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No Tabuleiro de Bethânia tem...

29 de outubro DE 2021 |
Maria Bethânia, idealizadora do programa que estreia em 4/11 na Rádio Batuta: "Quando as coisas são bonitas, elas podem estar juntas e tudo dá certo". Foto de Jorge Bispo

 

A coisa toda se insere na categoria luxo. Em 4 de novembro, Maria Bethânia estreia na Rádio Batuta o primeiro dos seis episódios do programa Tabuleiro. Concebido e apresentado por uma das maiores intérpretes da música brasileira, o programa reúne literatura e música em conjunções nada óbvias. O primeiro deles, por exemplo, terá Clarice Lispector, uma paixão antiga, e a música negra americana, cantada por nomes como Billie Holiday, Alberta Hunter e Mahalia Jackson. O segundo, disponível a partir da quinta-feira seguinte, dia 11 de novembro, se intitula Brasil, sons, sensações, palavras, e relaciona textos de pensadores como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Davi Kopenawa e Lina Bo Bardi a músicas de Cazuza, Milton Nascimento e Luiz Gonzaga, entre outros.

"Quando as coisas são bonitas, elas podem estar juntas e tudo dá certo", disse Bethânia para o poeta Eucanaã Ferraz, consultor de Literatura do IMS e responsável pela seleção de textos do programa (cabe à cantora a escolha do repertório musical). E, de fato, o que num primeiro momento pode parecer inusitado encontra pontos importantes de interseção.

"Bethânia me dizia que música negra e Clarice tinham a mesma intensidade, uma força, algo que tinha a dor e também a superação da dor, como se houvesse um equilíbrio entre o mais terrível, o mais doloroso e a alegria mais intensa", conta Eucanaã. "Ela falou muito disso, os homens que cantavam depois do trabalho e faziam da música, do canto, do seu instrumento, uma forma de sobrevivência. E como em Clarice, de certo modo, a escrita também significa isso: uma sobrevivência, uma superação."

Eucanaã foi então perscrutar os textos de Clarice, "sem saber muito bem aonde chegaria". E encontrou a escritora falando dos africanos, da dor dos negros. "Ela fala da África, de blues, de jazz. Eu não sabia disso, que os textos poderiam se encaixar tão perfeitamente. Bethânia também não. É um programa muito emocionante. Ela o dedica a Caetano Veloso, que a apresentou a Clarice."

A ideia do programa nasceu de uma conversa de Luiz Fernando Vianna, coordenador da Rádio Batuta, com Ana Basbaum, colaboradora próxima da cantora e produtora de Tabuleiro. Bethânia topou o projeto e assumiu tarefas para dar forma e criar uma concepção para o que vai ao ar a partir do dia 4. "É uma honra e um privilégio para a rádio ter o programa de uma artista do tamanho da Bethânia", diz Luiz Fernando. "Atesta a programação de qualidade que a rádio busca fazer e que tem nisso o melhor exemplo."

O coordenador da Batuta observa que a rádio representa dois braços do IMS – tanto a música quanto a literatura, com séries como Literatura em voz alta e a cobertura da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Tabuleiro fará essa síntese, sustentando-se sobre esses dois pilares. A propósito, o nome vem de uma ideia descartada ao longo do processo de produção: iniciar cada um dos episódios com uma vinheta em que Bethânia cantaria o primeiro verso da canção No tabuleiro da baiana (1936), de Ary Barroso. A vinheta não vingou, mas deixou Tabuleiro, o título, como legado – um lugar de oferta, em que a cantora oferece textos e músicas.

Maria Bethânia no estúdio da Rádio Batuta, no IMS Rio, gravando um dos episódios de Tabuleiro. Foto de Ana Basbaum

 

Cada um dos episódios de Tabuleiro teve uma dinâmica diferente de construção. Para os de Chico e Caetano, por exemplo, Bethânia mandou primeiro as canções selecionadas. Eucanaã começou a escolher poemas de Carlos Drummond de Andrade e sugeriu então que fosse apenas Chico e Drummond, reunindo "o grande poeta da canção e o grande poeta do livro". O episódio estará disponível a partir de 25/11.

Quanto a Caetano, Eucanaã admite que num primeiro momento não soube o que fazer. Mas, munido da lista de canções enviadas por Bethânia, teve um insight e foi buscar poemas traduzidos por Augusto de Campos. No episódio dedicado ao mano, acessível a partir de 2/12, Bethânia lê poetas provençais e criações de Vladimir Maiakovski, Lord Byron, John Keates e John Donne, entre outros.

"É uma maneira de homenagear o Caetano não só por ser um programa todo sobre ele, com canções selecionadas pela irmã", diz Eucanaã. Ao escolher Augusto, uma pessoa que ele ama e admira, fazemos uma homenagem à amizade dos dois. É uma homenagem à compreensão que o Caetano tem do Augusto e dos concretistas e à compreensão que o Augusto e os concretistas tiveram do Caetano e dos tropicalistas desde a primeira hora."

O ouvinte da rádio vai escutar, portanto, uma seleção muito particular de canções e textos, não canções escolhidas como repertório para cantar. Como ressalta Eucanaã, é "uma coisa mais íntima": são canções que Bethânia está escolhendo para ouvir e para fazer o público ouvir. No episódio totalmente dedicado a Vinicius de Moraes, com lançamento em 18/11, a cantora lê sonetos, trechos da peça Orfeu da Conceição, seleciona parcerias com Tom Jobim e canções do poeta cantadas por um amplo arco de intérpretes, de Elizeth Cardoso a Anitta.

O último episódio será lançado no dia 9/12 e é dedicado à poesia portuguesa, uma paixão da artista, conjugada com músicas cantadas por Amália Rodrigues, Maria Callas e Beth Carvalho. Mas aqui ela vai além dos poetas de presença recorrente em seus espetáculos, e lê entre outros, pela primeira vez, Eugenio de Andrade.

"Tem uma coisa muito bonita, que é o fato de a Bethânia não ter se recusado a experimentar novos autores", diz Eucanaã. "O que significa novos ritmos, novas formas, novas respirações. Porque tudo aquilo implica o modo de respirar, de dizer, de sentir, de se colocar no mundo, de pôr a voz, de dar a voz, tudo isso é muito novo para ela. Então é muito bonito o quanto ela esteve disponível para fazer isso tudo."

Nani Rubin é jornalista e integra a Coordenadoria de Internet do IMS