O filme Barba ensopada de sangue, de Aly Muritiba, está em cartaz em abril nos cinemas do IMS Paulista e IMS Poços.
Barba ensopada de sangue, de Aly Muritiba, é um filme belo, original e um tanto desconjuntado, assim como o livro de Daniel Galera em que se baseou.
Se o premiado romance de Galera é um rio caudaloso, com diversos braços e afluentes, cobrindo um amplo escopo geográfico e temporal, o filme de Muritiba buscou se concentrar na corrente central: a obsessão de Gabriel (Gabriel Leone), um jovem instrutor gaúcho de educação física, em descobrir como se deu, décadas antes, a morte de seu avô, apelidado de Gaudério, num vilarejo de pescadores do litoral catarinense.
Temas que no livro são acessórios, mas importantes, no filme são apenas tangenciados ou tratados de modo sumário, entre eles: a “traição” da namorada, que trocou Gabriel pelo irmão deste; o trabalho de Gabriel como instrutor de uma turma de ginástica; a relação do rapaz com a velha cadela Beta, herdada do pai; a prosopagnosia, ou “cegueira facial”, distúrbio neurológico que impede o protagonista de reconhecer rostos, mesmo os mais familiares.
Jogo de contrastes
Abordar a fundo todos esses aspectos exigiria no mínimo uma minissérie. A opção pela concentração, portanto, foi necessária e correta. Talvez o filme até ganhasse mais força se dispensasse totalmente o que não lhe é essencial. A menção à cegueira facial, por exemplo, não contribui em nada nem para a compreensão da trama nem para a construção da atmosfera. O mesmo se pode dizer da longa conversa entre Gabriel e a ex-namorada.
O filme cresce, a meu ver, quando intensifica seu jogo de contrastes: a ânsia de Gabriel em desvendar o passado x o silêncio e a hostilidade dos habitantes do vilarejo; a dimensão cósmica e mítica do mar x o dia a dia comezinho da existência em terra firme.
Há uma breve cena em que esta última dicotomia se expressa lindamente: no barco de passeio turístico, a guia Jasmin (Thainá Duarte) descreve pelo megafone com tintas idílicas a jornada das baleias com suas crias, mas em seguida confidencia em voz baixa a Gabriel que os pescadores usavam os filhotes para atrair as mães à superfície e arpoá-las sem dó.
Fábula e pesadelo
Em seus melhores momentos, Barba ensopada de sangue atinge a grandeza da fábula, em que toda uma comunidade se apresenta como um monstro sinistro e ameaçador, e em que o passado parece prestes a se repetir como um pesadelo recorrente. O contraste entre esse mundo sombrio e a beleza translúcida e luminosa do oceano parece nos dizer algo sobre a impureza do humano, sobre o caráter irremediavelmente falho e destrutivo dessa estranha espécie bípede que mata e desmata à sua volta.
O filme de Aly Muritiba chega aos cinemas quase dois anos depois de passar pelo Festival de Gramado e pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo sem provocar grande repercussão. É, de certo modo, um corpo estranho no cinema brasileiro recente, por não seguir as fórmulas habituais de roteiro e dramaturgia e não lançar mão das pautas de gênero, raça ou crítica social em voga.
É preciso esquecer por um par de horas essas demandas e expectativas para apreciar com olhos e mente livres sua beleza peculiar, plasmada na magnífica fotografia de Inti Briones e na montagem precisa de Karen Akerman.
