Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello
IMS Paulista
Textos da exposição
Laudelina de Campos Mello: uma celebração necessária
Como toda instituição que reúne, preserva, interpreta e divulga acervos históricos e artísticos, o Instituto Moreira Salles contribui para a articulação de registros e memórias do passado com um conceito dinâmico da história, que a reescreve e reinterpreta a partir de uma consciência do tempo presente.
Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello é uma exposição que celebra a vida, as ideias, as causas e os combates dessa mulher negra, nascida em Poços de Caldas, cidade onde o IMS abriu o seu primeiro centro cultural, cuja biografia e feitos transcendem o local em que nasceu para lhe conferirem a dimensão de uma figura nacional na história do Brasil.
Laudelina dedicou toda a sua vida a uma luta incessante pelo reconhecimento dos direitos do trabalho doméstico. Este foi sempre estruturante de um Brasil marcado até os nossos dias pelo seu passado colonial, e em que a escravidão gerou formas de exploração laboral e segregação racial que se perpetuaram na violência mascarada de cordialidade que o trabalho doméstico adquiriu no país.
Laudelina de Campos Mello criou em Santos, em 1936, a primeira Associação de Empregadas Domésticas. Mais tarde, já na década de 1960, organizou o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas. A sua ação iria se ampliar na luta pelo direito à educação e cultura do povo negro brasileiro. Disso são evidências a fundação da Escola de Bailados Clássicos Santa Efigênia, em 1955, os bailes de debutantes Pérola Negra ou a criação do Salão Campineiro dos Amigos das Belas-Artes. É por isso natural que esta exposição conte a sua vida reunindo documentos históricos a obras de arte de autoria de artistas contemporâneos a Laudelina, ou que protagonizam a pujante cena de artistas negras e negros no Brasil dos nossos dias.
Depois de ter realizado em Poços de Caldas a primeira apresentação desta exposição, celebrando e homenageando Laudelina na sua cidade natal, o IMS oferece agora, em São Paulo, uma versão ampliada da mostra, adaptando-a à sua sede paulistana, prosseguindo o projeto da equipe curatorial constituída por Raquel Barreto e Renata Sampaio, assistidas por Phelipe Rezende, a quem expressamos o nosso agradecimento pelo recorte das ideias, assim como pela dedicação e inventividade excepcionais. A nossa gratidão se amplia a todas, todos e todes artistas participantes, assim como às equipes do IMS implicadas, e a todas as instituições, pessoas e entidades que nos permitiram juntar tudo o que agora os visitantes poderão conhecer. A Casa Laudelina Campos Mello e o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas merecem uma palavra de reconhecimento especial. Como no famoso samba que a Mangueira apresentou no Carnaval do Rio em 2019, reconhecemos que é chegado o tempo de contar “a história que a história não conta”, “o avesso do mesmo lugar” deste país que se chama Brasil.
Diretoria do Instituto Moreira Salles
A exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello apresenta a trajetória, a militância e o pensamento de Laudelina de Campos Mello (Poços de Caldas, MG, 1904 – Campinas, SP, 1991) – liderança fundamental na luta pela valorização e pelo reconhecimento dos direitos das trabalhadoras domésticas, além de importante militante antirracista.
A mostra é estruturada por documentos históricos, vídeos, fotografias e obras de arte que remetem ao tema do trabalho doméstico e à sua emancipação. A extensa pesquisa acadêmica da professora Elisabete Aparecida Pinto, publicada como Etnicidade, gênero e educação: trajetória de vida de Laudelina de Campos Mello, realizada a partir de entrevistas com a própria Laudelina em seus últimos anos de vida, foi uma das principais referências para a curadoria.
O percurso expositivo é traçado por sete núcleos, que convergem para a atuação de Laudelina nas associações e nos sindicatos que criou, tanto em Santos quanto em Campinas, bem como para suas intervenções na cultura, organizando bailes, festas, exposições e até mesmo uma escola de arte. Aliando consciência social e política, a criação de espaços de sociabilidade entre pares e o direito da população negra à alegria e a autoestima, Laudelina, em todas essas frentes, se destacou como uma liderança de vanguarda, com uma profunda capacidade de resistência, mas também de negociação. Era vinculada a partidos de esquerda, porém sempre atenta aos meandros da realpolitik – em que é necessária a capacidade de adaptação a cenários adversos. Filha de pais nascidos praticamente junto à abolição da escravidão, Laudelina exerceu ainda criança o trabalho doméstico em Poços de Caldas, na casa de poderosas famílias locais. Foi nesse território também, ainda muito jovem, que começou sua militância, na criação de espaços recreativos para jovens negros, vítimas da segregação racial na cidade. Embora sua militância referente ao trabalho doméstico seja sua faceta mais conhecida, outros aspectos igualmente relevantes de sua biografia permanecem pouco conhecidos, como o fato de ter sido combatente na Segunda Guerra Mundial, em uma força especial composta exclusivamente por mulheres, chegando a ser condecorada.
Em 2023, Laudelina teve seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria– título conferido pelo Estado brasileiro em reconhecimento àqueles que desempenharam um papel crucial na defesa da democracia e da liberdade. Mesmo assim, suas contribuições, seus feitos e seu pensamento não recebem ainda o devido reconhecimento. Marcada pela luta por justiça social, sobretudo pela organização do trabalho doméstico enquanto categoria da classe trabalhadora, a trajetória de Laudelina reivindicou direitos básicos, como carteira assinada, aposentadoria, descanso, muitos dos quais só foram garantidos depois de sua morte.
Laudelina enfrentou ao longo de sua vida uma das marcas indeléveis da escravidão no Brasil: a exploração do trabalho doméstico. Para nós, é bastante simbólico que a exposição dedicada a ela seja realizada na instituição ligada a uma família para a qual trabalhou. É uma oportunidade de homenagear a sua memória e um reconhecimento de sua contribuição à história deste país, assim como um tributo a todas as trabalhadoras domésticas do Brasil.
Renata Sampaio e Raquel Barreto
O trabalho doméstico sumariza a história brasileira, quase como DNA da nossa sociedade. Suas raízes encontram-se na escravidão, na exploração de africanos/as escravizados/as e seus descendentes, que nos fundou enquanto país e orientou aspectos estruturais, culturais e subjetivos cruciais.
As mulheres negras no período colonial exerceram tarefas das mais variadas – mucamas, amas de leite, cozinheiras, copeiras, lavadeiras e arrumadeiras –, sempre dedicadas ao “bem-estar” da família senhorial, e ainda tiveram sua capacidade reprodutiva apropriada em prol da multiplicação da “mão de obra”. Com o término da escravidão, o trabalho doméstico permaneceu sendo, segundo a historiadora Beatriz Nascimento, “um destino histórico” para as mulheres negras, que se inseriram, em sua grande maioria, na categoria de prestadoras de serviço. O problema é que esse trabalho, fundamental para a manutenção da vida cotidiana, não tem seu valor social e econômico reconhecido, visto frequentemente como uma ocupação de pouco prestígio. Soma-se a isso as péssimas condições atreladas a ele, em situações que até hoje são reconhecidas algumas vezes como análogas à escravidão.
Em depoimento à pesquisadora Elisabete Pinto, Laudelina comentou que as trabalhadoras domésticas demoraram a ser consideradas como categoria, sob a alegação de que “não traziam economia para o país”, no que ela rebate: “Nós trazemos a economia, eles saem para trabalhar, principalmente a classe média, eles têm que trabalhar fora, e então passam a escravizar a empregada doméstica”.
Militante é a melhor definição do que Laudelina foi ao longo de sua vida. A dignidade no trabalho doméstico foi sua principal luta, e o embate contra a exploração social uma questão constante em sua trajetória. Laudelina combateu a segregação racial desde a infância, e começou a se interessar por questões coletivas já na juventude, montando sua primeira organização ainda aos 16 anos de idade, em Poços de Caldas. No decorrer de sua vida, fundou dois sindicatos de trabalhadoras domésticas, em Santos e Campinas, respectivamente em 1936 e 1961. Integrou a Frente Negra Brasileira, a maior organização negra do século XX, sendo uma das responsáveis pela criação do departamento doméstico da instituição. Também foi filiada ao Partido Comunista e ao Partido dos Trabalhadores. É pouco conhecido o fato de que ela se voluntariou na Segunda Guerra Mundial, com o intuito de combater a ameaça nazista, integrando a Defesa Passiva Antiaérea e a Organização Feminina Auxiliar de Guerra.
