A mostra Abbas Kiarostami em retrospectiva está em cartaz no cinema do IMS Paulista até dezembro.
O engajamento de um cineasta em querer mudar a vida cotidiana só é possível pela cumplicidade com o espectador. – Abbas Kiarostami
Se estivesse vivo, Abbas Kiarostami completaria 86 anos em 2026. Falecido há exatos dez anos, o cineasta provavelmente estaria devastado com o que está acontecendo na sua terra natal. Infelizmente, este ano marcou o retorno do Irã ao noticiário ocidental depois dos ataques coordenados de Israel e dos Estados Unidos, que bombardearam uma série de cidades do país. Nos primeiros ataques, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026) foi assassinado e, simultaneamente, um ataque norte-americano destruiu uma escola em Minab (cidade no sul do país), onde mais de 150 civis foram mortos, incluindo ao menos 120 crianças (meninas com menos de 12 anos de idade em sua maioria). Segundo o relato de um jornalista independente iraniano, Mansur Jahani, a casa de Kiarostami também foi atingida pelos bombardeios em Teerã.
Mas por que começar um texto sobre um dos cineastas mais importantes do século 20 falando dessa bárbara invasão? Porque, a meu ver, o cinema de Kiarostami é um antídoto poderoso aos horrores da guerra e uma prova cabal da bela resiliência do povo iraniano. Seus filmes são fundados em histórias de pessoas comuns, geralmente interpretados por atores ocasionais, e que possuem uma relação muito particular com a paisagem e o espaço que os cerca. A mostra de Abbas Kiarostami realizada pelo Instituto Moreira Salles exibe cerca de 29 filmes, dentre os quais seus primeiros curtas-metragens, realizados no seio do Kanoon (Instituto para o Desenvolvimento Intelectual de Jovens e Adultos), e todos os seus longas, com exceção de Dez (2002). A autoria desse filme é reivindicada pela cineasta iraniana Mania Akbari, que alega ter sido a responsável pelo argumento e por filmar a situação das mulheres em dez conversas realizadas durante curtas viagens de carro em Teerã.
O crítico Godfrey Cheshire, um de seus maiores intérpretes ocidentais, comenta que, se precisássemos reduzir Kiarostami a uma única ideia, não estaríamos errados em dizer que ele passou sua carreira desenvolvendo um equivalente cinematográfico da poesia modernista iraniana. Vale lembrar que filmes como Onde fica a casa do meu amigo? (1986) e O vento nos levará (1998) extraem seus títulos de poemas de Sohrab Sepehri e Forugh Farrokhzad. O próprio Kiarostami era poeta, além de fotógrafo e pintor. Para a geração do cineasta, a poesia ainda era uma das forças a impulsionar a renovação intelectual do país e até mesmo uma arma poderosa e simbólica contra a ditadura do xá.
Ex-ilustrador publicitário, nascido em 1940, Kiarostami tornou-se cineasta após ser convidado, em 1969, para estabelecer uma unidade cinematográfica na Kanoon. Entre 1970 e 1992, realizou praticamente todos os seus 19 filmes para essa organização. A única exceção foi seu primeiro longa-metragem, O relatório (1977). Essa temporada na Kanoon foi imprescindível para o cineasta desenvolver seu método de filmar com pessoas comuns, em sua maioria crianças, que não obedeciam a um roteiro escrito. A distância cultural entre nós e a cultura persa faz com que muitos significados de seus filmes se percam ou se tornem ilegíveis, mas o cinema de Kiarostami está longe de ser impenetrável. Seus filmes não são objetos fechados em si mesmos, mas estão fundados em um pacto com cada espectador. Para Kiarostami, entre o mundo ideal e fabricado do artista e aquele de seu interlocutor, há um vínculo sólido e permanente. A arte permite ao indivíduo criar sua verdade segundo seus desejos e seus critérios.

O fazer cinematográfico de Kiarostami pressupõe uma imersão prévia na escolha da paisagem e dos personagens, elementos que reconfiguram o projeto inicial. Seus filmes convergem na investigação de como os protagonistas interagem com uma realidade opaca e misteriosa; o deslocamento geográfico e a vivência do espaço assumem, assim, um peso igual ou superior à evolução psicológica do enredo. Desse modo, o sujeito é frequentemente confrontado com territórios e populações com as quais estabelece uma relação de alteridade profunda, marcada pela ilegibilidade e pelo sentimento de ser estrangeiro.
Mas por onde começar? Concordo com outros intérpretes do cineasta: a ordem em que você assiste aos filmes é fundamental para melhor compreendê-los. E, por isso, se puder, não perca a Trilogia de Koker. Quando começou a filmar Onde fica a casa do meu amigo?, Kiarostami não previa que produziria uma trilogia que abarca, na sequência, E a vida continua… (1992) e Através das oliveiras (1994). O mote surgiu com um imprevisto, um tremor de terra devastador cujo epicentro ocorreu na região de Gilan, onde Kiarostami acabara de filmar Onde fica a casa. O segundo filme conta como o cineasta viaja para essa região, imediatamente após a catástrofe, em busca de crianças que figuravam no seu filme anterior. O terceiro retrata um episódio particular das gravações de E a vida continua...: um adolescente que tinha um papel pequeno é convidado para fazer uma ficção ao lado da jovem por quem está apaixonado na vida real e com quem não pode se relacionar por conta de impedimentos culturais.
Kiarostami busca alcançar a verdade da vida através do cinema, distanciando-se, contudo, da estética daquele que foi chamado de cinema direto, ou de documentários que tentam flagrar o cotidiano como se fizessem um documentário para a TV. Em vez de lançar a câmera em uma busca imediatista pelo "acontecimento", o cineasta opta por fixá-la de forma serena, convocando a realidade, as pessoas e as situações a se manifestarem. Seu interesse reside na realidade refratada em paisagens e indivíduos, cujas barreiras entre pessoa e personagem se dissolvem. Embora o cineasta tenha sido criticado, tanto dentro quanto fora do Irã, por evitar temas políticos. se comparado à Mohsen Makhmalbaf e a cineastas que foram presos e proibidos de filmar, como Jafar Panahi, pode-se argumentar, a seu favor, que seu modo de conjugar realidade e ficção, realismo e fantasia, pessoa e paisagem, obrigou cineastas, espectadores e críticos a rever antigos dualismos, e este não deixa de ser um gesto profundamente político.
Maria Chiaretti é pesquisadora e curadora, mestra em teoria e história do cinema pela Université Paris 8 Vincennes/Saint-Denis e doutora em meios e processos audiovisuais pela Universidade de São Paulo. Foi coorganizadora da retrospectiva e do catálogo Abbas Kiarostami: um filme, cem histórias (2016).
