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07 de maio de 2020

Entre as incertezas sobre o futuro do cinema no mundo pós-pandemia parece ganhar corpo uma convicção, ou pelo menos uma esperança: a volta dos cinemas drive-in. Reportagens recentes de jornais como The Guardian e The New York Times dão conta de um renascimento da atividade, não só nos Estados Unidos, mas também na Europa.

Na verdade, eles nunca deixaram de existir. De acordo com o Drive-in Movie Directory, atualizado diariamente, existem hoje 335 cinemas desse tipo em atividade nos EUA, além de quarenta no Canadá e treze na Austrália. Mesmo no Brasil parece haver espaço (em mais de um sentido) para o formato. Esta semana, de 4 a 7 de maio, um cine drive-in operou, em caráter mais ou menos experimental, no estacionamento externo de um shopping de Praia Grande (SP). Vai que a ideia pega.

Em seu apogeu, no final dos anos 1950 e início dos 60, havia mais de 4.000 cinemas desse tipo em funcionamento nos Estados Unidos, pátria do automóvel. Surgido em 1933 numa fazenda em Camden, Nova Jersey, o drive-in logo se espalhou, convertendo-se num signo central da cultura e do imaginário norte-americano, como mostra o interessante documentário Drive-in movie memories, realizado em 2001 por Kurt Kuenne e disponível na íntegra no Youtube (infelizmente sem legendas):

 

Cenário privilegiado

Por sua configuração espacial singular, pelas variadas possibilidades de interação humana em suas dependências, o drive-in serviu, ele próprio, de cenário para todo gênero de filme: comédia, drama romântico, musical, terror, policial, filme-catástrofe. No Brasil, um velho cinema desse tipo, em Brasília, é reativado para uma última e especialíssima sessão em O último cine drive-in (2015), de Iberê Carvalho, disponível na Netflix. [o trailer:

Em filmes americanos, eles frequentemente aparecem, nostalgicamente, como locais de iniciação sentimental e mesmo sexual de adolescentes. Em Grease (Randal Kleiser, 1978), por exemplo, é ali que o personagem de John Travolta tenta dar uns amassos na namorada (Olivia Newton-John) e é deixado sozinho no carro, dando início a uma das cenas musicais mais marcantes do filme.

Em Vidas sem rumo (1983), de Francis Coppola, um grupo de bad boys assedia duas garotas durante uma sessão. O grosseiro líder da turma (Matt Dillon) toma uma invertida de uma delas (Diane Lane) e causa desconforto em seus dois companheiros (C. Thomas Howell e Ralph Macchio).

Mais enxuta e intensa é a cena de Lolita (Stanley Kubrick, 1962) em que o professor Humbert (James Mason) está no carro entre a dona da pensão onde mora (Shelley Winters) e sua filha adolescente (Sue Lyon). Cada uma delas, assustada com o filme de horror exibido, aperta uma das pernas do homem. Toda a tensão erótico-dramática do triângulo está nesse balé de mãos sem diálogos.

 

Horror e violência

Mas em muitos casos o drive-in é palco de cenas de violência e terror. Em Christine, o carro assassino (John Carpenter, 1983), é num drive-in, numa noite de chuva, que o fantástico automóvel se rebela com requintes de sadismo contra a nova namorada (Alexandra Paul) de seu proprietário (Keith Gordon).

No disaster movie Twister (Jan de Bont, 1996), uma das cenas mais espetaculares é aquela em que o tornado chega a um drive-in em plena sessão, para o espanto de uma paralisada Helen Hunt.

E um cinema do tipo é o palco pós-apocalíptico de uma distopia australiana do tipo Mad Max. Trata-se de Dead end drive-in (Brian Trenchard-Smith, 1986).

Em outra produção australiana, A prova (Jocelyn Moorhouse, 1991), uma das passagens mais terríveis acontece num drive-in, quando o protagonista cego (Hugo Weaving), deixado momentaneamente sozinho no carro por seu guia (Russell Crowe), é atacado por um bando de homofóbicos agressivos que o tomam por gay.

 

Diálogo entre filmes

Um atrativo extra das cenas que se passam em drive-ins é o diálogo interno que estabelecem com os filmes exibidos. Em Vidas sem rumo, por exemplo, aparece na tela a comédia romântica Folias na praia (William Asher, 1965), justamente numa cena que conta com a participação de Buster Keaton – numa dupla homenagem de Coppola ao gênio do cinema mudo e às comédias românticas de verão estreladas por Frankie Avalon e Annette Funicello.

Em Twister, enquanto o tornado arranca telhados e joga automóveis de um lado para outro, vemos na tela uma cena chave de O iluminado (Kubrick, 1980), com Jack Nicholson de machado na mão, e o luminoso do Cine Galaxy anuncia ironicamente “Uma noite de horror”, com o programa duplo O iluminado e Psicose (Hitchcock, 1960).

Em Lolita, o filme exibido no drive-in é A maldição de Frankenstein (1957), de Terence Fisher, com Christopher Lee como a criatura. Em Na mira da morte (1968), longa-metragem de estreia de Peter Bogdanovich, veem-se trechos do desenho animado do Papa-léguas e do horror de baixo orçamento Sombras do terror (Roger Corman, 1963), estrelado por Boris Karloff, que atua também no próprio filme de Bogdanovich. Um autêntico jogo de espelhos.

Em tempo: no brasileiro O último cine drive-in vemos trechos dos filmes Central do Brasil (Walter Salles, 1998) e, coincidentemente, do citado Na mira da morte, de Bogdanovich. A rede de diálogos, homenagens e referências não tem fim. Na sala fechada ou ao ar livre, o cinema é uma conversa que não acaba.

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