Em 18 de maio de 1961, Laudelina recebeu uma carta anônima de uma mulher que se nomeava como defensora das patroas. No texto, listava uma série de argumentos segundo os quais elas é que eram o elo mais fraco da relação com as empregadas: verdadeiras mártires, exploradas por mulheres vaidosas e folgadas, que usufruíam da sua casa e comida, sem pagar por isso, não querendo trabalhar. A figura da “pobre patroa” reaparece com frequência, sempre reforçando os estereótipos relacionados às trabalhadoras domésticas e atribuindo a luxo aquilo que deveria ser direito.
Partindo desse episódio, este núcleo traz alguns dispositivos de controle aplicados às trabalhadoras domésticas ao longo da história, como os manuais que ensinavam as patroas a cuidarem da casa e a “domarem” suas funcionárias; os fichamentos policiais e médicos aos quais as trabalhadoras eram submetidas para permanecerem empregadas; e os anúncios de jornal racistas que Laudelina ajudou a combater na década de 1950.
São muitos os estereótipos relacionados às trabalhadoras domésticas, e muitos deles foram construídos ou mantidos pelo audiovisual brasileiro, em especial pelas telenovelas. Até recentemente, era destinado às atrizes negras quase exclusivamente o papel da trabalhadora doméstica nas novelas, normalmente uma personagem que fazia parte do núcleo dos patrões e não tinha vida própria, sem parentes, amigos ou casa, estando ali 24 horas, pronta para servir e ajudar a contar a história dos seus patrões. Atrizes como Léa Garcia, Chica Xavier, Ruth de Souza, entre outras, tiveram suas carreiras atreladas majoritariamente às trabalhadoras domésticas ou escravizadas.
Os bailes eram parte importante da luta de Laudelina. Aos 16 anos, quando ainda morava em Poços de Caldas, fundou, junto com outros jovens negros, o Clube 13 de Maio, uma associação recreativa que organizava bailes e festas, já que os jovens negros eram impedidos de frequentar os bailes brancos da cidade. Quando se tornou sindicalista, os bailes se transformam em uma política de promoção da celebração da beleza, da autoestima e da alegria negra. Além de serem uma forma de angariar recursos para a manutenção das atividades da Associação das Trabalhadoras Domésticas, também ajudavam outras organizações negras locais com os valores arrecadados. Para Laudelina, era importante ocupar todos os espaços que as pessoas brancas ocupavam, em pé de igualdade, ter direito a tudo, inclusive ao luxo.
Ela criou bailes negros com traje a rigor, em espaços nobres, em Santos e Campinas. O Baile Pérola Negra foi o mais conhecido, porém outros, como o Baile das Debutantes Negras (Baile Menina Moça), Baile Miss-Simpatia, Baile das Garotas Campineiras, Concurso da Bonequinha do Café, também foram organizados por ela.
Os bailes de Laudelina ficaram tão conhecidos que ela começou a receber convites para realizar outros bailes no interior de São Paulo.
Laudelina foi também uma articuladora cultural, atuando na promoção cultural e política do negro, sem estabelecer nenhum tipo de hierarquia entre os campos. A perspectiva de conciliar cultura e política e conferir ao lazer um significado de resistência tem suas raízes tanto no sindicalismo do início do século XX, sobretudo de origem anarquista, quanto no associativismo negro, que compreendia o papel de resistência que havia na cultura. Essas iniciativas tinham também um papel formativo e educacional.
Podemos inclusive dizer que o ativismo de Laudelina se iniciou na cultura, no Clube 13 de Maio. Ao longo de sua trajetória, Laudelina realizou inúmeros feitos, alguns voltados exclusivamente para as trabalhadoras domésticas, outros para toda a comunidade negra e alguns para a população em geral. É importante destacar que suas ações incluíam uma perspectiva ampla da cultura, desde as práticas nomeadas como “alta cultura” até as definidas como “populares”, passando pelas artes – pintura, teatro, poesia, música instrumental e balé – até o Carnaval. Cabe mencionar aqui algumas delas: I Salão Campineiro dos Amigos das Belas Artes, que revelou o artista Mário de Oliveira; a Escola de Bailados Santa Efigênia; o Festival Dramático da Associação; a Semana do Folclore de Campinas; um evento de patinação no gelo; e o fomento à Banda Musical dos Homens de Cor. Até mesmo o Carnaval contou com sua participação, como ela citou: “Eu nunca saí em desfile, mas participava da organização de duas escolas de samba aqui em Campinas. Eu cuidava da decoração. Uma escola chegou a ganhar dois anos seguidos.” Essas ações procuravam fomentar, na população negra, possibilidades de acesso a bens culturais que lhes eram negados em função de uma segregação racial excludente na cidade de Campinas.
Na vida de Laudelina, a cozinha aparece como uma continuidade da luta, um movimento de resistência coletiva que ganha as ruas: desde a infância, quando ajudava sua mãe, recém-viúva, a fazer doces e queijos para sustentar sua família, até a tradicional feijoada preparada por ela para arrecadar fundos para o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas, servida até os dias de hoje.
Em 1964, foi convidada pela Secretaria de Educação de Campinas para montar “a cozinha típica baiana” dentro da Semana do Folclore, onde era encarregada de cozinhar pratos tradicionais, como vatapá, angu à baiana e xinxim de galinha. Sua participação na programação do evento, assim como a do sindicato, estendeu-se por alguns anos. Além disso, manteve um tabuleiro de acarajé no bosque dos Jequitibás, uma das maiores e mais antigas áreas de lazer de Campinas, localizado na área central da cidade. Também vendia salgados nos estádios da Ponte Preta e do Guarani - rivais no futebol, mas que tinham em comum seus quitutes.
A renda obtida pelo comércio de alimentos, na maioria das vezes, mantinha financeiramente os lugares de militância que coordenava.
A busca por um lar, num sentido amplo, perpassa a luta de Laudelina por dignidade, tendo início em sua luta pessoal para garantir que a casa que sua avó, escravizada, ganhou dos senhores não lhes fosse tirada de sua mãe, que nasceu livre. No período em que viveu em Santos, acolhia as trabalhadoras abandonadas por seus empregadores, em função da idade avançada ou problemas de saúde. Travou também uma luta constante por uma sede para os sindicatos que organizou.
Laudelina sabia que, para lutar, era importante ter um teto sob a cabeça. Por isso, é bastante simbólico que ela tenha passado em vida sua casa para o Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas, para que a luta nunca tivesse que deixar de existir em razão da falta de espaço para organização.Em entrevista, ela disse que seu gesto foi “pra continuar, pra usos e frutos: até quando existir a última empregada doméstica no Brasil”, declarou Laudelina.
Laudelina sempre pontuou que a trabalhadora doméstica é uma profissional multifacetada, e deveria ser reconhecida como tal, sendo especialista em muitas áreas para realizar bem o seu trabalho: limpar, lavar, cozinhar, cuidar. São diversas atividades, muitas delas de forte impacto físico, de esforço contínuo ou até de risco para sua segurança, realizadas por apenas uma pessoa. No caso das trabalhadoras residentes, um trabalho que não tem muito controle de início e fim, visto que vivem onde trabalham. No caso da diarista, um trabalho realizado em duas, três casas em uma semana. Em que hora a trabalhadora doméstica descansa?
Neste núcleo, fazemos uma ode ao descanso e desejamos que todas as trabalhadoras domésticas possam ter um tempo de qualidade para si, para suas famílias e suas casas, para fazerem aquilo que gostam, ou simplesmente descansar.
