. Os três conversarão sobre o processo de realização do documentário e, principalmente, as questões que nortearam a sua finalização.