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Duas estrelas francesas

12 de setembro de 2019

O sucesso internacional do cinema francês desde sempre se escorou, em grande parte, num punhado de atrizes esplêndidas. Duas delas – Catherine Deneuve e Juliette Binoche – estão presentes nas telas brasileiras em quatro filmes: a primeira em A última loucura de Claire Darling e Adeus à noite; a segunda, em Vision e Quem você pensa que sou.

Falemos sobre os dois que estão entrando em cartaz esta semana, Adeus à noite, de André Téchiné, e Quem você pensa que sou, de Safy Nebbou.

O veterano Téchiné, retomando uma parceria com Deneuve que rendeu obras memoráveis como A cena do crime e Minha estação preferida, aborda aqui um tema literalmente inflamável: o recrutamento de jovens europeus para o Estado Islâmico. Mergulhar nesse assunto sem cair no esquematismo nem no sensacionalismo é a primeira grande façanha do filme.

A septuagenária Muriel (Catherine Deneuve), de origem argelina, vive tranquilamente em seu haras e escola de equitação no interior da França, onde recebe ocasionalmente a visita do neto Alex (Kacey Mottet Klein), rapaz que ela ajudou a criar, mas que nos últimos tempos se tornou um tanto distante e introspectivo. Ela descobre que ele se converteu ao islamismo e que pretende começar nova vida no exterior (supostamente no Canadá).

 

Falhas de conduta

As relações complexas e cambiantes entre esses dois seres ao mesmo tempo íntimos e estranhos um ao outro permearão a narrativa, tornando críveis suas hesitações e reviravoltas. O olhar de Téchiné subordina o enredo aos personagens, e não o contrário. Eles não estão lá para cumprir um esquema preconcebido de ações e atitudes. Pelo contrário: em sua complexidade, parecem escapar por frestas imprevistas. Sua humanidade está, por assim dizer, em suas falhas, e o resultado final, como em outros filmes do diretor, é uma aguda percepção da condição instável da conduta humana, aqui e ali confrontada com a existência animal (os cavalos, os javalis).

Nesse contexto generosamente humanista, desprovido de julgamentos morais ou políticos, tão importante quanto a trama (que envolve fanatismo religioso, terrorismo, traição e culpa) é a fisionomia compenetrada de Alex, em que se misturam o rancor, a confusão e o medo. O personagem improvável com quem esse rapaz extraviado mais dialoga, por cima das décadas e dos contextos históricos, é talvez o impenetrável Lacombe Lucien do filme homônimo de Louis Malle.

Diante dessa juventude ameaçada e ameaçadora, impõe-se a amargura infinita do olhar de Muriel, isto é, de Catherine Deneuve, que parece trazer em si tudo o que viu do mundo no último meio século, em ficções de Polanski, Buñuel, Truffaut, Demy, Monicelli, Aldrich, Varda, Manoel de Oliveira, Von Trier e, claro, Téchiné. Esse olhar vale o filme, e o resume.

 

Quem você pensa que sou

O filme de Safy Nebbou, baseado em romance de Camille Laurens, também trata de um tema muito atual, embora não propriamente novo na literatura e no cinema: os relacionamentos amorosos virtuais, via internet. É possível vê-lo em dois planos diferentes. Vamos a eles.

Por um lado, a história da cinquentona Claire Millaud (Juliette Binoche), que expõe a uma psicanalista suas desventuras amorosas, é um melodrama romântico bastante convencional, com todos os clichês narrativos e visuais que compõem o gênero, incluindo as calculadas viradas no famigerado “arco dramático”.

Nessa leitura, digamos, “direta”, o que vemos é uma mulher de meia-idade insegura com sua aparência e seu poder de sedução desde que o marido a trocou por uma rival mais jovem. Uma mulher que, como forma de autoafirmação, busca relacionamentos com rapazes que podiam ser seus filhos, mesmo que para isso tenha, numa situação-limite, que criar um perfil falso na internet.

Mas é possível ver o filme também como um comentário irônico dessa construção ficcional, ao sobrepor e embaralhar as camadas de encenação ou representação presentes tanto nos perfis de usuários de redes sociais como nas sessões de psicanálise e até mesmo nas atitudes do dia a dia. Há, em todas as situações, uma contínua construção de identidades, máscaras por trás de outras máscaras.

 

Jogo de espelhos

Esse jogo de espelhos deformantes, com sucessivas inversões e revelações, remete aos primeiros filmes de David Mamet, nos quais nunca se pode estar seguro quanto ao que é “verdade mesmo”.

Assim, e só assim, nessa chave da ironia, é que se pode desculpar a profusão de imagens-feitas (sexo “ardente” na contraluz, cavalgada de amantes no alto de uma falésia à beira-mar, previsível atropelamento de uma pessoa estupefata, fotografia limpidamente publicitária), que se mesclam aqui e ali com cenas inspiradas – a mais marcante delas a de uma personagem à beira de uma plataforma envidraçada de metrô, suspensa sobre a cidade.

O que garante o interesse do filme, nesse seu movimento para dentro e para fora dos clichês, é a presença sempre luminosa de Juliette Binoche.

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