HISTÓRIA SOCIAL DO TRABALHO DOMÉSTICO
Armando Viana, Limpando metais
Considerando a data de produção da pintura – 1923 –, podemos inferir que a obra retrata uma mulher negra no exercício do trabalho doméstico, dedicada a arear a prataria de seus patrões. Ela se encontra quase comprimida entre a mesa à sua frente, repleta de objetos de prata, e o armário atrás de si. Esses elementos, minuciosamente detalhados, atraem mais atenção do que a própria personagem. O brilho da prataria e do vidro do armário rivaliza com sua presença. Embora execute o trabalho com esmero, ela parece fazê-lo de maneira quase mecânica. Sua linguagem corporal sugere distanciamento; seu olhar é melancólico, para baixo, indicando um estado de introspecção, absorvida em seus pensamentos, alheia àquela realidade. Nesse gesto sutil, ela afirma sua individualidade, a humanidade de quem não é apenas alguém realizando um serviço.
Armando Vianna produziu esta obra para concorrer ao Prêmio do Salão Nacional de Belas Artes, tendo sido exibida na 31ª Exposição da Escola Nacional de Belas Artes, onde recebeu a medalha de prata. Apesar de ser neto de uma escravizada alforriada, Viana não incluiu a representação de personagens negros em seus trabalhos.
Glória Nogueira
Glória Nogueira descobriu a pintura durante a pandemia de covid-19 em 2021, quando começou a pintar informalmente. Iniciou sua produção com dimensões pequenas e passou depois para grandes suportes. Desde então, dedica-se concomitantemente à pintura e ao ofício do trabalho doméstico. Suas pinturas são marcadas pelo uso expressivo de uma paleta de cores vívida, combinado a um vigoroso ritmo das pinceladas.
Glória é a única artista presente na exposição que ainda exerce o trabalho doméstico. Sua presença é uma forma de homenagear todas as artistas que exerceram o trabalho doméstico e que tiveram suas carreiras artísticas negadas, como Maria Auxiliadora e Madalena dos Santos Reibold. Ter um trabalho seu na exposição é reivindicar possibilidades frequentemente negadas às trabalhadoras domésticas, como, por exemplo, o direito à arte.
Januário Garcia
Januário Garcia (1943-2021) foi um importante fotógrafo brasileiro, que conciliou sua carreira profissional com um profundo engajamento político e social. Atuou na área da publicidade e produziu capas icônicas de discos de artistas da MPB, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Leci Brandão, Raul Seixas, entre outros.
No entanto, foi sobretudo por conta de seu ativismo no movimento negro que sua obra ganhou maior projeção. Comprometido com a valorização e a memória da população negra, Garcia dedicou-se a documentar tanto a realidade dos negros brasileiros quanto as conexões entre a diáspora e o próprio continente africano. Um de seus projetos era a documentação anual da Marcha das Mulheres Negras, realizada na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Na imagem apresentada, vemos Maria Izabel Monteiro, importante liderança sindical das trabalhadoras domésticas, e então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Município do Rio de Janeiro. Ela também integrava o grupo Marias do Brasil, formado por trabalhadoras domésticas, fundado em 1988 e ligado ao Teatro do Oprimido.
Arthur Bispo do Rosário
Arthur Bispo do Rosario foi um importante artista brasileiro, conhecido por seu trabalho meticuloso de reelaboração do mundo material, movido pelo chamado de inventariar o mundo para o dia do juízo final. No entanto, pouco se menciona que Bispo também exerceu o trabalho doméstico, atuando como “faz tudo”, isto é, alguém que executa inúmeras tarefas para uma mesma família. Ele assumiu essa função ao passar a viver na casa do advogado que o representou no processo contra a companhia que o demitiu indevidamente após um acidente de trabalho que o deixou debilitado. Esse episódio também finalizou a iniciante carreira de boxeador que Bispo iniciou em seu período na Marinha, onde estudou na escola de aprendizes e chegou a alistar-se. Todos esses acontecimentos antecederam seu processo de internação decorrente do diagnóstico de esquizofrenia paranoide.
Nas obras de Bispo presentes na exposição, foram selecionados trabalhos que dialogam com o trabalho doméstico e a guerra.
Silvana Marcelina - #2 (Da série Dependências)
“A obra instalativa #02 é parte da série chamada Dependências, em que eu demarco no espaço tamanhos de quartos de empregada de imóveis reais e apresento alguns elementos que perpassam as questões do trabalho doméstico no Brasil. A instalação #02 possui o tamanho de um quarto de empregada de um prédio da cidade de Niterói, com 1,40 metros de largura e 1,91 metros de comprimento. Este quartinho não possui paredes, seus limites são demarcados por fitas azuis fixadas no chão e por uma espécie de estrado de madeira pendurado no teto. No lado de dentro, um mobiliário simples e alguns acessórios, como um conjunto de três placas decorativas com os dizeres ‘família, sonhos, gratidão’. O quartinho #02 da série traz a tensão entre o espaço de confinamento das trabalhadoras domésticas e a voz delas, que se traduz principalmente na entrevista da minha mãe (babá há 25 anos) e nos muitos depoimentos presentes no livro de cabeceira Eu, empregada doméstica, de Preta Rara. É um convite para o público experimentar esse espaço e ouvir/ler as vozes dessas mulheres.”
Silvana Marcelina
Área de serviço - Agrade Camiz
“Este trabalho é sobre um deslocamento direto: trazer a área de serviço para dentro do espaço expositivo. O que geralmente fica escondido, o lugar de quem limpa a sujeira, do cuidado e da manutenção, é o que estrutura o pensamento da obra. Não como uma representação, mas como uma presença.
Entre o gesto artístico e o gesto doméstico não há separação limpa. Pintar e lavar, estender e compor, cuidar e construir imagem passam a ocupar o mesmo plano. Esta obra não tem a intenção de resolver essa tensão, mas insistir nela.
Sem perder a sua origem, o varal não se torna escultura; continua sendo um dispositivo de uso, agora tensionado pelo contexto da arte. Assim como as pinturas, que estão como roupas expostas, não escondem seu processo, cada uma carrega o seu próprio tempo e gesto. Não são totalmente obra, nem totalmente coisa. É daí que o trabalho se sustenta.”
Agrade Camíz
Queria um pincel, ganhei uma vassoura (2018)
“As ferramentas associadas a mãos negras são as de servidão, e a vassoura aparece como um dos principais símbolos disso.
O título Queria um pincel, ganhei uma vassoura surge da busca de indivíduos de origens periféricas para ter voz e espaço. Já que as oportunidades são poucas, devem buscar alternativas e, principalmente, resistência.
Por isso, a vassoura que chega em nossas mãos se torna um tridente, uma arma pela resistência, uma potência que marca posição e abre caminhos.”
MULAMBÖ
Madalena Santos Reinbolt
Madalena Santos Reinbolt foi pintora e bordadeira. Sem acesso à educação formal, tornou-se trabalhadora doméstica aos 20 anos. Em 1949, trabalhava como cozinheira para a arquiteta Lota de Macedo Soares e a poeta norte-americana Elizabeth Bishop, em uma fazenda em Petrópolis (RJ). Ao retornar de uma viagem, as patroas descobriram o talento de Reinbolt e começaram a incentivar sua produção. Porém, quando as atividades artísticas começaram a atrapalhar seu trabalho de cozinheira, ela foi demitida.
A artista usava as brechas que encontrava no trabalho para pintar, mas, por questões de saúde, em 1969, acabou trocando a pintura pela tapeçaria. Suas “pinturas com lã” eram de uma técnica muito apurada e única.
No entanto, Madalena não conseguiu sustentar a carreira de artista e permaneceu trabalhando até o fim da vida como trabalhadora doméstica, só obtendo reconhecimento póstumo. Um ano após sua morte, sua obra foi exibida no Pavilhão Brasileiro da Bienal de Veneza.
