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A Índia é logo ali

28 de janeiro de 2021

Andam dizendo que O tigre branco está para a Índia como Parasita está para a Coreia do Sul. E a Netflix, que produziu e acaba de lançar o filme de Ramin Bahrani (norte-americano filho de iranianos), espera que ele alcance um sucesso equivalente.

 

 

De fato, os dois têm alguns pontos em comum em seu desenho geral. Em ambos, trata-se de radiografar a estrutura desigual da sociedade por meio da infiltração de um pobre (ou um punhado deles) no mundo dos ricos. Além disso, ambos observam o mundo social com sarcasmo e ironia. Mas as semelhanças param por aí.

Em O tigre branco, o jovem Balram (Adarsh Gourav), oriundo de uma casta baixa, sai da sua pequena aldeia, onde quebrava pedras de carvão, para trabalhar em Nova Déli como motorista de um empresário também jovem, Ashok (Rajkummar Rao), que morou nos EUA e veio de lá com sua bela esposa, Pinky (Priyanka Chopra).

O dispositivo narrativo é engenhoso. Balram, já convertido num empreendedor de sucesso, escreve uma carta ao primeiro-ministro da China, contando sua trajetória e descrevendo a situação social, política e econômica de seu país. A história é narrada, portanto, em flashback e filtrada pela subjetividade nada confiável do protagonista. Sabemos, logo de cara, que Balram é, ou foi, procurado por homicídio, o que nos atiça uma curiosidade que só será saciada na última quarta parte do filme.

 

Capitalismo e castas

O retrato que emerge desse dinâmico relato ilustrado e comentado não é nada lisonjeiro para a Índia. Há ali o pior de dois mundos: um capitalismo selvagem e corrupto instaurado sobre os resquícios de uma sociedade de castas, aprofundando a miséria e a desigualdade. Um contexto em que o pobre “só pode ascender pela política ou pelo crime”.

É isso que Balram aprende ao conviver com seus patrões ricos: o dinheiro compra tudo, da subserviência dos miseráveis aos favores dos políticos. Abjetamente servil até a virada que o transforma em empreendedor, o rapaz condensa em si uma visão cínica do mundo, em que a lei primeira e única é levar vantagem em tudo.

O outro lado desse desencanto com o estado pretérito e atual da Índia é um otimismo empresarial que aposta nas potencialidades do país: “o futuro será amarelo e marrom”, escreve ele ao primeiro-ministro chinês, referindo-se ao porvir glorioso da China e da Índia. Mas não sabemos, é claro, se esse discurso é apenas uma fachada para conseguir recursos e apoio.

O que surpreende nesse produto Netflix destinado ao mercado mundial e aspirante aos Oscars é sua visão implacável do capitalismo no Terceiro Mundo. Não resta pedra sobre pedra. (Há até uma referência jocosa ao megassucesso indiano Quem quer ser um milionário?, que traria uma imagem idealizada do país.) Aqui, não é o que a Índia tem de exótico ou pitoresco que chama a atenção, mas o que tem de incomodamente semelhante com o que vemos, por exemplo, no Brasil.

O nosso sistema de castas chamou-se escravidão e seu resquício é o racismo estrutural, bem como a resiliência da oligarquia. O humor cáustico do Tigre branco tem um gosto amargo para nós. No final, que obviamente não vou contar aqui, o protagonista rompe a “quarta parede” e fala diretamente para a câmera, interpelando o espectador e, de certa forma, provocando-o com sua ironia cínica.

Se não tem a perfeição de relojoaria do roteiro de Parasita, O tigre branco se escora nessa provocação para tentar conquistar o mundo. Se vai conseguir ou não, cabe esperar para ver.

 

Tiradentes e a liberdade

Está meio em cima da hora para dizer isso, mas vai até sábado, dia 30, a 24ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, este ano com sessões inteiramente online. É o festival brasileiro mais dedicado ao cinema de invenção e imersão, com especial interesse pela produção das bordas: geográficas, sociais, étnicas, de gênero, etc. Ou seja, tudo aquilo que não costumamos encontrar no cinema narrativo comercial.

Este ano a grande homenageada é a cineasta Paula Gaitán, que tem seis longas e dois curtas programados, com destaque para o majestoso Luz nos trópicos, de mais de quatro horas, uma viagem deslumbrante e desconcertante que conecta o Pantanal brasileiro e a Nova Inglaterra, com seus respectivos povos originários, embaralhando os séculos e os continentes. Um cinema que se constrói na descoberta e na surpresa, a cada plano, e que exige uma entrega absoluta por parte do espectador. Também no programa o documentário-ensaio inédito Ostinato, sobre e com o músico Arrigo Barnabé (que também é ator em Luz nos trópicos).

No mais, a programação tem de tudo, do sensível drama Valentina, de Cássio Pereira dos Santos, protagonizado por uma menina trans, ao surpreendente documentário Açucena, de Isaac Donato, sobre uma mulher idosa que todos os anos comemora seu sétimo aniversário (só vendo para entender), do perturbador #Eagoraoque, de Jean-Claude Bernardet e Rubens Rewald, ao encantador Mulher oceano, de Djin Sganzerla, passando pelo aterrorizante O cemitério das almas perdidas, de Rodrigo Aragão.

Entre os curtas, há pelo menos uma pequena obra-prima, Vagalumes, de Léo Bittencourt, um mergulho na noite do Parque do Flamengo, com sua atmosfera de sonho e erotismo, a meio caminho entre a natureza e a metrópole.

Vale a pena dar uma conferida na programação, que além dos mais de cem filmes conta também com oficinas e debates.

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