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A poesia das pequenas coisas

16 de janeiro de 2019

A expressão “cinema dos afetos”, que virou quase um clichê da crítica nos últimos anos, ganha pleno sentido diante de um filme como Temporada, de André Novais Oliveira, vencedor do último festival de Brasília e do júri popular do festival de Locarno. Temos ali um cinema em que conta menos o “tema”, ou mesmo o enredo, do que as relações dos personagens entre si e com o meio em que vivem.

Não que não haja uma história, um arco ficcional. Acompanhamos em Temporada um período da vida de Juliana (Grace Passô), que chega a Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, para trabalhar como agente de controle de endemias. A dengue está correndo solta e é preciso combatê-la.

Sedimentação do tempo

Mas essa história não é narrada à maneira clássica, que implicaria submeter tudo (o entorno, os personagens secundários, os tempos mortos) à trajetória dramática da protagonista. Em vez dessa manipulação unidirecional do tempo, temos uma narrativa que se constrói na paciência, na sedimentação de cada momento, explorado em sua especificidade.

Ao mesmo tempo em que seguimos a tentativa de Juliana de se adaptar à nova cidade, aprendendo seu trabalho, montando sua casinha e esperando o marido que ficou de juntar-se a ela em breve, observamos (e absorvemos) também a paisagem dos bairros periféricos de Contagem, com suas ladeiras, suas ruas mal calçadas, seus emaranhados de fios de eletricidade, e as pequenas histórias de inúmeros personagens: os colegas de trabalho de Juliana, os moradores das casas esquadrinhadas pelos agentes.

É no foco e na duração desse olhar que André Novais constrói sua poética. Recusando a sofreguidão do campo/contracampo que condensa o tempo e nos induz a uma leitura unívoca dos fatos da vida, seus planos se demoram na exposição desses fatos, por assim dizer “em estado bruto”, sobretudo dos aparentemente mais insignificantes. O ofício da protagonista e de seus colegas propicia isso: eles investigam os quintais recônditos, os terrenos mal cuidados onde se acumulam trastes velhos, pneus furados, brinquedos quebrados, cacos de vasos.

Há um paralelo evidente entre esses objetos descartados, esses cantos esquecidos, e as vidas dos personagens que vemos construir-se à nossa frente. O entrelaçamento entre seus dramas pessoais, seu trabalho e seu meio geográfico é de tal modo natural, orgânico, que seria impossível separar uma coisa da outra.

Não é um filme de “denúncia”, embora toda a brutalidade de uma sociedade injusta transpareça a cada cena. Temas como o racismo, a opressão social e o desprezo ao meio ambiente aparecem de maneira ao mesmo tempo sutil e contundente.

Um exemplo: depois de mostrar fotos do filho no celular aos colegas, a chefe dos agentes, Lúcia (Rejane Faria), que é negra, explica: “É que o pai dele é branco”. Em seguida, conta o constrangimento que sofreu numa festa, em que os amigos do então marido diziam a ele: “Você podia ter escolhido qualquer uma dessas gatas do salão, em vez dela”. A palavra “racismo” não é pronunciada nem uma vez. Nem precisava.

Drible na adversidade

Mas o interesse maior do diretor parece ser o de mostrar aquilo que resiste e sobrevive à desumanização e à violência circundantes. Seu olhar mais atento é para a sagacidade e a coragem com que cada um “se vira”, dá a volta por cima, criando uma rede de solidariedade e afeto. Essa disposição para driblar as adversidades se evidencia nas pequenas coisas. Numa cena, enquanto desencaixota suas coisas no quintalzinho da casa nova, Juliana ouve música no celular. O som sai fraco e distorcido. Ela coloca o aparelho dentro de uma lata, que se torna um amplificador improvisado. Para o espectador, é uma pequena epifania.

Essa atenção ao miúdo, ao cotidiano, essa valorização dos pequenos gestos não é algo muito comum no cinema brasileiro. Ao lado disso, uma percepção muito fina e serena da passagem do tempo, do caráter transitório de tudo o que há sobre a terra, aproxima o filme de André Novais da poesia de Manuel Bandeira, da literatura de Tchekhov e (por mais extravagante que possa parecer a conexão) do cinema de Ozu, cujos pillow shots (planos de transição) de paisagens suburbanas têm seu paralelo em enquadramentos semelhantes de Temporada. Em todos esses artistas tão afastados geográfica e temporalmente uns dos outros há uma poesia pungente do tempo que passa, da grandeza infinita de todos os seres e de todas as coisas.

O “lirismo objetivo”, com perdão do paradoxo, de André Novais tem um momento sublime na cena em que Juliana, em seu trabalho de agente de saúde, entra na modesta casa de uma senhora (Maria José Novais Oliveira, mãe do diretor) e esta a acolhe com uma afetividade transbordante, materializada em um cafezinho e um bolinho de fubá com queijo. Juliana tenta recusar polidamente, mas a senhorinha insiste: “Cê acordou cedo, trabalhou nesse sol forte, agora vai descansar aqui e comer o meu bolim.” A intensidade humana dessa cena é extraordinária.

Salto ficcional

Com Temporada, enfim, o cinema de André Novais se descola um pouco mais do forte viés autobiográfico e documental que marcou seus filmes anteriores (o longa Ela volta na quinta e os curtas Pouco mais de um mês e Quintal) e se aproxima da ficção plena, ainda que mantendo um pé na experiência pessoal: como seus personagens, o diretor trabalhou um tempo como agente de endemias em Contagem, sua cidade.

Para dar esse salto, contou com um excelente corpo de atores, a começar pela magnífica Grace Passô, com destaque também para o carismático cantor de rap Russo Apr, no papel de Russão. Ambos, aliás, foram premiados em Brasília, respectivamente como atriz e ator coadjuvante. Temporada levou ainda os Candangos de melhor filme, direção de arte (Diogo Hayashi) e fotografia (Wilssa Esser). Grace Passô levou também o prêmio de atriz em Torino.

Num ano que se anuncia duro para o cinema brasileiro, já temos ao menos um grande filme.

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