Maria Auxiliadora
Maria Auxiliadora, natural de Minas Gerais, se mudou com a família para São Paulo com apenas 3 anos. Aos 12, interrompeu os estudos e começou a trabalhar como doméstica para ajudar a família e, aos 19, começou a trabalhar como bordadeira numa fábrica têxtil. Proveniente de uma família de artistas populares, decidiu se dedicar integralmente à pintura aos 32 anos. Em 1968, junto a alguns membros de sua família, se mudou para Embu das Artes, passando a integrar uma comunidade que se organizava em torno do artista e ativista Solano Trindade. Em 1970, passou a vender suas obras na praça da República, no centro de São Paulo. Lá, conheceu o físico e crítico de arte Mário Schenberg, que se encantou com seu trabalho e a apresentou para Alan Fisher, então cônsul dos Estados Unidos, que organizou no consulado a primeira exposição individual de Maria Auxiliadora. Na ocasião, o jornal Dia e Noite publicou uma crítica ao seu trabalho com a manchete: “Empregada doméstica trocou o aspirador pelos pincéis”.
Faleceu em 1974, e o reconhecimento de sua obra ocorreu postumamente, com o lançamento de um livro sobre ela, publicado por uma editora italiana, três anos depois de sua morte, algumas exposições individuais na Europa e uma grande exposição no Masp em 1981.
Gê Viana
Na série Atualizações traumáticas de Debret, a artista Gê Viana explora o álbum iconográfico do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), que visitou o Rio de Janeiro no século XIX em um projeto de documentação da população, da natureza e da sociedade brasileira. Em seu trabalho, Debret destacou o que foi definido posteriormente como a “sociabilidade perversa do Brasil", naturalizando imagens de extrema violência e opressão, como a cena aqui exibida. Em Uma senhora de algumas posses em sua casa, apreciamos o que pode ser considerado a representação das relações domésticas no interior da casa-grande, na qual a sinhá "reina”, acompanhada de mulheres escravizadas que zelam pelo seu bem-estar.
A artista Gê Viana propõe, emSentem para jantar, uma subversão desse imaginário colonial e escravista, para conceber pessoas negras sentadas à mesa, servindo-se dignamente. Um detalhe que ressalta na obra é a inclusão da foto de uma mulher negra mais velha na parede, como em uma menção à matriarca daquela família, estabelecendo laços de parentesco que o processo de escravização apagou para parte expressiva da população negra brasileira.
TRABALHO DOMÉSTICO NAS ARTES VISUAIS
A arte brasileira e o trabalho doméstico: uma paisagem quase natural
Reunidos aqui estão algumas importantes obras que abordam o trabalho doméstico nas artes visuais. Ao longo da história da arte brasileira, o tema apareceu na produção de vários artistas que, em alguns casos, exerceram o trabalho doméstico, como é o caso de Madalena Santos Reinbolt, Maria Auxiliadora e Arthur Bispo do Rosário. Outros apenas trataram a atividade como motivo. É o caso, por exemplo, do artista carioca Heitor dos Prazeres (1898-1966), que teve repetidamente as lavadeiras como fonte de inspiração, em pinturas que compuseram paisagens rurais e conferiram importância para o labor.
O conjunto das obras destaca-se pela forma digna como esses artistas representaram o tema.
Sidney Amaral
Sidney Amaral foi artista e professor, tendo trabalhado com diferentes suportes, como a pintura e a escultura. A escolha dos materiais que utilizava dialoga intimamente com seu olhar incisivo e poético sobre a realidade. Amaral utilizou, em muitas de suas obras, materiais nobres, como bronze e mármore, para construir objetos considerados de menor valor, próprios do cotidiano. Outra particularidade de seus trabalhos foi se basear em sua própria imagem, com autorretratos que têm seu corpo – de uma homem negro – como o lócus do conflito. Em Panelada, Amaral conjuga essas duas características, criando uma delicada aquarela que amalgama seu autorretrato enquanto suporte para utensílios da cozinha: panela, frigideira, leiteira, conchas. O gesto estabelece um tensionamento, ao colocar no mesmo lugar sujeito e objetos, evidenciando que, em muitos contextos, pessoas negras e objetos são equivalentes. Aqui é interessante analisarmos também a imagem de um homem negro relacionada ao ambiente da cozinha, um ambiente que ainda é tido como um local predominantemente feminino.
LAUDELINA MILITANTE
Associação Beneficente das Trabalhadoras Domésticas de Santos
Em 8 de julho de 1936, foi fundada a Associação Beneficente das Trabalhadoras Domésticas de Santos. Com o objetivo de proteger as trabalhadoras domésticas e também atuar no trabalho beneficente e político, a associação estendia o apoio a outros grupos sociais e economicamente discriminados. A instituição chegou a ter uma agência de colocação para as trabalhadoras, curso de alfabetização, departamento jurídico, departamento médico e odontológico. Após ter começado em um espaço cedido pela Igreja, junto à paróquia de Santa Terezinha, a associação depois conseguiu uma sede própria, uma casa com salão de festas onde se organizavam bailes, festas e outras atividades culturais que ajudavam a mantê-la economicamente.
Em 1937, a associação foi fechada por conta da instauração do Estado Novo, sendo reaberta apenas em 1946, quando os sindicatos retomaram suas atividades.
Associação das Empregadas Domésticas em Campinas
Em 18 de maio de 1961, foi fundada a Associação das Empregadas Domésticas de Campinas. A mobilização inicial foi feita de porta em porta, com distribuição de folhetos nas áreas mais abastadas da cidade, onde se sabia que havia maior concentração de trabalhadoras domésticas. A ideia de Laudelina com essa associação era a de politizar as trabalhadoras domésticas e auxiliá-las nos conflitos diários do trabalho, mas também reivindicar a legalização do trabalho doméstico junto aos órgãos competentes. As aulas de alfabetização seguiam sendo prioridade, pois, de acordo com ela, ao aprenderem a ler, as trabalhadoras poderiam entender melhor a legislação trabalhista e se aprimorar na reivindicação de seus direitos. Laudelina se preocupava também com a solidão das trabalhadoras, que muitas vezes moravam no serviço e não tinham uma vida social. Então, para além da educação formal e política, organizava também ações culturais e de lazer, como piqueniques, bailes e festas voltadas para a categoria.
Vídeo das trabalhadoras/Importância da Marquesa
Em 1968, Laudelina se retirou do sindicato de Campinas por divergir da gestão da nova direção e também por questões de saúde. Durante 14 anos, permaneceu fora do movimento das trabalhadoras domésticas, voltando apenas em 1982, já com 78 anos de idade, pelas mãos de Anunciação Marquesa dos Santos de Almeida, sua companheira de grupos de trabalhos comunitários na cidade, mas que até então não sabia que ela tinha sido a fundadora da associação.
Neste vídeo, temos depoimentos de integrantes da Casa Laudelina que integraram o sindicato e conheceram Laudelina nesse período final da sua vida. Entre as entrevistadas, está Marquesa, que infelizmente faleceu pouco depois dessa entrevista.
Segunda Guerra
Em entrevista à pesquisadora Elisabete Pinto, Laudelina diz que decidiu se alistar como combatente da Segunda Guerra quando leu o livro Minha luta, ou Livro azul, como também era chamado o manifesto autobiográfico Mein Kampf, escrito em 1925 por Adolf Hitler – líder do Partido Nazista da Alemanha e defensor de ideias racistas. “Dizia no Livro azul que ele eliminaria todas as raças que não fossem arianas, principalmente a raça negra seria eliminada. Então aquilo me levou, me trouxe uma revolta dentro de mim, então eu resolvi me alistar para servir a pátria.” Laudelina se alistou na Defesa Passiva Antiaérea e lutou naquele momento pelo país.
Segunda Guerra/Ofag
Em maio de 1942, Getúlio Vargas criou, através do decreto-lei n. 4.098, a Defesa Passiva Antiaérea, no qual homens e mulheres, maiores de 16 anos, podiam atuar emergencialmente durante a guerra, na esfera civil, principalmente em caso de um ataque aéreo. Pouco depois, foram criados grupos de Voluntárias de Defesa Passiva Antiaérea, com um foco maior na participação das mulheres, uma vez que os homens estavam sendo convocados para o serviço militar. O grupo foi renomeado como Organização Feminina Auxiliar de Guerra (Ofag)meses após a sua formação, passando da esfera da Aeronáutica para o Exército.
