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Diversidade nas telas

18 de abril de 2019

A semana está repleta de estreias relevantes nos cinemas. Como não dá para discorrer sobre todas com o devido cuidado, concentremos a atenção em duas: o francês Vidas duplas, de Olivier Assayas, e o brasileiro Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza. Sobre uma terceira, o chinês Amor até as cinzas, de Jia Zhang-ke, escrevi brevemente quando foi exibido na Mostra Internacional de São Paulo do ano passado.

Pois bem. Do filme de Assayas, uma sinopse convencional diria que se trata do entrelaçamento da vida privada e profissional de dois casais de amigos parisienses: Léonard Spiegel (Vincent Macaigne), escritor, e Valérie (Nora Hamzawi), assessora de um político progressista; Alain (Guillaume Canet), editor, e Selena (Juliette Binoche), atriz de teatro e televisão. Uma crônica contemporânea de costumes, em suma, tendo como pano de fundo as transformações por que passa o mundo da cultura.

O tema do adultério, central na literatura francesa desde pelo menos o século 18, perpassa de formas diversas toda a narrativa, mas não é só ele que justifica o título do filme. O que o torna ao mesmo tempo encantador e inquietante, a meu ver, é o modo como cada personagem, em algum momento, se revela a antítese de si mesmo, dependendo da situação em que está inserido.

Cabem alguns exemplos para tornar a ideia mais clara. Na primeira conversa, entre o escritor Léonard e o editor Alain, este procura mostrar ao amigo a nova realidade do mercado editorial: livros eletrônicos, produção de e para a internet, audiobooks etc. Soa como um arauto da modernidade diante de um dinossauro da literatura. Em outros momentos, em face de um blogueiro de sucesso ou de uma assessora para mídias digitais, Alain passa a ser o guardião da velha e boa qualidade literária.

Do mesmo modo, Selena, a atriz, se irrita toda vez que alguém diz que ela encarna uma policial numa série televisiva. “Não é policial, é uma agente para situações especiais”, corrige. Mas quando alguém expressa admiração por sua atuação como “agente para situações especiais”, ela retruca: “É só uma policial”.

Espírito de contradição

Esse espírito dialético da contradição, tão característico do melhor pensamento francês e de muito da sua arte, é erigido aqui em método de construção e narração. Nada é dado e aceito de imediato. Tudo é apresentado, questionado e enriquecido por um contraponto verbal ou visual. Os numerosos temas – as relações entre literatura e mercado, arte e indústria, atuação e imagem na política, ficção e realidade – vão se tornando mais ricos e complexos, desenvolvidos como que em círculos concêntricos, ou melhor, em espiral.

Isso se dá não apenas nos diálogos, mas também no plano da encenação e da linguagem visual. Se as primeiras sequências são filmadas como conversas simples, basicamente em campo/contracampo e em poucos locais (um café, um apartamento), aos poucos os ambientes vão se tornando mais amplos e profundos, os movimentos de câmera mais elaborados, ainda que sem jamais perder a fluência e a naturalidade. Não por acaso, termina-se ao ar livre, junto à imensidão do mar.

Profusão de assuntos

É espantoso constatar, ao final, quantos territórios essa obra percorreu em menos de duas horas: da política às relações de gênero, da literatura à tecnologia, das fraturas sociais à busca de uma ética perene, tudo isso sob o rolo compressor da concentração de capital e da onipresença da publicidade.

Há, além de tudo, uma fina e muito moderna autoironia, que parece incluir o próprio filme em seu processo de reflexão crítica e que atinge seu ápice na cena em que alguém sugere que Juliette Binoche talvez possa narrar a versão em audiobook de um livro de Léonard e pede então a intermediação de Selena (a própria Juliette Binoche) para chegar à atriz.

Mesmo sem chegar às alturas de sua obra-prima Horas de verão (2008), Assayas se consolida como autor sintonizado com as tensões de seu tempo e como legítimo herdeiro da Nouvelle Vague – sem o romantismo de Truffaut, nem a radicalidade estética de Godard, mas com a fluência de Chabrol e a inteligência dialética de Rohmer.

