O filme mais surpreendente e animador da semana é um intrincado thriller mato-grossense ambientado na periferia de Cuiabá: Cinco tipos de medo, dirigido por Bruno Bini. Não por acaso, foi o grande vencedor do último Festival de Gramado, levando os kikitos de melhor filme, roteiro, montagem e ator coadjuvante (Xamã).
A abertura faz pensar no formato lúdico-científico dos primeiros filmes de Jorge Furtado: exibem-se imagens do interior do corpo humano enquanto uma voz masculina levemente irônica fala dos efeitos do medo sobre o organismo. Em seguida, relaciona os cinco tipos mencionados no título: medo de médico, de lugar fechado, da solidão, de ficar sem dinheiro, de morrer. Essa lista é ilustrada por cenas brevíssimas com personagens aparentemente díspares.
A partir daí a narrativa se desenvolverá em espiral, com avanços e recuos no tempo, de maneira a mostrar aos poucos as conexões entre os vários personagens e completar, por fim, um vasto quebra-cabeças.
Um dos núcleos narrativos começa com um jovem violinista, Murilo (João Vitor Silva), sendo cuidado no hospital por uma enfermeira novata, Marlene (Bella Campos), na época braba da covid. Outro apresenta um casal que descobre por um exame de ultrassom que o filho no ventre da mulher é uma menina. Num terceiro foco, bandidos que acabaram de matar um adolescente resolvem se apropriar de seu par de tênis. Há ainda uma policial (Bárbara Colen) sendo recriminada pelo ex-marido por conta do filho dependente de drogas.
Aos poucos as trajetórias desses personagens vão se entrelaçar de modo implacável. No centro de tudo, de certa forma, está o sinistro Sapinho (Xamã), chefão do tráfico e “protetor” da comunidade de um bairro periférico, o Ribeirão do Lipa.
Drama social
Nessa obra coral, o protagonista é a sociedade contraditória e heterogênea que germina numa grande cidade brasileira, em que todos os destinos estão conectados de uma maneira ou de outra. À falta de um rótulo, poderíamos dizer que é um “drama policial social” da linhagem, por exemplo, de um Assalto ao trem pagador (1962), de Roberto Farias, ainda que com uma roupagem semelhante à de filmes “multiplot” como Short cuts (1993), de Robert Altman, Magnolia (1999), de Paul Thomas Anderson, ou Crash: no limite (2004), de Paul Haggis.
O grande mérito de Cinco tipos de medo é construir e colocar em funcionamento um mecanismo narrativo preciso, em que não há qualquer gordura ou conversa jogada fora, sem perder jamais de vista o terreno sócio-cultural onde esse mecanismo se insere. Não é, em suma, um exercício abstrato de virtuosismo, mas uma leitura crítica da realidade.
No processo, arrastados pelas circunstâncias, os personagens ocasionalmente são levados a assumir papéis para os quais não foram talhados. A certa altura, por exemplo, um vizinho quase paternal pergunta ao acossado Murilo: “Você tem uma arma?” E o rapaz, assustado: “Eu... eu toco violino”.
Engrenagem enxuta
Para que tal engrenagem funcione, mantendo a tensão e o interesse do espectador, a decupagem tem que ser enxuta, concentrada. Não há espaço para a digressão ou a contemplação. Certos planos são exemplares desse processo de condensação extrema. Um deles, próximo do final, mostra a justaposição, numa mesa de cabeceira, de um revólver, uma imagem de santa e a foto de um menino num porta-retratos. Há toda uma história familiar e um prenúncio sombrio nesse “simples” enquadramento.
Se uma epifania um tanto previsível domina a cena final, há também o lembrete de que o mecanismo continua, de que a violência se renova, de que as contradições persistem. A aposta essencial na vida não apaga isso.
Chama a atenção a segurança do diretor na condução de uma variedade enorme de cenas, ambientes e situações, de conversas à meia voz numa cozinha (ou num cemitério) a tiroteios ferozes, do silêncio tenso de uma UTI a uma ruidosa rebelião de presos. É um cinema substantivo e maduro.
Em tempo: o diretor Bruno Bini assina também o roteiro e a montagem. E vale destacar a qualidade e o entrosamento do elenco, que além dos citados e de uma porção de caras novas conta com a participação de craques bem conhecidos dos cinéfilos, como Zécarlos Machado, Rejane Silva, Rui Ricardo Dias e Jonathan Haagensen.
