de: Carol Rodrigues
para: Karoline Maia
data: 12 de setembro de 2026
Querida Karol, como você tá?
Em junho de 2020, eu entrei no Benfeitoria e contribuí para que o seu filme existisse. Ainda não sabia o que Aqui não entra luz seria.
É bonito pensar nisso agora. Antes de existir como filme, 1.375 pessoas disseram que ele deveria existir. Eu fui uma delas.
Jamais imaginei que anos depois me sentaria diante do seu filme pensando na minha avó. Pensando na minha mãe. Pensando nas mulheres que aparecem no seu filme e nas mulheres que inventei pro meu. Pensando principalmente que, durante tempo demais, mulheres negras estiveram dentro do retrato sem que o retrato fosse delas. Elas estavam atrás.
Carregavam uma criança. Serviam uma mesa. Limpavam alguma coisa. Às vezes apareciam por acaso numa fotografia de família. Faziam parte da casa e, ao mesmo tempo, a casa nunca era delas. Faziam parte da família, diziam, mas seus filhos ficavam em outro lugar.
Talvez por isso tenha me tocado tanto perceber que o seu filme nasce de uma mulher negra recusando ser filmada. Sua mãe não quer que você a entreviste.
E você faz um filme. Você atravessa casas, cidades, quartos, corredores, portas de serviço. Encontra outras mulheres. Escuta histórias que às vezes são tão violentas que assustam, justamente porque quem conta aprendeu a contá-las como algo ordinário.
É uma coisa terrível que fazemos pra sobreviver. Inventamos uma lógica pro sofrimento. Transformamos o insuportável em cotidiano.
Enquanto assistia, pensei que talvez a recusa da sua mãe pudesse ser uma das primeiras pontes entre os nossos filmes.
Criadas também começa por causa da imagem de uma mãe que não está disponível.
Sandra volta à casa da prima Mariana procurando uma fotografia de Ivone, sua mãe. Ivone trabalhou como empregada residente naquela casa. Sandra é uma mulher negra de pele escura. Mariana é uma mulher negra de pele clara. São primas. São família. E, ainda assim, aquela mesma casa ofereceu às duas infâncias muito diferentes.
No seu filme, existe uma mãe que diz que não quer ser filmada.
No meu, existe uma filha dizendo que precisa encontrar a mãe.
Isso me atravessou, sabe.
Porque talvez nossos filmes sejam menos sobre trabalho doméstico do que sobre o direito de reorganizar tudo aquilo que herdamos.
Neusa Santos Souza escreveu sobre a necessidade de construir um discurso sobre si e não deixar as palavras dos outros nos definir. Tenho pensado se fazer cinema, para nós, não é também isso. Não é só sobre representação. Isso é pouco e impreciso. Nós sempre estivemos nas imagens brasileiras. O problema é onde nos colocaram.
No fundo.
Na cozinha.
Na porta.
Atrás da criança branca. Embaixo da criança branca. Com a bandeja na mão. Com a vassoura. Com o pano de esfregar.
O que acontece quando uma mulher negra ocupa o centro da imagem? O mundo permanece igual ou se reorganiza inteiro pra acolhê-la?
Penso no final de Negro drama, quando Mano Brown diz que a história dele “daria um filme”, e a primeira imagem desse filme é uma mulher negra com uma criança nos braços, sozinha na cidade. Depois, ele debocha do interlocutor branco que lhe ofereceu um mundo de miséria, mas não conseguiu impedir que ele entrasse pelo rádio na casa do dono de tudo e alcançasse seu filho. Agora, o menino “ginga e fala gíria; gíria não, dialeto” e “quer ser preto, ah!, que ironia”.
Há uma disputa imensa nessas palavras. E acho que elas sintetizam o que é, pra gente, fazer filme e entrar pelas telas.
Porque não basta estar presente. É preciso disputar quem inventa a língua. Quem produz referência. Quem determina o que pode ser desejado, lembrado, reconhecido. Por quem as pessoas choram? Que existências são consideradas dignas?
E penso em Laudelina de Campos Mello enquanto escrevo isso. Acho bonito que nossos filmes se encontrem numa exposição dedicada a alguém que passou a vida organizando trabalhadoras domésticas, lutando pelos direitos delas e recusando que esse trabalho fosse entendido como destino natural de mulheres negras.
Há uma linha ligando essas mulheres.
Não uma linha reta. Nossa história nunca teve esse luxo. Nem nunca quis.
Talvez seja uma linha espiralar feita de interrupções, retornos, esquecimentos, coisas escondidas em armários, fotografias desaparecidas, quartos pequenos demais e filhas tentando compreender o preço pago pelas mães para que elas pudessem desejar outra vida.
Nós conseguimos fazer filmes.
Às vezes escrevo isso e parece pouco.
Depois lembro de quem veio antes e percebo o tamanho.
Como medir essa distância?
Como medir o que uma geração precisou suportar para que outra pudesse imaginar?
Talvez por isso eu tenha dificuldade com uma ideia de ancestralidade que seja apenas bonita.
Nossas mães e avós não são símbolos.
Pagaram materialmente pela possibilidade que temos de sonhar. Pagaram com tempo, corpo, separações, com trabalhos que começaram cedo demais e terminaram tarde demais.