A resposta feminina à convocação voluntária foi imensa. Em São Paulo, foram criados três batalhões de FAGs, como eram popularmente chamadas, totalizando 1.600 mulheres. Em Santos, foram formados dois batalhões. Laudelina serviu no 1º Batalhão, se alistando em 1942 sob o número 120 (Fag.120). Ela dizia que era a única mulher negra de seu batalhão, totalizando quatro nos dois grupamentos. Laudelina chegou a ser instrutora do 2° Batalhão. Na Defesa Passiva Antiaérea, fez os cursos de soldado de fogo, policiamento de trânsito, sentinela avançada, blecaute, e cursava enfermagem quando a guerra acabou.
Segunda Guerra/blecaute
Uma das funções das voluntárias, posteriormente FAGs, era o exercício do blecaute. Munidas de apito e lanterna, as FAGs patrulhavam ruas e casas litorâneas para garantir que nenhuma luz estivesse acesa, e que possíveis navios inimigos não tivessem nenhuma sinalização terrestre. Em algumas regiões do país, houve apenas exercícios de blecautes, com até uma hora de duração, para que a população soubesse o que fazer caso fosse necessária a concretização da medida de segurança. Em Santos, porém, como pode ser visto em algumas matérias de jornais aqui reproduzidas, instituiu-se o blecaute continuado. A iluminação pública das praias e ruas era apagada, impedindo o funcionamento de letreiros luminosos, assim como a circulação de pessoas.
Laudelina exerceu essa atividade em Santos, dando expediente, por exemplo, no forte de Itaipu, protegendo os canhões. Em alguns relatos, ela comenta que, ao exercer essa função, chegou a receber um tiro. Ela cita que era responsável por ser sentinela em um cemitério de Santos, onde teria descoberto um espião alemão, disfarçado de freira, que lá mantinha um rádio de comunicação escondido, supostamente enviando informações sigilosas.
Brasília, 1966
“Muito prazer! Então a senhora é que é o terror das patroas campineiras?”, perguntou Jarbas Passarinho, então ministro do Trabalho e da Previdência Social, em 1966, quando conheceu Laudelina em Brasília, junto a outros sindicalistas. O grupo estava reivindicando o cumprimento de leis, como a reposição salarial e o salário-família, enquanto as trabalhadoras domésticas demandavam o direito ao Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) e à pensão. A iniciativa parecia ser contraditória, afinal se tratava de uma tentativa de diálogo com um ministro nomeado pelos militares em um contexto ditatorial, o que revelava a dimensão da realpolitik de Laudelina, que procurou trafegar por diferentes espectros políticos com o propósito de defender a causa das trabalhadoras domésticas, sem que isso tenha comprometido suas convicções pessoais.
I Congresso de Jovens Empregadas Domésticas (JOC)
O I Congresso de Jovens Empregadas Domésticas aconteceu de 10 a 23 de janeiro de 1961, no Centro Social Catarina Labouré, no Rio de Janeiro, e reuniu cerca de 20 trabalhadoras de várias regiões do país. O encontro buscava movimentar a categoria, defender seus direitos e regulamentar a profissão.
O congresso foi organizado pela Juventude Operária Católica (JOC), um setor progressista da Igreja Católica, fundada em 1932 pelo sacerdote Joseph Cardijn. Proveniente de uma família operária, ele buscava se aproximar da classe trabalhadora com o objetivo de melhorar a vida dos jovens trabalhadores por meio de uma ação evangelizadora e da formação de uma consciência crítica.
As JOCs reuniram trabalhadoras domésticas locais em cada estado, selecionaram representações e arcaram com os custos de suas viagens ao Rio de Janeiro, para que pudessem conversar sobre os problemas regionais da categoria. O encontro foi tão importante que algumas associações surgiram a partir dele. A programação também incluía aulas de economia doméstica e alimentação saudável.
V Congresso das Empregadas Domésticas (Dom Helder Câmara)
Em 1985, três anos após o retorno de Laudelina ao sindicato, aconteceu o V Congresso das Empregadas Domésticas, em Olinda (PE). Foi o primeiro congresso realizado após a abertura política do país, e marcou a criação de uma equipe nacional de representantes de todos os estados, responsáveis por uma articulação regional que pudesse estruturar nacionalmente todas as organizações de trabalhadoras domésticas existentes.
O evento contou com a participação de dom Helder Câmara, que celebrou uma missa em ação de graças no evento. Arcebispo emérito de Olinda e do Recife, dom Helder ficou conhecido por ser um grande defensor dos direitos humanos durante a ditadura militar brasileira.
Em um relato da época, Laudelina, já com 78 anos, conta que, em conversa com o arcebispo, disse esperar que Deus não a deixasse morrer sem ver a sua associação se tornar um sindicato profissional, sonho que se realizaria em 1988, quando a nova Constituição Federal permitiu que o sindicato fosse criado.
VI Congresso das Trabalhadoras Domésticas (1989- Campinas)
Em 1989, foi realizado o VI Congresso das Trabalhadoras Domésticas, no distrito de Nova Veneza, município de Sumaré, na região metropolitana de Campinas, sob a responsabilidade do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas. Com o tema “União, organização, luta”, o evento contou com a participação de 157 trabalhadoras. Laudelina discursou na abertura do evento a respeito da história da associação e sobre as pressões sofridas na profissão.
PÉROLA NEGRA
Baile Pérola Negra
O Baile Pérola Negra foi o primeiro organizado por Laudelina em Campinas, sendo o primeiro baile do gênero no Brasil, segundo matéria publicada pela revista O Cruzeiro. O baile aconteceu em maio de 1957, no Teatro Municipal de Campinas, idealizado por Laudelina, José de Souza e Jair Clemente, e teve patrocínio parcial do jornal O Diário do Povo. O baile era voltado para pessoas negras, porém era permitido que pessoas brancas pudessem assistir, nos camarotes e nas frisas. No salão, eram permitidas somente pessoas negras, e era obrigatório o uso de traje a rigor.
Foram convidadas 20 jovens negras como candidatas. A seleção considerava, além da beleza, a formação moral e o grau intelectual de cada uma delas. Foram selecionadas nove semifinalistas. Com o voto do público, chegou-se a cinco finalistas: Marcília Gama, Cícera de Oliveira, Maria de Fátima de Andrade, Odete Amaral e Lucila Duarte. Cada uma seguiu sua campanha de venda de votos, que eram depositados numa urna no prédio onde funcionava o jornal. Todo fim de semana se fazia a contagem dos votos, que era então publicada pela imprensa. A grande campeã foi Marcília Gama.
Baile das Debutantes Negras: Menina Moça
O Baile Menina Moça era um famoso baile de debutantes que acontecia em Campinas, mas que famílias negras não podiam participar. Laudelina então organizou o primeiro baile de debutantes negras da cidade. O Teatro Municipal, onde acontecia o tradicional baile das debutantes brancas, não queria alugar o tablado para um baile só para negros. Por isso, Laudelina e outras pessoas fizeram um protesto nos jornais locais, e o teatro cedeu o aluguel.
O baile aconteceu no dia 26 de outubro de 1957, no Ginásio Campineiro de Regatas, e a atriz Ruth de Souza foi a madrinha das debutantes. Nessa noite, foram apresentadas jovens não só de Campinas, mas também de outras cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Piracicaba, Jundiaí e São Carlos. A cerimônia mantinha costumes similares aos dos bailes brancos da época, com a troca dos sapatos baixos pelos sapatos de salto, e com as roupas típicas de festas de debutantes.
