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Cinema de sombras

10 de janeiro de 2019

Orson Welles é inesgotável. Depois do aparecimento quase miraculoso de O outro lado do vento, rodado nos anos 1970 e só concluído postumamente no ano passado, agora é a vez do ressurgimento de outra preciosidade pouco vista da fulgurante filmografia do diretor: História imortal (1968), que os cinéfilos de São Paulo e do Rio poderão ver este mês, em cópia restaurada, na Sessão Mutual Films do IMS de janeiro. Completa a programação o belo Berenice (1983), de Raúl Ruiz, do qual falaremos mais adiante.

História imortal surgiu de um convite da televisão francesa para um telefilme a ser estrelado por Jeanne Moreau. Welles viu na ocasião a chance de trabalhar de novo com uma das atrizes que mais admirava (e que dirigira em O processo), e ao mesmo tempo levar às telas um conto de uma de suas escritoras favoritas, a dinamarquesa Isak Dinesen (pseudônimo de Karen Blixen).

Trailer espanhol de História imortal

Tratava-se de uma história ambientada em Macau, na China, em meados do século 19. Um velho rico e inescrupuloso, o sr. Clay (no filme, o próprio Welles), que tinha levado seu ex-sócio à bancarrota e ao suicídio, passa seus últimos dias solitário e entediado, até que se lembra de uma história ouvida na juventude, de um marinheiro contratado para engravidar a mulher de um homem abastado e sem filhos.

Narrador como demiurgo

Clay resolve então tornar real essa velha história, provavelmente inventada. Contrata uma moça, Virginie (Jeanne Moreau), e um jovem marinheiro encontrado na rua (Norman Eshley) para viver esse enredo por uma noite. Para complicar, Virginie vem a ser filha do ex-sócio aniquilado por Clay, e deseja vingança.

A situação é um prato cheio para Orson Welles abordar alguns de seus temas mais caros: a ficção moldando o real; o artista – ou o manipulador, no caso – como demiurgo; o descompasso entre os projetos (ou profecias) e a realidade vivida.

A intenção expressa de Clay, de usar os dois jovens como marionetes de seu teatro particular, encontra como limite a materialidade dos corpos e a força do desejo de Virginie e do marinheiro. No entrechoque entre eles, cada um com sua trajetória de vida, com suas pulsões, carências e cicatrizes, brota um instante imprevisto de amor – algo inconcebível na visão de mundo pragmática e utilitária de Clay.

Primeiro filme em cores de Welles, História imortal prescinde dos recursos estéticos mais exuberantes do diretor (suas dramáticas contre-plongées, sua utilização expressionista das sombras e da contraluz), contendo-se numa decupagem mais límpida e clássica, ainda que rica em invenção visual e generosa na composição dos planos. O jogo cromático é de uma beleza extraordinária, que casa à perfeição com a música delicada de Erik Satie. Há um contraste evidente entre o mundo sombrio e opressivo do velho solitário e a luminosidade dos corpos de Virginie e do marinheiro, com sua sensualidade pulsante.

História imortal, em suma, só pode ser qualificado de “um Welles menor” por sua curta duração (uma hora). Pois toda a grandeza estética e humana do cineasta está contida ali.

Berenice

O filme de Raúl Ruiz que completa o programa da Sessão Mutual tem vários pontos de contato com o de Orson Welles, cineasta que o influenciou profundamente. Também se origina de uma obra literária (a tragédia homônima de Racine, encenada pela primeira vez em 1670), também foi fruto de uma encomenda: o festival de teatro de Avignon pediu ao diretor chileno radicado na França que adaptasse alguma obra do dramaturgo francês. Por último, mas não menos importante, Berenice também trabalha na fronteira entre o imaginário e o real, a luz e a sombra, os corpos vivos e os fantasmas.

Ruiz disse ter escolhido Berenice por ser uma das poucas peças de Racine que não terminam com mortes violentas. É a tragédia do amor infeliz entre o comandante militar romano Tito (Jean-Bernard Gillard) e a rainha da Palestina Berenice (Anne Álvaro). Ao ser coroado imperador depois da morte de seu pai, Tito precisa renunciar ao romance com a estrangeira (e portanto bárbara).

É o velho conflito entra a razão de estado e as paixões pessoais, presente também em Antígona, Ifigênia, Antônio e Cleópatra e tantas outras tragédias. No texto de Racine, a situação assume a forma de um estudo poético da separação, do abandono, da renúncia. Foi esse tom, mais elegíaco do que épico, que Ruiz acentuou em sua recriação.

Rodado em 16 milímetros, em preto e branco, com poucos atores e uma única locação – uma mansão rural abandonada –, o filme é, literalmente, um teatro de sombras, para não dizer de assombrações. Boa parte do tempo, são as sombras dos atores que proferem as magníficas palavras de Racine. Há um constante descompasso entre a fala e o corpo que a emite.

O efeito desse procedimento é a instauração de um mundo de fantasmas, onde tempos, vozes e personagens se sobrepõem e se embaralham. No prefácio da primeira edição de Berenice, Racine expressa sua intenção de “fazer alguma coisa a partir de nada”, “criar no espectador essa tristeza majestosa que faz todo o prazer da tragédia”. Ou seja, de um entrecho mínimo produzir o máximo de intensidade estética. É exatamente isso o que faz Ruiz em seu filme. A partir do fato histórico Racine ergueu uma música das palavras, seu ofício. Ruiz, por sua vez, encontrou sua própria música, a música da luz, para usar a célebre definição de cinema de Abel Gance.


José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Publicou, entre outros, André BretonBrasil: Anos 60 e Futebol brasileiro hoje, e participou com artigos e ensaios dos livros O cinema dos anos 80Folha conta 100 anos de cinema Os filmes que sonhamos. Veja textos da coluna semanal sobre cinema que assinou no Blog do IMS entre setembro de 2011 e dezembro de 2018.

 

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