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A hora e a vez de Bacurau

29 de agosto de 2019

Bacurau, enfim. Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o longa-metragem entra em cartaz hoje (29/8) depois de ter conquistado prêmios importantes em Cannes, Munique e Lima e de ter sido visto por 18 mil brasileiros em disputadas pré-estreias pelo país. É, muito provavelmente, o filme do ano.

 

 

Ambientado “daqui a alguns anos no oeste de Pernambuco” (embora filmado no interior do Rio Grande do Norte), é uma saga que funde de modo exemplar a história profunda da região e o tumulto do mundo contemporâneo globalizado.

 

Um não lugar no mapa

Do enredo, só cabe dar os traços gerais: num vilarejo perdido no meio do agreste (a Bacurau do título), mortes violentas e misteriosas começam a ocorrer, ao mesmo tempo em que um drone sobrevoa a região e o lugar desaparece dos mapas.

O que há de mais notável no filme, a meu ver, é a maneira como os diretores imbricam organicamente referências e procedimentos do cinema de ação norte-americano com tradições históricas e culturais nordestinas, configurando uma obra profundamente local e amplamente universal. Um ponto de excelência do cinema pernambucano das últimas décadas, cuja virtude maior é encenar de modo crítico esse embate entre o arcaico e o contemporâneo, a raiz e a antena, a aldeia e o mundo.

É uma história de resistência, enfatizam os diretores. Uma comunidade se defende como pode de invasores forasteiros. O esquema remete a inúmeros westerns clássicos, de Matar ou morrer (Fred Zinnemann) a Rio Bravo (Howard Hawks), mas também, até pela atmosfera de suspense e mistério, faz lembrar o romance A hora dos ruminantes, de José J. Veiga, sobretudo na cena extraordinária em que cavalos desorientados invadem Bacurau durante a noite.

Seja como for, não se trata de acoplar artificialmente referências ao cinema de ação e violência estrangeiro (John Carpenter, Sam Peckinpah) sobre uma paisagem brasileira, mas de revelar o que há de comum entre essas experiências sociais, culturais e estéticas. Os amplos planos gerais de planície e vegetação rala evocam, sim, o western, mas também os enquadramentos abertos dos filmes de sertão do cinema novo. Um crepúsculo sangrento do velho oeste é seguido pelo típico luar do sertão.

Da mesma forma, a história de Pacote (Thomas Aquino), o “rei do teco”, reitera o tema recorrente do pistoleiro regenerado que volta a pegar em armas para uma missão “do bem” (vem à mente Os imperdoáveis), mas a voz de Geraldo Vandré cantando o “Réquiem para Matraga” (da trilha sonora de A hora e a vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos) conecta-o também ao personagem de Guimarães Rosa que quer “entrar no céu nem que seja a porrete”. A primeira menção ao ofício de Pacote é exemplarmente cinematográfica: um brevíssimo flashback em que o vento levanta sua camisa e mostra a arma na cintura.

Em Bacurau, a água é um bem precioso, com seu suprimento controlado por políticos corruptos da região, e só chega à cidade no caminhão-pipa conduzido por Erivaldo (Rubens Santos), eventualmente crivado de balas. O espectador contemporâneo pode pensar em Mad Max, mas a situação tem a ver com uma realidade crônica do sertão desde tempos coloniais – e retratada também, aliás, em Árido movie, de Lirio Ferreira.

 

História como personagem

A resistência a invasores circunstanciais assume a certa altura um matiz de vingança, uma revanche sangrenta contra uma opressão secular. Entra em cena um dos personagens mais extraordinários criados por nossa ficção recente, o renegado Lunga (Silvero Pereira), espécie de cangaceiro moderno, um tipo andrógino em que a ferocidade faz par com a vaidade. Na fronteira entre o puro banditismo e a revolta política, Lunga é uma atualização da figura do bandido social estudada pelo historiador Eric Hobsbawm em livros como Bandidos e Rebeldes primitivos.

A História, aliás, com “h” maiúsculo, é personagem do filme. Não por acaso, um de seus cenários centrais é o Museu Histórico de Bacurau, onde está guardada a memória da região, na qual se destacam as fotos de cabeças cortadas de cangaceiros. Depois de uma cena de carnificina no local, uma líder comunitária diz: “Vamos lavar o chão, mas as marcas de sangue nas paredes devem ficar intocadas”. Em outras palavras: basta de tentar apagar a brutalidade da nossa história, criando a ilusão de um país limpo e pacífico.

Outros personagens de Bacurau vieram para ficar na memória dos espectadores: a altiva e por vezes irascível médica Domingas vivida por Sonia Braga; o lúcido professor Plínio (Wilson Rabelo), espécie de líder político e intelectual da aldeia; o veterano Damiano (Carlos Francisco), que cultiva suas ervas em paz e produz “um poderoso psicotrópico” para dar à população o veneno da coragem; o alemão-americano Michael (Udo Kier), implacável líder dos invasores; o pusilânime prefeito Tony Júnior (Tharedelly Lima), e muitos outros, além dos já citados Pacote e Lunga.

A ação, o drama, o fantástico e o cômico se transfundem numa obra singular, de uma energia arrebatadora, potencializada talvez pelo clima de estupefação e incerteza que estamos vivendo. Sua violência catártica tem levado as plateias às lágrimas, aos aplausos e brados em cena aberta. Daqui a alguns anos, quando o mundo tiver mudado, talvez possamos fazer uma avaliação mais fria e equilibrada de Bacurau. Para o bem ou para o mal, é o filme que pulsa com o Brasil de hoje.

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