Debate entre Abdias do Nascimento e Rachel de Queiroz
O Baile das Debutantes Negras rendeu um acalorado debate na imprensa, confrontando duas posições: a da jornalista e escritora Rachel de Queiroz e a do ativista, escritor e artista visual Abdias do Nascimento. A polêmica se iniciou com o texto da escritora em sua coluna na revista O Cruzeiro, em que defendeu que a existência de espaços exclusivamente negros também era discriminatória, uma vez que o problema de cor no Brasil se confundia com o problema de classe, sendo a questão racial diminuta, havendo até mesmo uma legislação para combatê-la.
Em resposta ao texto de Queiroz, Nascimento, que participou do baile, manifestou-se contrário ao argumento de racismo reverso. Para ele, era necessário afirmar o orgulho e o pertencimento: “O negro precisa ter orgulho de ser negro. Precisa realizar-se. Esse baile para as jovens negras é libertação pela catarse.” A reverberação do baile e a resposta de Abdias foram reproduzidas pela imprensa de várias partes do Brasil.
Carolina Maria de Jesus: festa de 15 anos
Carolina Maria de Jesus foi uma escritora que se tornou internacionalmente conhecida a partir do lançamento do seu livro Quarto de despejo, em 1960, obra baseada nos diários escritos entre os anos de 1955 e 1960, período em que viveu na favela do Canindé, em São Paulo. Neles, narra seu cotidiano, marcado por profundas dificuldades econômicas, ao mesmo tempo que reflete filosoficamente a respeito de sua própria existência.
Com o sucesso do livro, a escritora passou a ser convidada de honra de inúmeras atividades sociais. Entre elas, estavam bailes de debutantes que aconteciam em clubes negros, na cidade de São Paulo e adjacências, que procuravam apresentar personalidades negras de destaque.
Carolina também exerceu o trabalho doméstico. Em uma entrevista, mencionou que, certa vez, deixou o feijão queimar por estar com a “cabeça na poesia”, sem atenção ao serviço.
“ENTRE A MÃE PRETA E O TERROR DAS PATROAS”
Obra da Mariane (sem título para esta legenda)
Após estabelecer-se em Campinas, Laudelina notou que os anúncios de jornal em busca de trabalhadoras domésticas faziam uma distinção racial, apontando preferência por mulheres brancas ou até mesmo de outra nacionalidade. Indignada com esses anúncios, Laudelina decidiu ir à redação do jornal Correio Popular para protestar. Lá, conheceu Bráulio Mendes Nogueira, jornalista e diretor da seção. Ao ser questionado sobre o preconceito, Nogueira respondeu que os anúncios já vinham prontos, e eles eram obrigados a publicá-los. Sensibilizado com a questão, decidiu aliar-se à luta de Laudelina. No dia seguinte, já não havia mais nos anúncios menções à raça ou à nacionalidade.
Manuais
Com a abolição da escravatura, houve diversas mudanças na relação entre “senhores” – agora patrões – e seus “criados”. Por mais que, na prática, as relações trabalhistas não tivessem se alterado tanto, os trabalhadores não estavam mais sob vigilância constante de seus patrões, habitando outros espaços na cidade. A falta de responsabilidade social com os recém-libertos ajudou no processo de criação de espaços à margem, que acabaram por ser estigmatizados como ambientes promíscuos e anti-higiênicos. Os patrões temiam que as “criadas” trouxessem doenças e ensinassem maus comportamentos para seus filhos. Surgiu então, no período republicano, tentativas pedagógicas de “domesticar” e “civilizar” as trabalhadoras domésticas, sob o pretexto de ensinar as mulheres como administrar a casa e a família. Os manuais argumentavam que as empregadas só “prestavam” sob a supervisão de suas patroas.
Fichamentos (policial e médico)
O estereótipo de que as trabalhadoras domésticas eram preguiçosas, mal-intencionadas, invejosas e até mesmo carregavam doenças, ou seja, pessoas que deveriam ser instruídas e vigiadas para não macularem os “lares de bem”, gerou também procedimentos de fichamento policial e médico para o controle dos patrões. Um deles foi a criação do Serviço de Registro de Empregados Domésticos, em São Paulo, em 1946, um cadastro de registro e fiscalização de saúde e antecedentes criminais, além do acompanhamento de ocorrências durante o trabalho e do motivo de dispensa de trabalhos anteriores. A Associação das Trabalhadoras Domésticas de Campinas, após o golpe de 1964, passou a ser tutelada pela prefeitura, tendo sua proposta político-educativa dirigida pela Secretaria de Bem-Estar Social. Dentre as mudanças implementadas, que buscavam despolitizar a instituição, estava um caráter mais paternalista, com a participação direta das patroas, e com a inclusão da declaração de antecedentes policiais e a carteira de saúde na ficha de inscrição da futura sócia da associação.
A negação do Brasil
O documentário A negação do Brasil (2000), produzido pelo diretor Joel Zito Araújo, foi baseado em sua pesquisa de doutorado realizada na Universidade de São Paulo. Além do documentário, a pesquisa resultou em um livro homônimo, lançado no mesmo ano. A obra faz uma análise das telenovelas brasileiras no período de 1963 a 1997, enfatizando como o negro foi representado e como elas influenciaram na percepção do debate racial no país. A obra foi construída por meio de imagens de arquivo, narração e depoimentos. Aqui, exibimos trechos da obra que privilegiam o debate sobre a representação do trabalho doméstico.
"Pátria minha", Sueli Carneiro
Em 1994, a Rede Globo exibia, em seu horário nobre, a novela Pátria minha. Em um dos capítulos, o empresário interpretado por Tarcísio Meira acusa o jardineiro interpretado por Alexandre Moreno de tê-lo furtado. As palavras e as acusações do personagem de Meira eram marcadas por ofensas raciais, e a cena expunha o racismo de forma explícita, com toda sua dimensão de violência, além de perpetuar o estereótipo de trabalhadores domésticos como pessoas desonestas.
A cena causou indignação, e organizações do movimento negro responderam publicamente ao acontecimento. A filósofa e ativista Sueli Carneiro, na época coordenadora executiva do Geledés, Instituto da Mulher Negra, entrou com uma notificação judicial e escreveu o texto aqui apresentado, publicado no jornal O Estado de S. Paulo. Seu incômodo estava na caracterização passiva do personagem negro diante da violência que sofria. "Essa atitude tão moderna da emissora e de seus autores de enfrentar o problema do racismo se apoia em imagens arcaicas e ultrapassadas dos negros, que até no nível da historiografia oficial estão sendo objeto de críticas e revisões. Impossível que os globais não o saibam.”
Outras entidades negras se manifestaram, e a Rede Globo e os autores da novela, diante da pressão, reconheceram a crítica. Como reparação, foi incluída na novela uma cena em que a personagem de Chica Xavier rechaça o racismo e enaltece a autoestima negra.
LAUDELINA ARTICULADORA CULTURAL
I Salão Campineiro dos Amigos das Belas-Artes
No início da década de 1960, Laudelina, Bráulio Mendes Nogueira, dr. José Alberto e Mário de Oliveira organizaram o I Salão Campineiro dos Amigos das Belas-Artes, no saguão do Teatro Carlos Gomes. A ideia surgiu de Laudelina, que queria organizar uma exposição que promovesse a valorização da autoestima e da cultura negra. A mostra contou com várias linguagens artísticas, entre as quais artes visuais, poesia e música.
Laudelina era a curadora e convidava pessoalmente cada artista para participar. Sabemos que participaram do salão a poeta Genny Baptista, o músico José Neves Balthazar e o pintor Mário de Oliveira. O evento, que pretendia mostrar artistas negros de Campinas, contou também com participantes de Piracicaba e Jundiaí.
Mário de Oliveira
Nascido em 1927, na cidade paulista de Lins, Mário de Oliveira foi um pintor formado pela Associação Paulista de Belas-Artes, na década de 1950, que se dedicava a diversos gêneros, entre os quais a paisagem.
Sua vida se cruzou com a de Laudelina quando ela o viu pintando a parede de um açougue e, impressionada com a qualidade artística do seu trabalho, perguntou o motivo de estar realizando aquela atividade. Oliveira se apresentou e contou sobre sua formação, e ela promoveu o encontro de Oliveira com Bráulio Mendes Nogueira, que o levou à Escola de Belas-Artes de Campinas, onde passaria a lecionar pouco tempo depois.
