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Mortos que caminham

30 de abril de 2020

Nestes tempos estranhos de carreatas da morte, aglomerações suicidas e manifestações pró-vírus, nada mais apropriado que um filme de zumbis. É o caso de Zombi child, de Bertrand Bonello, que acaba de chegar às plataformas de streaming (iTunes, Google Play, YouTube, Vivo Play e Now), já que seu lançamento nos cinemas foi cancelado por motivos óbvios.

Talvez não seja exatamente o que esperam os aficionados mais ortodoxos do gênero. Diretor original e inquieto, cujos temas e personagens vão de um bordel elegante de Paris (L’Apollonide) ao cinema erótico (O pornógrafo), de um gigante da alta costura (Saint Laurent) a uma transexual brasileira na periferia parisiense (Tirésia), Bonello opera em Zombi child uma curiosa alquimia de gêneros: romance adolescente, terror sobrenatural, estudo antropológico.

Começa no Haiti em 1962: numa sucessão de cenas breves, elípticas, um homem é induzido por substâncias psicoativas a um estado semelhante à morte. Vemos o sepultamento. Pouco depois, ele é trazido “de volta à vida” e transformado em escravo numa plantação de cana de açúcar. Essa parte da história, segundo o cineasta, foi baseada no incrível caso real de Clairvius Narcisse, haitiano “zumbificado” que se tornou objeto de estudo no século passado.

Corta para um colégio feminino de elite na França dos dias de hoje. Não é necessariamente elite financeira, mas uma espécie de elite moral e cívica: todas as alunas são filhas ou netas de alguém condecorado com a Legião de Honra. E a primeira aula que presenciamos, junto com as meninas de dezesseis ou dezessete anos, é justamente uma exaltação dos valores mais caros que a França representa no mundo: liberdade, igualdade, fraternidade, razão, revolução.

Irmandade secreta

Ganham o primeiro plano duas das meninas: Fanny (Louise Labeque), que passa suas horas suspirando pelo namorado distante, e Melissa (Wislanda Louimat), a única aluna negra da classe. Elas gostam das mesmas músicas, dos mesmos galãs, dos mesmos filmes de terror, e Fanny convida a amiga a fazer parte de sua irmandade secreta, depois de vencer a resistência das outras participantes, que julgam Melissa um tanto estranha. Melissa revela ao grupo que é órfã e vive com uma tia “mambo”, uma espécie de sacerdotisa da crença vodu haitiana.

Mas chega de contar a história. O que cabe destacar é a extrema habilidade de Bonello em aproximar e por fim entrelaçar os dois universos tão distantes no tempo e no espaço: o Haiti dos anos 1960 e a França de 2019. Não é só na biografia de Melissa que esses mundos se tocam, mas em terrenos mais sutis: nos rituais secretos, na busca de acesso ao espírito do outro (vivo ou morto) e, por fim, na crença no amor como força que transcende as barreiras materiais.

O estado do apaixonado (que costuma vir acompanhado dos advérbios “perdidamente”, “loucamente”, “desvairadamente”) muitas vezes se aproxima daquele do sonâmbulo, do hipnotizado, do zumbi. É essa analogia que Zombi child realça, ao entrelaçar o drama juvenil de Fanny à pungente história de amor de Clairvius Narcisse (Mackenson Bijou). Sim, porque, no fundo, trata-se de um filme de amor. Quem contaria?

Há outra conexão subterrânea sugerida por Bonello: a Revolução Francesa, conforme aprendemos na aula inicial do filme, deu ao mundo a ideia da razão como fundamento civilizatório. A revolução negra de independência do Haiti, ocorrida pouco depois, combinou o racionalismo iluminista e um poderoso misticismo trazido da África ocidental e configurado no vodu. Em Zombi child essas duas revoluções se entrechocam de forma desconcertante.

Para quem julgou exagerada ou descabida a analogia do primeiro parágrafo deste texto, sugiro que dê uma olhada neste vídeo, registrado em Brasília esta semana pelo fotógrafo Orlando Brito e postado no Facebook:

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