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Contingência petrificada em fatalidade

05 de agosto de 2019

Aopção ou As rosas da estrada (1981), de Ozualdo Candeias, é o filme de agosto da Sessão Cinética, com sessões no Rio e em São Paulo

 

Sempre que falamos em Ozualdo Candeias, é difícil não lamentar pelo lugar encoberto que o realizador ocupa na história do cinema brasileiro ou mesmo pela dificuldade em encontrar cópias dos seus filmes. O que urge, por outro lado, é que lamúrias e queixas parecem impróprias ao falar do cinema de alguém que enxerga seus personagens sem qualquer paternalismo ou transigência, e justamente desse gesto extrai força e sentido inesperados. Assistindo aos filmes de Candeias, fica a impressão de que ninguém melhor que ele soube incorporar formalmente a dinâmica social de um país em decomposição. Por meio da absorção desculpabilizada de elementos, que vão do cinema underground norte-americano até o Cinema Novo, unido ao impulso de representar as figuras humanas que redundam da putrefação do espaço social brasileiro, Ozualdo Candeias produziu um discurso que exprimiu a realidade do país na medida da sua incoerência.

Em Aopção ou As rosas da estrada (1981), Candeias retrata a migração de mulheres da zona rural para a cidade grande, percurso no qual se aventuram e se prostituem. Embora tomadas inicialmente como objetos sexuais em troca de dinheiro e carona, muitas vezes são elas que fogem e deixam os homens desamparados; outras vezes, pregam peças; ou mesmo recusam a relação sexual enquanto os homens jazem bestializados, reféns do próprio desejo, terminando numa deprimente masturbação solitária. Para além dessa força que sobressai da fragilidade oposta dos homens, as mulheres são bem caracterizadas em outras duas situações. Na primeira, ao filmá-las recebendo o salário injusto do proprietário, a montagem das suas expressões, olhares e posturas mostra que tomam consciência da exploração, e assim pegam a estrada para longe dali. Em seguida, a condição social enseja a criação de uma comunidade feminina ao longo das estradas, o que fica patente na maneira como se olham e se reconhecem, juntando-se na beira do rio para lavar roupa ou na beira da estrada para pegar carona.

À medida que o filme avança estrada afora, acompanhamos não apenas o acúmulo dramatúrgico de espaços, mas toda sorte de vivências populares que montam uma espécie de etnografia do Brasil profundo. Em meio aos postos de gasolina, borracharias, bordéis, churrascarias e igrejas na borda das pistas, as populações protagonizam desde casamentos até espetáculos circenses, deixando mensagens nas portas dos banheiros, que são as pegadas de quem trocou os pés pelos pneus. Em Aopção, a despeito da sujeira e da degradação, a fuga não é apenas um deixar as coisas para trás, pois também significa construí-las pelo caminho; o descaminho social é também um caminho, a questão é saber se ele leva a algum lugar ou permanece às voltas num circuito cerrado.

Cena de Aopção ou as rosas da estrada, de Ozualdo Candeias
Cena de Aopção ou as rosas da estrada, de Ozualdo Candeias

 

Filmado entre 1979 e 1981, o êxodo de Aopção está diretamente associado à industrialização ufanista do governo Geisel (1974-1979), sem esquecer da política de desapropriação de terras e as medidas de combate à inflação (arrocho salarial) inseridas no mesmo processo. Enquanto as estradas e o transporte de cargas seriam indícios do progresso esperado, a dureza material das personagens seria a contraparte necessária e aopcional do desenvolvimento capitalista predatório. Aquelas mulheres, portanto, são a matéria viva que rompem a representação grandiloquente que vincula governos militares e milagre econômico. 

Para representar o espaço das estradas para onde transbordam, Ozualdo Candeias desenvolve um ambiente caótico em que os seres se cruzam, desaparecem e reaparecem em seguida noutros pontos. O filme está mergulhado na turbulência dessa matéria em permanente circulação, no encalço dos personagens em entradas e saídas de campo, raccords fulminantes e violentos movimentos de câmera que dão a impressão de que o filme foi rodado num só fôlego. Há habilidade e desprendimento em fragmentar a narrativa e às vezes se demorar mais em um lugar ou personagem do que noutros, sem que seja possível elencar uma ordem de importância entre as partes, todas elas munidas de uma força de atração e repulsa que faz o filme ir e vir sem via de regras (mas nem por isso sem método). Nos momentos em que filme salta de um ponto da estrada para outro, não somos levados a perguntar pela ligação funcional entre os momentos, pois antes somos tragados e desnorteados pela sensação descontínua que provavelmente os personagens também sentem. Mais do que produzir uma unidade orgânica entre as partes, Candeias está interessado em extrair a tortuosidade subjetiva das personagens, ao mesmo passo que perscrutar as relações de choque entre os planos.

Assim como a literatura do êxodo (Graciliano Ramos e José Lins do Rego) representou a subjetividade quase física dos retirantes em frases curtas e secas, as imagens em preto e branco de Aopção, com negativos vencidos e levados ao limite, fazem o mesmo ao fornecer uma aridez às imagens. A eficácia da fotografia está justamente em assentar o mundo em sua fisionomia bruta, assim como Candeias faz com a subjetividade das personagens fustigadas pela pobreza, o analfabetismo e a fadiga dos trabalhos manuais, apresentando-as pela incomum combinação entre atuações pouco dramatizadas e diálogos rarefeitos – sem contar nem mesmo com acompanhamento musical (como aconteceu em seu famoso A margem) –, que reforça como a profundidade das personagens lhes foi corroída. Uma vez que não há virtudes heroicas anteriores que a estrada cumpriu depravar (segundo o arco dramático típico de outros road movies), os personagens estão em um circuito fechado, onde qualquer contingência rapidamente se converte em fatalidade.

Mesmo quando chegam na cidade, as mulheres estão, ainda assim, situadas numa outra margem, constituída por exploração e jornais sedentos por episódios violentos, e lá elas pulam de um emprego para outro, retornam para as estradas ou sucumbem à violência que acreditávamos superada, já que “venceram” o longo percurso das estradas. Na verdade, a realidade social brasileira exige que a identificação da cidade com o sonho de cidadania, do fim do trajeto com a expectativa de repouso ou da estrada com a liberdade individual seja escamoteada pela dessemelhança com o universo retratado. Em meio à decomposição acelerada do social, não há nada que relativize a lei do movimento. Para além da acusação de niilismo da parte de quem teme enxergar o fundo do poço, a força do cinema de Candeias está em fornecer filmes à altura desse movimento em perpétua imobilidade.

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