O que elas viram: fotolivros históricos de mulheres, 1843-1999
Apresentação
Por Russet Lederman e Olga Yatskevich, curadoras
A história do fotolivro é uma área de estudo relativamente recente. Uma das primeiras antologias de “livros sobre livros” foi publicada em 1989, com o lançamento de Foto in omslag, Het Nederlandse documentaire fotoboek na 1945 [Fotografia entre capas: o fotolivro documental holandês após 1945], um catálogo associado a uma exposição de fotolivros holandeses do pós-guerra. Desde 2000, surgiu uma espécie de indústria artesanal de livros sobre fotolivros, documentando, com base em critérios geográficos ou temáticos, livros ilustrados com fotografias. Fotolivros feitos por mulheres são raros na maioria dessas antologias – razão pela qual a 10×10 Photobooks lançou, em 2018, a sala de leitura itinerante How We See: Photobooks by Women [Como vemos: fotolivros de mulheres] e a publicação associada. Com foco em fotolivros contemporâneos de mulheres de 2000 a 2018, o projeto foi o primeiro passo do interesse contínuo da 10×10 em reavaliar a história do fotolivro em relação às mulheres. Embora os estudos sobre a história dos fotolivros tenham começado há apenas 37 anos, eles foram escritos majoritariamente por homens e têm focado em publicações de autoria masculina. Pouquíssimos livros de fotógrafas aparecem nas antologias anteriores. Quando aparecem, trata-se de alguns já bastante conhecidos.
Como organização sem fins lucrativos cuja missão é compartilhar fotolivros de forma global e incentivar sua apreciação e compreensão, a equipe da 10×10 discute com frequência como a história do fotolivro foi – e continua sendo – escrita a partir de uma perspectiva enviesada, e que uma “nova” história precisa emergir. No início de nossas discussões, reconhecemos que a história do fotolivro precisava ser “reescrita”, mas isso implicaria aceitar a história parcial já existente – o que não aceitamos. Em vez disso, concluímos que a história do fotolivro precisa ser “desescrita”, pois a que existe está repleta de omissões. O que fica de fora não é por acaso: indica viés e pesquisa incompleta por parte de quem controla o acesso. Para apresentar uma visão mais diversa e inclusiva, é necessário enfrentar de modo coletivo essas omissões.
O que elas viram: fotolivros históricos feitos por mulheres, 1843-1999 – uma sala de leitura itinerante acompanhada por uma publicação e uma série de programas públicos é um meio de despertar o interesse por alguns dos fotolivros pouco expostos e pouco documentados feitos por mulheres entre 1843 e 1999 e iniciar um processo de preenchimento dessas lacunas. Dizemos “alguns” fotolivros porque estamos plenamente conscientes de que ainda há muito trabalho a ser feito e de que apenas entreabrimos a porta. Em vários casos, especialmente para livros realizados antes de 1900 em regiões fora da América do Norte e Europa, ou por mulheres não brancas, soubemos de artistas que talvez tenham produzido um livro ou um álbum ilustrado com fotografias, mas não conseguimos encontrar qualquer documentação além de uma breve menção – e, depois disso, o rastro se perdeu.
Outros obstáculos surgiram com as mulheres que colaboraram com seus maridos. Muitos de seus livros colaborativos são creditados apenas aos maridos, e suas contribuições, quando mencionadas, aparecem apenas em notas de rodapé. Em alguns casos, autoras marcaram seus trabalhos com assinaturas de gênero neutro, usando apenas o nome do estúdio ou a inicial do primeiro nome com o sobrenome. Além disso, nossa pesquisa inicial foi limitada pela definição padrão de fotolivro: um volume encadernado com ilustrações fotográficas publicado pela autora, por uma editora independente ou comercial.
Percebemos que precisávamos ampliar o enquadramento para incluir álbuns individuais, finas brochuras de exposição, cadernos de recortes, bonecos, zines e livros de artista, para sermos mais inclusivos. Esse enquadramento ampliado exigiu redefinir a ideia de autora de fotolivro para incorporar aquelas que talvez não se considerem fotógrafas ou artistas, mas que, ainda assim, organizaram um “livro” composto por fotografias feitas por elas ou por outras pessoas. O financiamento também foi uma limitação: muitas fotógrafas que expunham de forma ativa o seu trabalho não possuíam recursos financeiros para produzir um livro, nem encontravam alguém disposto a patrocinar tal empreendimento.
Esta edição de O que elas viram inclui cerva de cem livros, dentre os mais de 250 volumes destacados na publicação associada. Eles são apresentados de forma cronológica e reúnem exemplos de livros de várias partes do mundo. Começamos com Anna Atkins, botânica britânica, a primeira pessoa a imprimir e distribuir um fotolivro entre 1843 e 1853. Seu simples desejo de compartilhar imagens de suas amostras de algas inaugurou uma nova forma artística que apresenta a fotografia em formato de livro. Já no final do século XIX, Frances Benjamin Johnston – uma das primeiras fotojornalistas da América do Norte – documentou processos de assimilação racial em fotografias encenadas de estudantes do Hampton Normal and Agricultural Institute, na Virgínia, uma escola para pessoas afro-americanas e indígenas fundada em 1868.