Em 1960, Mário de Oliveira apresentou alguns trabalhos no I Salão Campineiro dos Amigos das Belas-Artes. Poucos meses depois, aconteceu sua primeira mostra individual, no Teatro Municipal Carlos Gomes, em Campinas. Com essas duas mostras e trabalhando como professor, Mário ganhou destaque no meio artístico e participou de dezenas de exposições nos anos seguintes, em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o que lhe rendeu diversos prêmios.
Na década de 1970, mudou-se para Ouro Preto com sua esposa – que foi integrante da Associação das Empregadas Domésticas de Campinas –, e dedicou-se às paisagens da cidade e pinturas barrocas, como é o caso das fotografias que vemos aqui. Oliveira se intitulava como "pintor clássico" e tinha profundo apego à arte figurativa, tendo consolidado uma trajetória de mais de 50 anos de carreira.
Escola de Bailados Santa Efigênia
Em 1955, Laudelina fundou em Campinas a Escola de Bailados Santa Efigênia. Era uma escola de dança onde eram oferecidas aulas de bailados clássicos, sapateado, danças modernas, danças populares e teatro. Havia aulas para rapazes, moças e crianças e, embora se direcionasse para pessoas negras, acabou tendo alunos brancos devido ao seu repertório de aulas.
Laudelina precisou procurar uma professora negra em São Paulo, pois as professoras brancas de Campinas não queriam dar aulas para negros. Léo Tigre vinha a Campinas três vezes na semana, duas para dar aulas nas escolas brancas e uma para a Santa Efigênia.
O prefeito da época, Sérgio Rodrigues, cedeu uma casa e alguns móveis para que a escola funcionasse. Como a casa era muito grande, além das aulas oferecidas, o local se tornou um lugar onde pessoas negras poderiam socializar e compartilhar saberes. Com o tempo, outras pessoas foram se incorporando à casa e começaram a oferecer aulas de música. Laudelina organizava também bailinhos e matinês: era, segundo ela, uma “quermesse permanente”.
PRA CONTINUAR: PRA USOS E FRUTOS
Maria Auxiliadora
Auxiliadora dedicou-se a diversas temáticas, entre as quais a representação de si. Em Autorretrato com anjos, vemos figuras celestiais que oferecem pincéis, tintas, quadros e uma guirlanda de flores à artista, que já se encontrava bastante doente nessa época. Auxiliadora pintou até sua morte, que ocorreu dois anos depois.
Apresentar o autorretrato da artista neste núcleo, no qual celebramos os eventos culturais produzidos e curados por Laudelina, é reforçar a importância do direito à arte para as trabalhadoras domésticas. Ela entendia que ter acesso à arte era uma possibilidade de engrandecimento cultural e humano, e também uma forma de ampliar o pensamento para além das tarefas que o ofício trazia. Desejamos aqui enfatizar a arte como uma possibilidade.
Clipe Boa Esperança, de Emicida
Filho de dona Jacira, artista plástica, escritora e ex-trabalhadora doméstica, falecida em 2025, o escritor e rapper brasileiro Leandro Roque de Oliveira, ou Emicida, como é conhecido, é o autor da música Boa Esperança. O clipe da canção apresenta uma perspectiva de libertação radical de trabalhadores domésticos que se insurgem contra os maus-tratos, abusos e assédios de seus patrões na mansão onde trabalham, iniciando um motim nacional. A inspiração para a produção audiovisual surgiu a partir de trocas com trabalhadoras domésticas de uma ocupação no centro de São Paulo, que também atuaram no vídeo, assim como sua própria mãe. Em várias entrevistas, Emicida relembrou situações difíceis vividas por ele e sua mãe: “Uma pessoa te remunerar por um serviço não significa que, em instância alguma, aquela pessoa seja dona de você”.
A perspectiva distópica que o curta constrói ecoa um temor que paira sobre as elites brasileiras desde o período escravocrata: a insurreição de pessoas escravizadas. Um temor alimentado pela Revolução do Haiti, que, no século XVIII, expulsou os colonizadores franceses e acabou com a escravidão no país.
Clementina de Jesus
Em um momento de intimidade, captado pelo olhar afetuoso do fotógrafo Walter Firmo, Clementina de Jesus (1901-1987) descansa ao sol. A artista, que foi uma das maiores cantoras brasileiras, destacou-se por seu inconfundível timbre e por um repertório profundamente ligado à cultura afro-brasileira. Iniciou sua carreira na década de 1930, com participações no Carnaval, e integrou o coro de pastoras que acompanhava o artista e músico Heitor dos Prazeres. Foi apenas na década de 1960 que Clementina alcançou amplo reconhecimento.
Com sua presença na exposição, celebramos inúmeras cantoras brasileiras que exerceram o trabalho doméstico por muitos anos antes de serem reconhecidas como artistas, como Jovelina Pérola Negra, Elza Soares, Virgínia Rodrigues, Deise Tigrona e Preta Rara.
No link abaixo, é possível ouvir uma playlist que reúne algumas dessas artistas.
Mirtes Renata Santana de Souza
Em junho de 2020, um caso chocou o Brasil: o menino Miguel caiu do nono andar de um prédio de luxo no Recife, em circunstâncias relacionadas ao profundo descaso da empregadora de sua mãe, posteriormente indiciada por abandono de incapaz com resultado de morte. O caso ainda tramita na justiça.
A situação impactou profundamente diversos setores da sociedade brasileira, que se solidarizaram com Mirtes de Souza, mãe de Miguel. Como consequência do caso, em agosto de 2020, entrou em vigor em Pernambuco a chamada Lei Miguel, que proíbe a circulação de crianças de até 12 anos em elevadores desacompanhadas de maiores de 18 anos.
Tempos depois, em resposta a tudo que sofreu, Mirtes decidiu transformar sua dor em ação e iniciou o curso de direito, com o objetivo de apoiar outras trabalhadoras domésticas que passam por situações de violência. Em 2025, ela defendeu seu Trabalho de Conclusão de Curso, que exibimos aqui, sobre o trabalho doméstico contemporâneo no Brasil.
Eu, empregada doméstica: a senzala moderna é o quartinho de empregada (Renata)
No dia 19 de julho de 2016, a historiadora Joyce da Silva Fernandes, rapper conhecida como Preta Rara, decidiu compartilhar em sua página de Facebook um relato sobre o período em que trabalhava como empregada doméstica. A publicação, acompanhada da hashtag #EuEmpregadaDoméstica, estimulava outras trabalhadoras a compartilharem seus próprios testemunhos na rede. A postagem alcançou muita visibilidade e teve um grande retorno, fazendo com que Joyce criasse uma fanpage e um email, em que recebia os relatos para posteriormente compartilhar. A hashtag gerou milhares de depoimentos na internet, lançando luz para as violências que quase sempre aconteciam no interior das casas das patroas.
Em 2019, Preta Rara lançou o livro aqui exposto, compilando alguns relatos ainda inéditos dos que recebeu desde 2016.
Sessão Solene – Homenagem ao Dia Nacional da Empregada Doméstica
Deputada Benedita da Silva
No dia 29 de abril de 2014, a ex-senadora da República, ex-governadora e deputada federal Benedita da Silva subiu à tribuna da Câmara vestindo um uniforme de trabalhadora doméstica, como uma forma de celebrar a categoria por seu dia. "A forma de homenageá-las e homenageá-los foi estar aqui com esse uniforme que um dia eu vesti." Benedita exerceu o trabalho doméstico muito jovem, antes de conseguir concluir sua graduação em serviço social. Na década de 1980, foi eleita vereadora e, depois, deputada, tendo sido, segundo Laudelina, a deputada que mais lutou pelo reconhecimento das trabalhadoras domésticas como categoria profissional. É de sua autoria a PEC das Domésticas, aprovada em 2013, durante o governo de Dilma Rousseff, que garante às trabalhadoras domésticas direitos já assegurados a outros trabalhadores, como o FGTS. Benedita da Silva (PT) foi a primeira mulher a governar o Rio de Janeiro (2002-2003) e destaca-se por ser a única ex-governadora do estado, nas últimas décadas, que não foi presa, afastada do cargo ou envolvida em escândalos de corrupção.
