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A terceira margem

11 de abril de 2019

Los silencios está em cartaz em abril nos cinemas do IMS Paulista e IMS Rio.

 

Los silencios, segundo longa-metragem de Beatriz Seigner, é ambientado numa ilha fluvial na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, e que não pertence a nenhum desses três países. É, portanto, um não-lugar, ou um entre-lugar, que existe de verdade e tem o poético e inverossímil nome de “Ilha da Fantasia”. 

         Ali, nesse pedaço de terra que fica praticamente submerso durante quatro meses do ano, vai parar a refugiada colombiana Amparo (Marleyda Soto) com seus dois filhos pequenos, Nuria (Maria Paula Tabares Peña) e Fabio (Adolfo Savilvino), enquanto espera notícias do marido (Enrique Diaz) desaparecido na guerra civil de seu país.

Fronteiras líquidas

         A ideia de fronteira, de local de passagem, perpassa todo o filme, desdobrando-se da denotação meramente geográfica para a conotação de limbo ou portal. Entre a terra e a água, entre o dia e a noite, e sobretudo entre os vivos e os mortos, transitarão esses poucos e inesquecíveis personagens. Cabe lembrar que, em inúmeras mitologias, um rio é o que separa a vida terrena do “lado de lá”. E poderíamos pensar também no extraordinário conto “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa.

         Com uma segurança e uma sensibilidade notáveis, Beatriz Seigner parte de um realismo estritamente descritivo (os trâmites legais na fronteira, a confecção do uniforme escolar de Fabio, as construções em palafitas, as entranhas de uma peixaria) para construir um universo ficcional único, limítrofe com o fantástico.

         Há, antes de tudo, o aproveitamento estético e dramático das condições geográficas e atmosféricas: as passarelas de tábuas que ligam as construções, formando uma estranha geometria quando o rio está baixo, as águas onipresentes, os barcos que transformam o lugarejo numa espécie de paródia selvática de Veneza.

         O filme começa e termina na água, nos barcos, à noite. Na chegada da família ao local já se anunciam alguns procedimentos visuais que revelarão toda a sua força na esplendorosa cerimônia da sequência final: a iluminação de pontos isolados do quadro com lanternas de mão, as cores fosforescentes furando o negror da noite.

         Nada disso nos prenderia a atenção nem nos comoveria se não fosse a intensa humanidade dos personagens e dos dramas contemporâneos que eles vivenciam: a violência política, o desamparo material, o desterro, a luta da mulher por sua emancipação. A relação que se estabelece entre Amparo e Fabio é tão veraz que custa crer que não são mãe e filho na “vida real”. E isso se dá não apenas pelo talento dos atores, mas também por detalhes de diálogo e encenação, como por exemplo na caminhada noturna dos dois de volta para casa, em que Amparo, com uma afetuosa severidade, toma do filho a tabuada da multiplicação.

Palavra e silêncio

         No equilíbrio delicado entre palavra e silêncio, há talvez um único momento em que o diálogo “sobra” um pouco, explicitando de modo desnecessário os acontecimentos anteriores à chegada da família à ilha: é na conversa entre Amparo e o marido na cozinha, quase uma lavagem de roupa suja do casal. No mais, o filme tem um andamento sutil e fluente, compassado pelo som das águas do rio.

         Falou-se com razão da influência do cinema asiático, e a própria diretora mencionou a proximidade com o tailandês Apichatpong Weerasethakul, o filipino Brillante Mendoza e o malaio Tsai Ming-liang, sobretudo pela relação com as águas, no caso dos dois últimos, e pelo “misticismo telúrico” do primeiro. Poderíamos mencionar também uma certa tradição japonesa de convívio entre vivos e mortos que remonta ao Mizoguchi de Contos da lua vaga e vem até o Kiyoshi Kurosawa de Para o outro lado.

         Todas essas referências são lícitas e podem ajudar a situar o filme para o espectador estrangeiro, mas não há como negar seu caráter profundamente latino-americano, no sentido quase etimológico: uma confluência da sensibilidade latina, europeia, com a potência cultural ameríndia. É um filme singular, arrisco dizer que um dos mais belos do ano.

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