No Festival de Cannes do ano passado, eu ouvi de um amigo iraniano que há duas maneiras de olhar para um filme feito no Irã hoje. Essa observação foi feita há pouco mais de um ano, antes da guerra que ainda está em curso e antes do período intenso de repressão que resultou na morte de milhares de iranianos no final do ano passado. Segundo o amigo, as duas maneiras de ver um filme iraniano hoje estão codificadas num detalhe de vestimenta: “Há o tipo de filme iraniano em que as mulheres cobrem a cabeça com o hijab e há o tipo de filme iraniano em que elas não usam o hijab”. Segundo ele, isso definiria a visão de mundo de um filme no seu país, o ponto de vista político já na cena.
Ao ouvir a observação sobre filmes iranianos, lembrei do enigma constante que é observar um país por meio do seu Cinema. Os dez anos que se passaram desde a morte de Abbas Kiarostami em 2016 são reveladores, em muitas camadas, sobre o Irã, sobre o Cinema e sobre o mundo.
Essa oportunidade de poder revisar e descobrir a extraordinária herança deixada por Kiarostami é um acontecimento. São cópias restauradas, projetadas no Cinema do IMS, que poderão apresentar a toda uma nova geração a visão poética, crítica e singular de um país cuja imagem geopolítica é diariamente apresentada na grande mídia pelos Estados Unidos e por Israel como a de um inimigo a ser vencido com violência, a de uma nação terrorista. Para conhecer melhor um país, veja o Cinema feito lá.
Creio que, para os mais velhos, que já tiveram algum contato com os filmes de Kiarostami, essa retrospectiva apresenta também um momento de enorme clareza para podermos olhar o cinema moderno como a união do fim do século passado com o início do novo século.
Nascido em 1940, Abbas Kiarostami, tenho essa impressão muito clara, ocupa um espaço justo ao lado de Jean-Luc Godard numa contribuição ao Cinema como escrita de imagem. Há conexão constante e natural com momentos históricos, reflexos de suas realidades por meio do cinema como ferramenta de trabalho e ideias. Vejo também neles o cinema como ponte de documentação entre o século 20 e o 21, e nisso Godard me faz pensar em Kiarostami, e Kiarostami em Godard.

A título de comparação (e digressão), sempre me chamou a atenção como a morte de Stanley Kubrick em 1999 – aos 70 anos – encerrou uma obra escrita pela câmera que pertence essencialmente ao século 20, e afirmo isso sem juízo de valor e com grande interesse. A câmera de Kubrick é a câmera do século 20, e seu último filme, De olhos bem fechados (Eyes Wide Shut, 1999) demonstra isso até mesmo na sugestão de que sua lente estaria fechando. No mesmo ano de 1999, Kiarostami lançava O vento nos levará.
Acompanhar o Cinema de Kiarostami a partir de seus primeiros curtas-metragens em 1970 e vê-lo registrar a sua sociedade no antes e no depois da Revolução Islâmica de 1979, vê-lo filmar campo e cidade com um sentido inescapável de lugar e de espaço são elementos de grande riqueza ao vermos esses filmes em conjunto.
Observe o uso do hijab nas mulheres em filmes feitos antes da Revolução, como A experiência (1973). Algumas mulheres usam, outras não. Na realidade contemporânea de maior enfrentamento com o regime, uma década após a morte de Kiarostami, o filme de Jafar Panahi Foi apenas um acidente (2025) oferece uma imagem de uso livre, ou opcional, do hijab. É um filme que codifica um posicionamento político numa fase recente mais dura de opressão. Menciono isso para fins de contextualização, num momento em que o cinema iraniano continua oferecendo janelas ousadas para a observação do Irã como nação e cultura.
Seguir a trajetória de longas-metragens e saber que Kiarostami alcançou reconhecimento internacional (e uma Palma de Ouro) nos anos 1990, quando o Cinema completou 100 anos, me parece simbólico.
