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A loucura como método

07 de março de 2019

Albatroz, de Daniel Augusto, é um desses filmes interessantes tanto por seus inegáveis encantos como por suas contradições e insuficiências. Ao apostar na experimentação formal e na criação de um universo fantástico e maleável, corre o saudável risco de desconcertar críticos e frustrar espectadores.

 

 

No laborioso roteiro de Braulio Mantovani, vários planos narrativos se sobrepõem e se interpenetram. Há, para começar, uma escritora, Alicia (Andrea Beltrão), que escreve um romance autobiográfico sobre sua relação com o fotógrafo Simão Alcóbar (Alexandre Nero) e as outras várias mulheres da vida deste, em particular a cantora e compositora Catarina (Maria Flor) e a atriz Renée (Camila Morgado).

 

Tipos de representação

Mas essa instância, que poderia ser uma espécie de âncora realista da narrativa, só aparece quase na metade do filme, já misturada com outros planos de representação. Não apenas os tempos se alternam de modo não linear, mas também as dimensões de percepção da realidade, misturando sonho, delírio, memória, projeção mental. Não por acaso, todos os personagens importantes se vinculam a algum tipo de representação: a literatura, a fotografia, a música, o teatro. É tudo construção, tudo invenção, girando sobre o vazio.

É curioso que Bráulio Mantovani (um dos produtores do filme, ao lado de sua mulher, a também roteirista Carolina Kotscho) tenha optado por essa abordagem experimental depois de ter adquirido fama e prestígio no policial político de grande público (Cidade de Deus, Tropa de elite). É como se ele quisesse se libertar dos códigos e limitações do cinema narrativo convencional e buscasse uma via mais autoral, chamando para isso um diretor de marcado talento e ousadia, Daniel Augusto, que também devia estar ansioso por voos mais altos depois de realizar ótimos documentários e séries documentais de TV e, sob encomenda, a cinebiografia de Paulo Coelho (Não pare na pista).

Tanto anseio por ruptura e libertação se reflete na profusão de procedimentos experimentais narrativos, estéticos e tecnológicos. A extrema descontinuidade, correspondendo ao deslocamento dos planos de percepção do real citados acima, resulta numa extrema heterogeneidade de texturas, a começar do tratamento cambiante da luz e da cor (atestando o virtuosismo do diretor de fotografia Jacob Solitrenick), passando pela manipulação expressionista do som, da velocidade da imagem, dos efeitos eletrônicos, tudo potencializado por uma montagem frenética, caleidoscópica.

 

Opção pelo excesso

A opção pelo excesso tem seu lado estimulante, mas também abre flancos para a confusão, para as inconsistências, para o perigo de um vale-tudo aleatório. Corre-se o risco de perder no meio do caminho a atenção do espectador, saturado e anestesiado por tantas mudanças de registro, por tantas viradas de jogo, por tantos efeitos visuais e sonoros espetaculares. Em vários momentos, começamos a desconfiar de um “efeitismo” arbitrário e vazio.

Falou-se já de uma filiação de Albatroz ao universo cinematográfico altamente sensorial de David Lynch. De fato, a aproximação é evidente. Mas há que lembrar que, mesmo nos filmes mais delirantes de Lynch (A estrada perdida, Cidade dos sonhos, Império dos sonhos, Twin Peaks), há momentos de abordagem ilusoriamente “realista”, de constituição de um terreno aparentemente seguro que será depois subvertido. Desse modo, o espectador tem como se envolver emocionalmente, sendo depois arrastado pelo turbilhão da fantasia lynchiana.

Em Albatroz, ao contrário, o terreno é movediço o tempo todo, o que tende a manter o espectador numa situação de distanciamento, de admiração exterior. Uma sucessão de clímaces (dramáticos, visuais, auditivos) em geral produz o efeito contrário, de anestesia, quando não de fastio, do espectador.

 

Delírio e racionalidade

Outro aspecto que distancia Albatroz do cinema de Lynch é sua tentativa de “explicar” aqui e ali a transição entre os planos de percepção. Os minutos iniciais, que falam de um protozoário que enlouquece os ratos e os torna presas fáceis dos gatos, que ao comê-los perpetuam o ciclo, chegam a lembrar os primeiros filmes de Jorge Furtado, com seu approach de falso documentário. Há, nisso, uma proximidade menos óbvia de Albatroz com Alain Resnais (sobretudo o de Meu tio da América), cuja fantasia parece sempre ordenada por uma racionalidade quase cartesiana.

Só por suscitar esse tipo de paralelo crítico, Albatroz já mostra que não veio à luz para passar batido. A despeito de seus eventuais excessos e inconsistências, é uma bela obra de imaginação e ousadia, que ajuda a oxigenar nosso cinema hoje tão ameaçado de estrangulamento.

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