No início do século XX, autoras de fotolivros ganharam alguma visibilidade. A artista Hannah Höch montou um álbum que abordava a fotografia de uma perspectiva criativa e inventiva. Margaret Bourke-White tornou-se uma fotojornalista renomada, viajando pelo mundo para fotografar para as revistas Fortune e Life e produzindo inúmeros livros. Com o passar do século, mulheres em outras partes do mundo também encontraram suas vozes nos fotolivros. Jette Bang, jovem fotógrafa e cineasta dinamarquesa, obteve amplo reconhecimento por sua documentação inovadora e empática da Groenlândia e de seus povos inuítes. A antropóloga afro-americana Eslanda Cardozo Goode Robeson viajou para Uganda e África do Sul, publicando African Journey em 1945 – um dos primeiros livros escritos sobre a África por uma pesquisadora mulher não branca. No México, em 1951, Lola Álvarez Bravo contribuiu com fotografias para Acapulco en el sueño, uma ousada publicação criada para atrair turismo para a região. Poucos anos depois, a fotógrafa venezuelana Fina Gómez Revenga trabalhou em Paris com a famosa gráfica francesa Draeger Frères para ilustrar poemas da poeta surrealista Lise Deharme.
Com a chegada dos anos 1960, mulheres emergiram das margens e começaram a produzir fotolivros distribuídos de maneira ampla, muitas vezes com foco social. A fotógrafa polonesa Zofia Rydet publicou Mały człowiek em 1965, enquanto, no mesmo ano, Henriette Grindat colaborou com Albert Camus e René Char em La Postérité du soleil, um tributo visualmente impactante à cidade de L’Isle-sur-la-Sorgue e à região de Vaucluse, na França. Com o movimento feminista ganhando plena voz nos anos 1970, fotógrafas ocuparam o centro do palco nas últimas três décadas do século XX, lançando um fluxo contínuo de fotolivros. Um ano após a morte de Diane Arbus, em 1971, a Aperture publicou sua monografia – um fotolivro que continua a influenciar gerações de fotógrafos. Bárbara Brändli, suíça radicada na Venezuela, documentou a energia e as rápidas transformações de Caracas, enquanto a fotógrafa ativista JEB (Joan E. Biren) percorreu os Estados Unidos registrando eventos de orgulho lésbico. Na África do Sul, Lesley Lawson, integrante da agência Afrapix, combinou entrevistas e fotografias para revelar as condições de trabalho de mulheres negras em Joanesburgo. A camaronesa Angèle Etoundi Essamba compartilha a beleza e a força de mulheres negras em Passion (1989), enquanto a americana Donna Ferrato explora, sem concessões, a violência doméstica em Living with the Enemy (1991), e Nan Goldin expõe o amor violento e a perda em sua narrativa pessoal The Ballad of Sexual Dependency (1986). Em livros centrados em investigações culturais, Wang Hsin fotografa tradições em declínio na ilha de Lanyu, ao largo de Taiwan; Cristina García Rodero registra festivais e rituais religiosos em sua Espanha natal; e Dayanita Singh documenta o mestre da tabla Zakir Hussain.
Ao alcançar os cantos mais distantes do mundo, descobrimos um grande volume de livros esquecidos – e muitos permanecem desconhecidos. Por exemplo, soubemos de uma mulher iraniana do século XIX que manteve o diário do marido e provavelmente acrescentou suas fotografias ao volume, mas nenhuma documentação visual desse diário foi encontrada. Também identificamos vários livros realizados com participação de mulheres em colaboração com fotógrafos homens, nos quais as contribuições femininas eram ambíguas. Havia diversas “pistas” desse tipo e decidimos que deixá-las de fora seria uma oportunidade perdida. Assim, na antologia associada, incluímos uma “linha do tempo” que apresenta eventos históricos significativos nos campos da edição, das revistas, das pequenas editoras, da fotografia e do feminismo que podem ou não ter resultado em fotolivros, mas que, sem dúvida, influenciaram sua história. Para estimular o aprofundamento dessas “pistas” não resolvidas, a 10×10 patrocina um programa de bolsas de pesquisa para incentivar estudos sobre temas pouco explorados na história do fotolivro.
Desde o início, O que elas viram buscou incluir um grupo diverso de publicações ilustradas com fotografias feitas por mulheres. Para que a história do fotolivro se torne mais inclusiva, é necessário que todas as pessoas (homens, mulheres, não binárias, brancas, negras, asiáticas, africanas, latinas, indígenas, ocidentais, orientais etc.) contribuam. Vemos esta sala de leitura sobre o papel das mulheres na produção, disseminação e autoria de fotolivros como um passo necessário para desescrever a atual história do fotolivro e reescrever uma história do fotolivro que seja mais equitativa e inclusiva. Convidamos pessoas pesquisadoras do futuro a dar continuidade a esse trabalho, explorando de forma mais profunda o impacto histórico das mulheres e de outros grupos marginalizados no campo dos fotolivros e ampliando o conjunto de obras apresentadas nesta sala de leitura e em sua antologia associada.
