de: Karol Maia
para: Carol Rodrigues
data: 15 de setembro de 2026
Carol, obrigada por ter sido uma das mais de 1.300 pessoas que ajudaram Aqui não entra luz a existir. Lembrei das primeiras vezes em que ouvi falar de Criadas. Foi nas redes sociais, quando tudo ainda era um sonho no papel.
Quase sempre se lança um filme com a idade de uma criança, né? O meu, por exemplo, levou oito anos para existir: se fosse uma pessoa, hoje estaria com a mochila nas costas, indo para a escola e, provavelmente, aprendendo a farmar aura.
Amei sua citação de “Negro drama”. Essa é uma das poucas letras dos Racionais que sei inteira de cor. Racionais me ajuda a entender uma coisa grande em mim: ser paulistana. E, muitas vezes por aqui, “a garoa rasga a carne”.
E é nessa cidade que me formou e continua me formando que descobri que não quero ser mãe, mas venho pensando como a maternidade vem perpassando os projetos que já fiz e os que estou desenvolvendo.
Eu nunca imaginei muita trilha sonora em Aqui não entra luz, mas as poucas músicas que tem, eu usei com muita certeza. Uma delas é “Querer bem”, cantada por Mariene de Castro e Roberto Mendes, composta por João Mendes. Ela é uma carta de amor, e a escolhi pensando na minha mãe e nas outras mães presentes no filme. Mas também a selecionei pensando na possibilidade de terminar um filme com temas tão densos com alguma fresta pro acolhimento, uma fantasia minha.
Eu até gravei algumas cenas baseadas nesse desejo, especificamente sobre o direito ao descanso depois de tanto tempo servindo ao outro, mas elas não entraram no filme. Nós, que vivemos em São Paulo, sabemos como às vezes é difícil parar e só descansar, mais uma vez meu instinto paulistano me inspirando.
Como é possível descansar vivendo no próprio trabalho? Um dos achados mais interessantes da pesquisa que fiz para o filme foi perceber que as patroas sabem pouco ou quase nada sobre o quarto de empregada que fica nas suas próprias casas, como se ele ficasse do outro lado da rua, e não a poucos metros da sala de jantar. A periferia arquitetônica da casa brasileira é o quarto de empregada, e ela recebe o mesmo descaso que se dá às bordas das grandes cidades.
Eu não cresci em quarto de empregada. Na verdade, a primeira vez que entrei em um foi para fazer Aqui não entra luz. Mas cresci e vivi boa parte da vida numa periferia, e hoje, tendo mais autonomia para escolher onde e como morar, penso em como esse cômodo distancia quem o habita do conforto e do descanso. Uma amiga me apresentou o livro Descansar é resistir, da Tricia Hersey, uma mulher negra norte-americana que reivindica esse direito e que organizou um pensamento ao redor disso.
Penso que o descanso que as mulheres negras precisam vai além da pausa física. Precisamos que o descanso configure nossa existência assim como a sobrecarga o faz. E realizar esse descanso também passa pela forma como moramos.
Sou fascinada por casas e consigo ver o poder da escolha da casa que você construiu em Criadas. Obrigada por ter me levado para passear nela com tanta maestria. A cozinha, os quartos, o quintal, a sala: eu realmente estive ali com as personagens. A anatomia da casa ajuda a revelar a anatomia das relações.
Amo também a Raquel, personagem de Rudmira Fula, e como ela diz que não precisa ser salva por ninguém. Isso dá um tom ainda mais preciso a essa casa comandada por mulheres negras. Gosto do seu cuidado em não deixar essas mulheres iguais entre si. O filme carrega desconfortos bons, e quem está atento consegue reconhecê-los e levá-los para casa, se quiser.
Tenho certeza de que sua avó Esméria tá ligada em tudo que vem acontecendo com Criadas e celebrando cada passo que seu filme tem dado. Eu espero que você venha conseguindo celebrar durante a jornada, Carol.
Fazer filme é um lance difícil.
Acho que quem dirige, aparecendo diretamente na tela ou não, se expõe e fica vulnerável de uma forma tão intensa... Ainda sinto frio na barriga toda vez que estou numa sessão de Aqui não entra luz. Eu não assisto mais ao filme inteiro, calculo o tempo para chegar só na cena final. Sempre tem gente que ri, mais ou menos, dependendo da sessão, e fico feliz com esse riso.
Falando em final: muita cena ficou de fora de Aqui não entra luz. Uma delas era eu e minha mãe descansando na beira da piscina do meu prédio. Estava cotada para ser a cena final, não foi a que ficou; a montagem escolheu outro caminho.
Mas essa cena continua comigo, como a reivindicação, ou o delírio, de que mulheres negras possam descansar devagar, em São Paulo ou em qualquer lugar do Brasil, com a segurança de uma casa inteira e próspera esperando por elas.
Espero que esteja comendo bem
E dando gargalhada à toa
A vida inteira pra se apaixonar
E banho de uma chuva boa.
(“Querer bem”)
Com carinho,
Karol
O filme Criadas está em cartaz no cinema do IMS Paulista em outubro, como parte da mostra Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello.
Karol Maia se inspira em referências periféricas e negras para criar seus projetos. Seu longa-metragem Aqui não entra luz recebeu o prêmio de Melhor Direção no Festival de Brasília e foi selecionado para o IDFA. Também dirigiu produções para a Globo, a Warner Bros. Discovery e a Paramount+.