Como Godard, Kiarostami assimilou novos meios técnicos com grande naturalidade, passou ao largo de um purismo cinematográfico, da dependência química do filme película laboratorial. Kiarostami ressignificou o Cinema sempre numa movimentação de seguir em frente, com um estilo marcante de escrita à mão, em ótico ou em digital.
Tenho curiosidade de entender mais o impacto que um órgão público chamado Kanoon (Centro para o Desenvolvimento Intelectual Infantil e de Adolescentes) teve na sociedade iraniana. Kiarostami começou a fazer filmes educativos nessa agência do governo (segundo informações colhidas, o Kanoon ainda existe), como seus curtas Dor de dente, As cores e o já citado A experiência. Numa entrevista recente que fiz com Jafar Panahi, ele apontou para o Kanoon – incubado em bibliotecas públicas espalhadas no Irã – como seu primeiro contato com filmes experimentais e também seu primeiro contato, ainda adolescente nos anos 1970, com experiências de atuação e fotografia. Foi também um jovem Panahi que deixou mensagem na secretária eletrônica de Kiarostami pedindo uma oportunidade de trabalho no filme que viria a ser Através das oliveiras (1994). Trabalhou como assistente.
Ao lembrar de Através das oliveiras, E a vida continua ou Cópia fiel, é evidente que esses filmes surgiram de uma construção que uma retrospectiva apresentada em sala de cinema oferece a rara oportunidade de ver se formar, sessão a sessão. O Cinema de Kiarostami pode ser descoberto com o prazer de uma cinefilia que é renovada a cada filme de curta ou longa-metragem, como também nos revela uma contribuição extraordinária à nossa relação com as imagens de Cinema e com a nossa capacidade de abrir janelas para o Irã, o país, sua cultura política opressora e de natureza fechada no regime.
Observo que uma ideia tão forte de “Cinema Iraniano” ecoa no mundo a partir de uma fração pequena do sistema de distribuição de cinema, em grande parte a partir da França na Europa. Essa retrospectiva, por exemplo, não aconteceria sem a mk2, a distribuidora fundada por Marin Karmitz, que ano passado deu voz a Panahi e representou o seu filme Foi apenas um acidente no mundo.
No Brasil, a noção herdada de cinema iraniano, que eclodiu com muita força nos anos 1990, foi impulsionada pelos filmes de Kiarostami, de Mohsen Makhmalbaf e sua filha, Samira Makhmalbaf, de Jafar Panahi e Bahman Ghobadi. Esses filmes chegaram ao Brasil graças ao trabalho de Leon Cakoff na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ele conseguiu ainda distribuir comercialmente esses filmes nos cinemas brasileiros via distribuidora Filmes da Mostra, e, mais tarde, com a Mais Filmes, em parceria com Adhemar Oliveira. Pensar nessa onda de filmes fotografados na realidade do Irã e que contradizem, com delicadeza, o military-industrial complex com a ironia evidente de que praticamente nenhum dos filmes envolve atos explícitos de violência ou de ação militar em seus enredos.
O Cinema Iraniano e a percepção desse grupo de filmes pelos autores iranianos é uma das maiores negações do discurso político de guerra que eu já senti. Críticos ao próprio regime e sempre humanos na sua sabedoria, a herança valiosa deixada por Abbas Kiarostami é uma enorme fonte de sabedoria e cultura histórica.
PS: Um pensamento da artista franco-iraniana Marjane Satrapi, falecida precocemente em junho deste ano, aos 56 anos: “Se tenho uma mensagem para o povo americano é a de que o mundo não é dividido por países. Vocês são americanos, eu, iraniana, não nos conhecemos, mas conversamos e nos entendemos perfeitamente. A diferença entre você e seu governo é maior do que a diferença entre você e eu. E a diferença entre o meu governo e eu é maior do que a diferença entre mim e você. E nossos governos são quase a mesma coisa”.
