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A escolha de Pierce

24 de agosto de 2026

O filme O casamento do meu irmão tem sessão especial no cinema do IMS Paulista em agosto

 

Em um momento de O casamento do meu irmão (1983), Pierce Mundy, personagem principal do filme, tem que se decidir entre duas alternativas que lhe são apresentadas: um casamento e um enterro. Até esse instante, Charles Burnett nos apresenta não só a vida de Pierce, mas um universo contado por uma perspectiva única, com um olhar sincero que nos leva pela mão em passos descompassados nas ruas da região centro-sul de Los Angeles, na década de 1980.

Há 14 anos atrás, em Belo Horizonte, eu vi o anúncio de uma mostra retrospectiva de Burnett, que aconteceria dentro da programação do INDIE, festival muito querido por toda uma geração de mineiros apaixonados e viciados por cinema. Lembro de ter comentado sobre a mostra com um amigo, que me recomendou assistir O matador de ovelhas (1977), primeiro longa-metragem do diretor que seria exibido dias depois em cópia 35mm, no templo maior da cinefilia belorizontina – o Cine Humberto Mauro.

Chegado o dia, saí da minha casa, em Contagem, rumo ao centro de BH. Fui de ônibus e a vantagem era que os 40 minutos de viagem ocorreram no contrafluxo, pois naquela hora da noite a maioria dos Contagenses voltava do trabalho ou dos estudos. Fui sozinho, talvez por sentir que era um daqueles momentos mágicos onde o cinema muda alguma coisa dentro da gente e que, ao mesmo tempo, precisamos de uma maior introspecção para digerir certas coisas com calma.

Lembro de sair da sessão e da sensação de andar pela Avenida Afonso Pena feliz, como se acabasse de presenciar algo que foi feito diretamente para mim. E isso não vinha junto com um sentimento egoísta e de posse, comum naqueles tempos quando era moda achar ruim se um disco preferido, “só seu”, virava de repente uma coisa mainstream. Pelo contrário. Era uma vontade de espalhar para o mundo que aquilo que eu tinha acabado de ver, de fato, existia.

A retrospectiva estava apenas no começo, e numa extrema curiosidade e “fominhagem” da minha parte, pude assistir a praticamente todos os filmes de Burnett naquela semana. Foi assim que assisti O casamento do meu irmão (1983). Fiquei vidrado! De cara me chamou muita atenção os elementos daquela montagem tão peculiar. Curiosamente não me veio, de imediato, uma vontade de comparar o filme com O matador de ovelhas (1977), mas sim tentar entender mais daquela obra isoladamente.

Cena de O casamento do meu irmão, de Charles Burnett

O casamento do meu irmão (1983) nos dá um panorama daquele lugar, daquelas pessoas. Entendemos todo um contexto histórico, político, periférico e negro. Isso tudo filmado de uma maneira tão bonita, arriscada e ao mesmo tempo respeitosa, que a gente vai acompanhando aquele cotidiano com uma leveza que se intercala com cortes estranhamente lindos, como uma espécie de jazz suave mas com um toque sincopado. Como se Thelonious Monk estivesse “brincando” naquela ilha de edição. Esse ritmo, estranhamente, nos faz dançar em uma levada quase prosaica, que aparentemente não fala ou não se aprofunda em temas importantes para o personagem ou para nós mesmos. Até que de repente, como mágica, nos é apresentado um conflito angustiante para o personagem: a escolha entre o casamento do irmão e o enterro do seu melhor amigo, marcados para o mesmo dia e horário.

Nessa escolha, também estão presentes na cabeça do personagem uma espécie de representação de suas próprias ideias e ideologias. Pierce Mundy parece estar em um conflito com a vida, em parte, por bater de frente com o modo de viver de pessoas próximas. Ele passa boa parte do filme em conflito com os ideais da sua família. Um dos seus momentos mais felizes é quando brinca “que nem criança” com seu melhor amigo (Soldier), que acabou de sair da prisão.

Charles Burnett, o grande expoente do L.A. Rebellion, nos apresenta neste filme, de forma extremamente potente, o que de maneira mais intensa ou não apareceria em quase toda sua filmografia – em obras como To sleep with anger (1990); The annihilation of fish (1999); e The final insult (1997), uma das minhas preferidas. Uma grande sensibilidade para entender e retratar o povo preto, fora ou não da periferia. Construindo seus personagens com elementos mais visíveis ou mais internos, Burnett alcança camadas profundas de sentimentos e sensações das mais humanas e universais.


André Novais Oliveira é diretor e roteirista e um dos sócios fundadores da produtora mineira Filmes de Plástico. Dirigiu os filmes Ela volta na quinta (2014), Temporada (2018), O dia que te conheci (2023) e Se eu fosse vivo... vivia (2026). É autor dos livros Na Zona Leste (Ed. Quixote, 2026) e Roteiro e diário de produção de um filme chamado Temporada (Ed. Javali, 2021).