Seu próximo filme, Wasp network, atualmente em finalização, é uma adaptação do livro-reportagem Os últimos soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, sobre agentes secretos infiltrados pelo governo cubano nos Estados Unidos. No elenco, o brasileiro Wagner Moura contracena, entre outros, com Penelope Cruz e Gael García Bernal. A julgar pela excepcional minissérie Carlos, o Chacal, que Assayas fez em 2010, podemos esperar um thriller empolgante.

Aldeia dos mortos

Chuva é cantoria na aldeia dos mortos conta, em resumo, a história do adolescente krahô Ihjãc, que recebe do pai morto a incumbência de completar seus devidos ritos fúnebres, para que seu espírito possa partir e a aldeia deixe de chorar sua perda.

Ao mesmo tempo, Ihjãc, que tem mulher (Kôtô Krahô) e um filho de colo, recebe da Arara (entidade que tem ascendência sobre a aldeia) o sinal de que deve se tornar um pajé. Mas ele não quer seguir esse destino, e para fugir dele vai passar um tempo na cidade dos brancos, ficando num centro de apoio indígena até ser desalojado.

Não é o caso de contar o que acontece daí em diante, mas sim ressaltar a integridade com que os diretores aderem ao universo retratado, imergindo numa história dos próprios krahôs, que desempenham seu próprio papel falando sua própria língua. Mas sem uma visão idílica de uma civilização supostamente intocada: o interessante está justamente nessa fricção entre o mundo dos índios e o mundo dos brancos, na interpenetração de um pelo outro.

Diante desse belo híbrido de ficção e documentário, narrado de forma enxuta e precisa, mas com um olhar sensível à poesia da natureza, dos corpos e dos gestos, dois filmes vêm à mente, um recente e um mais antigo. O recente é o documentário Ex-pajé, de Luiz Bolognesi, sobre um antigo pajé dos paiter suruí, reduzido hoje a empregado da igrejinha evangélica de sua aldeia. Em Chuva é cantoria, o protagonista é, ao contrário, um possível futuro pajé.

Entre o índio e o branco

O filme mais antigo é Uirá, um índio em busca de Deus (1973), de Gustavo Dahl, ficção escrita por Darcy Ribeiro, em que um índio urubu-kaapor, depois da morte de seu primogênito, sai da aldeia com sua mulher, numa longa andança em busca de Maíra, divindade criadora, e da “terra sem males”. No caminho, entra em choque com a civilização branca, que ele não compreende e que não o compreende.

A despeito de algumas semelhanças entre as trajetórias de Uirá e de Ihjãc, inclusive na cena final quase idêntica, mais significativas são as diferenças: por melhor que fosse a história do primeiro, por mais sinceras as suas intenções, havia de certa forma uma adequação do drama indígena à visão e à dramaturgia dos brancos, a começar pela escolha dos atores principais (Érico Vidal e Ana Maria Magalhães). Chuva é cantoria já é outra visão, como que um passo adiante na imersão na cultura do outro.

O passo seguinte e definitivo é os próprios indígenas filmarem suas histórias, algo que já acontece, embrionariamente, no projeto “Vídeo nas aldeias”, iniciado de modo pioneiro por Vincent Carelli há mais de vinte anos. Falta agora chegar ao circuito exibidor e ao público em geral.

Em tempo: Chuva é cantoria na aldeia dos mortos ganhou vários prêmios internacionais, incluindo o prêmio do júri da mostra Un certain regard do festival de Cannes.


José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Publicou, entre outros, André BretonBrasil: Anos 60 e Futebol brasileiro hoje, e participou com artigos e ensaios dos livros O cinema dos anos 80Folha conta 100 anos de cinema Os filmes que sonhamos. Veja textos da coluna semanal sobre cinema que assinou no Blog do IMS entre setembro de 2011 e dezembro de 2018.

 

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