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Tarantino e seu autorama

22 de agosto de 2019

Desde o título, Era uma vez em... Hollywood, de Quentin Tarantino, se apresenta como obra de fantasia. Inútil criticar o diretor pelas liberdades que toma com relação aos “fatos”, como aliás já havia feito em Bastardos inglórios e em Django livre, porque para ele a realidade factual e o patrimônio imaginário são matérias-primas de igual densidade para a criação de suas ficções.

“Um estúdio de cinema é o melhor trenzinho de brinquedo que um menino poderia ter.” A célebre frase de Orson Welles ganha um sentido quase literal quando se pensa no cinema de Tarantino. Em Era uma vez... ele nada de braçada em seu elemento: a indústria do cinema e a cultura popular norte-americana do final dos anos 1960, um caldo efervescente que inclui rock, quadrinhos, comunidades hippies, séries de TV, cinemas de rua, spaghetti westerns e festas espetaculares à beira da piscina.

 

Passado dourado

Ao inventar como protagonistas um astro decadente de séries de faroeste, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), e seu dublê e faz-tudo, Cliff Booth (Brad Pitt), o cineasta encontrou um meio de nos conduzir naturalmente por esses diversos ambientes. Para completar, situou a casa de Dalton ao lado da mansão do casal Roman Polanski-Sharon Tate (Rafal Zawierucha e Margot Robbie), com a explosiva carga dramática que isso implica.

É visível o prazer com que Tarantino visita esse mundo, com sua fauna variada e seus fetiches: os automóveis, as roupas e acessórios, os locais da moda. Ao mesmo tempo, a noção de decadência pessoal de Dalton coaduna com uma certa melancolia com que se exibem os restos de um passado dourado: um cinema drive-in quase vazio, um cenário de western transformado em acampamento hippie.

Inspirados pela frase de Welles, podemos imaginar esse microcosmo em movimento criado pelo diretor como um imenso trenzinho de brinquedo, ou antes um autorama, já que o automóvel é o grande veículo desse território. É quase um road movie urbano, até porque Los Angeles às vezes parece uma estrada cercada de cidade por todos os lados.

Ao humor, cinismo, violência e trilha sonora vibrante a que nos habituamos no cinema de Tarantino, acrescenta-se aqui um lirismo insuspeitado, sobretudo em cenas que celebram o próprio cinema: a emoção do alcoólatra Rick Dalton ao conseguir uma atuação arrebatadora no primeiro take, o encantamento de Sharon Tate ao se ver na tela e constatar a reação animada do público. (O filme a que ela assiste é Arma secreta contra Matt Helm, em que contracena com Dean Martin.)

Há, claro, vários senões. Os milhões de fãs de Bruce Lee, por exemplo, decerto não gostarão nem um pouco do escárnio desrespeitoso com que o ator/lutador é retratado no filme.

 

Voyeurismo e violência

Outra questão, mais delicada, é o deleite voyeurístico com que Tarantino filma as cenas de violência extrema. Ainda que, neste filme, o procedimento se reduza praticamente a uma única sequência, é o suficiente para provocar engulhos em quem ainda não embotou totalmente sua sensibilidade. Mas há algo que, se não justifica, pelo menos atenua os danos desse crescendo de violência: ele desemboca num momento de humor negro antológico, quase sublime, se é possível uma coisa dessas.

Então, com Tarantino é assim: ou se compra o pacote todo, com os brilhos e os excessos, ou é melhor nem entrar no cinema. E sobre a sequência final – que o diretor pede encarecidamente que ninguém revele antes da hora – só cabe dizer que é uma das mais belas e surpreendentes que ele já filmou, mostrando que no peito dos brutos e cínicos também bate um coração.

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