Título de doutora honoris causa a Creuza Maria Oliveira
No dia 24 de novembro de 2023, Creuza Maria Oliveira recebeu o título de doutora honoris causa pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Trata-se de um marco histórico, por ser a primeira vez que esse título foi concedido a uma trabalhadora doméstica. Creuza é uma importante ativista política, sindicalista e ex-vereadora de Salvador. Foi uma das fundadoras do Conselho Nacional das Trabalhadoras Domésticas (CNTD), a primeira presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Domésticos da Bahia e atualmente é presidenta de honra da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad).
Ela começou a exercer o trabalho doméstico ainda na infância, quando foi “entregue” a uma família, que a encarregou do cuidado dos filhos e dos afazeres domésticos. Trabalhou para outras famílias sem remuneração, em troca de teto e alimento. Aos 20 anos, teve acesso a um grupo de trabalhadoras domésticas que se reuniam para discutir melhores condições de trabalho, começando então sua militância pela categoria. Entre suas ações como militante, ela contribuiu para que o governo brasileiro adotasse a Convenção 189, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), relativa ao trabalho doméstico.
1871
Promulgação da Lei do Ventre Livre.
1879
Nascimento de Marcos Aurélio Campos Melo, pai de Laudelina.
1888
Abolição da escravidão.
Nascimento de Maria Maurícia Campos Melo, mãe de Laudelina.
1901
Casamento dos pais de Laudelina.
1904
Nascimento de Laudelina, em 12 de outubro, em Poços de Caldas, MG.
1916
Morre o pai de Laudelina, vítima de um acidente de trabalho durante o corte de uma árvore.
Laudelina trabalha como pajem da família Moreira Salles.
1920
Funda junto com outros jovens negros em Poços de Caldas o Clube 13 de Maio.
1924
Laudelina se casa com Geremias Henrique Campos Mello e se muda para Santos.
Laudelina funda com outras pessoas o Saudades de Campinas, onde foi presidente e oradora oficial.
1925
Nasce Alaor, primeiro filho de Laudelina e Geremias.
1928
Nasce Neusa, primeira filha de Laudelina e Geremias.
1928-1934
Laudelina se muda para São Paulo, onde segue exercendo a profissão de doméstica.
1930
Início da Era Vargas.
1931
Getúlio Vargas lança o Decreto n. 19.770, que regula a sindicalização das classes patronais e operárias; as empregadas domésticas são excluídas do status de trabalhadoras.
A Frente Negra Brasileira (FNB) é fundada na cidade de São Paulo.
1934
Laudelina retorna a Santos e segue atuando como trabalhadora doméstica.
1936
Laudelina funda a Associação Beneficente das Trabalhadoras Domésticas de Santos.
1937
Getúlio Vargas dá um golpe de Estado e tem início a ditadura do Estado Novo.
A Associação Beneficente das Trabalhadoras Domésticas é fechada pelo Estado Novo.
1938
Laudelina se separa do marido.
1939
Início da Segunda Guerra Mundial.
1942
Getúlio Vargas cria a Defesa Passiva Antiaérea, que depois se transforma em Organização Feminina Auxiliar de Guerra (Ofag). Laudelina atua nas duas organizações.
1943
Promulgação da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT), mas trabalhadores rurais e domésticos não são contemplados.
1945
Fundado o Teatro Experimental do Negro, que conta com a presença de muitas trabalhadoras domésticas.
Fim da Segunda Guerra.
1946
AAssociação Beneficente das Trabalhadoras Domésticas de Santos é reaberta após os sindicatos serem autorizados a voltar a atuar.
1949
Laudelina se muda para o interior de Campinas para trabalhar na fazenda São José, propriedade de Benta Silva Cardoso, mãe de Hilda Hilst, com quem já trabalhava em Santos. Inicialmente exerce o cargo de governanta; o espaço se torna um hotel, e ela assume o cargo de gerente, sendo, posteriormente, administradora do espaço.
1953
O hotel-fazenda onde Laudelina trabalha é vendido, e ela se muda para a área urbana de Campinas.
1953
Inicia seus trabalhos junto ao Clube Cultural Recreativo, organização negra da qual faz parte da diretoria e, posteriormente, passa a organizar atividades como bailes e concursos de beleza negra.
1954-1955
Laudelina monta uma pensão e começa a vender salgados no estádio do Guarani e também no da Ponte Preta.
1955
Laudelina funda a Escola de Bailados Clássicos Santa Efigênia.
1957
Laudelina organiza o Baile da Pérola Negra e o 1º Baile das Debutantes Negras.
1959
É fechada a Escola de Bailados Clássicos Santa Efigênia.
1960
Laudelina é uma da criadoras do i Salão Campineiro dos Amigos das Belas Artes.
1961
Laudelina funda a Associação das Empregadas Domésticas em Campinas.
1962
1º Aniversário da Associação das Empregadas Domésticas, que aconteceu no Teatro Municipal de Campinas. A festividade contou com apresentações de alunos e ex-alunos da Escola de Bailados Santa Efigênia, músicos e atores negros da cidade.
1964
Início da ditadura militar no país, com perseguições e censura.
A associação é transformada em instituição beneficente ligada à prefeitura de Campinas, passando a ter uma proposta político-educativa dirigida pelo Departamento do Bem-Estar Social da Prefeitura, desviando-se de seu caráter militante.
1968
Decretado o Ato Institucional n. 5, que suspende direitos políticos, garantias individuais e liberdade de imprensa.
1º Congresso Nacional das Trabalhadoras Domésticas, no Rio de Janeiro.
Laudelina cria creche para filhos de trabalhadoras domésticas em Campinas, com apoio da primeira-dama do Estado.
Laudelina se retira do sindicato por divergências ideológicas.
1970
Laudelina participa da fundação de um grupo de mulheres da periferia, na Vila Castelo Branco, em Campinas, onde mora.
1972
Aprovada a lei n. 5.859/72, que garante o registro da carteira de trabalho e previdência social para os trabalhadores domésticos no Brasil e direitos como férias anuais de 20 dias úteis.
1982
Laudelina retorna à associação aos 78 anos.
1985
Abdias Nascimento propõe o Projeto de Lei n. 5.466, que institui o dia 27 de abril como o Dia Nacional da Empregada Doméstica. É o dia em que se celebra Santa Zita, padroeira das empregadas domésticas.
1988
Promulgação da Constituição Federal, que assegura às trabalhadoras domésticas salário-mínimo, irredutibilidade salarial, 13º salário, repouso semanal remunerado, férias anuais, licença-gestante, licença-paternidade, aviso-prévio e aposentadoria.
A associação consegue transformar-se em Sindicato das Trabalhadoras Domésticas graças à Constituição.
1989
Morre Alaor, filho de Laudelina.
1991
Morre Laudelina, em 12 de maio, em Campinas.
1993
É publicada a pesquisa acadêmica de Elisabete Aparecida Pinto, Etnicidade, gênero e educação: trajetória de vida de Laudelina de Campos Mello, principal estudo feito sobre Laudelina, realizado a partir de entrevistas e depoimentos da sindicalista nos seus últimos anos de vida.
2013
pec das Empregadas, com relatoria da deputada federal Benedita da Silva, ex-trabalhadora doméstica.
2020
Laudelina vira doodle do Google no dia que em completaria 116 anos de idade.
Primeira morte por covid-19 no Brasil é de uma trabalhadora doméstica no Rio de Janeiro. Após o caso, filhos e filhas de trabalhadoras domésticas criam o movimento “Pela vida de nossas mães”, lançando um manifesto e um abaixo-assinado cobrando quarentena remunerada para a classe.
2023
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sanciona a Lei n. 14.635, que inscreve o nome de Laudelina de Campos Mello no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