O trabalho doméstico não apenas sustentou casas. Sustentou a reprodução do próprio trabalho. Alguém precisava cozinhar pra que outra pessoa trabalhasse. Alguém precisava limpar pra que outra pessoa estudasse. Alguém precisava criar uma criança pra que outra pessoa pudesse ter uma profissão.
E muitas vezes aquela mulher estava criando a criança de outra pessoa enquanto outra mulher criava a sua.
É uma engenharia perversa.
Em Criadas, patroa e empregada são negras. E são primas. Isso importa muito pra mim.
Seria confortável demais imaginar que a estrutura desaparece quando uma pessoa branca sai do quadro. A branquitude pode parecer estar fora e continuar organizando tudo por dentro. Está na distribuição do dinheiro, do espaço, do trabalho, do futuro. Está naquilo que aprendemos a desejar e também no que aprendemos a repetir.
Pessoas negras podem se amar, compartilhar uma história, reconhecer alguma coisa de si umas nas outras e ainda ocupar posições radicalmente desiguais dentro da mesma casa.
Malcolm X dizia que não existe capitalismo sem racismo. O racismo não precisa de uma pessoa branca em cada cômodo pra continuar funcionando. Ele já organizou os cômodos.
Talvez seja por isso que as casas importem tanto nos nossos filmes.
No seu, a arquitetura guarda a hierarquia. A porta, o corredor, o quarto sem luz dizem quem pode circular e quem deve desaparecer.
No meu, a casa também guarda aquilo que as pessoas tentaram esquecer. Ela vira arquivo, corpo e assombração.
O Brasil é muito bom em colocar no passado algo que ainda está acontecendo. Em tratar o racismo como herança, quando ele continua organizando o presente.
Beatriz Nascimento me ajudou a compreender que nossa memória não precisa morar apenas nos arquivos que fizeram sobre nós. Ela pode morar no corpo, no deslocamento, no quilombo.
Gosto de pensar o quilombo também como uma tecnologia de continuidade.
Talvez nossos filmes sejam pequenos quilombos.
Não porque sejam seguros. Não são.
Mas porque dentro deles podemos reorganizar quem ocupa o centro.
Podemos olhar pras nossas mães.
E podemos aceitar quando elas não querem ser olhadas.
Minha esposa me apresentou um historiador da arte alemão, Aby Warburg, que pensava a imagem como uma maneira de elaborar a realidade. Ele sugeria que a arte talvez seja menos um espelho do mundo e mais um órgão de elaboração dele. Gosto disso porque me tira de uma obrigação que tantas vezes colocam sobre pessoas negras que fazem arte, a de explicar. Eu não quero explicar o mundo. Quero poder elaborá-lo.
Quero ter a liberdade de buscar Fanon, Beatriz Nascimento, Neusa Santos Souza, Paul B. Preciado, Warburg, Jane Schoenbrun, Kiki Smith, Racionais, Kendrick Lamar ou qualquer pessoa que me ajude a fabricar uma linguagem para aquilo que ainda não sei nomear.
Podemos colocar tudo isso numa mesma mesa.
Podemos criar nossos próprios conceitos a partir daí.
Essa liberdade também foi conquistada.
Durante muito tempo, fizeram o contrário: pegaram nossas mães e nossas avós e transformaram suas vidas em objeto pra que outras pessoas produzissem conceitos.
Agora nós também produzimos os conceitos.
No final de Criadas, Sandra e Mariana destroem a casa.
Precisam quebrar fisicamente aquela arquitetura pra conseguir se reencontrar. Não é uma destruição pela destruição. Há coisas que precisam cair pra que alguma outra relação possa existir.
No seu filme, acontece quase o movimento contrário.
Você passa o filme procurando uma mãe que não quer ser filmada.
Procura essa mãe em outras mulheres.
Até que ela finalmente se permite estar diante da sua câmera.
E então você diz que o filme acabou.
Quando percebi isso, chorei.
Porque talvez a casa destruída e a mãe que finalmente aceita estar diante da câmera sejam duas respostas pra uma pergunta parecida.
Como romper um destino que durante tanto tempo pareceu inevitável?
Em Criadas, Ivone, mãe de Sandra, canta:
“Levo minha mãe comigo
Embora já se tenha ido”
Essa frase tem outro peso agora.
Minha avó não chegou a ver meu primeiro longa. Ela, que me criou, que foi minha segunda mãe, que se orgulhava de ter me trazido da maternidade no colo, que sempre me perguntava se eu tinha comida, que me fazia ter coragem para dar saltos cada vez mais altos, faleceu 12 dias antes de começarmos a filmar.
O filme é dedicado a ela: “Para minha vó Esméria, que me ensinou o amor incondicional”.
Minha avó começou a trabalhar como empregada doméstica aos 14 anos. Décadas depois, eu entrava numa casa com uma equipe de cinema pra dirigir um filme sobre mulheres negras atravessadas pelo trabalho doméstico.
Doze dias separaram sua morte do primeiro dia de filmagem.
Mas entre essas duas datas existe uma vida inteira.
A dela e a minha.
Talvez seja isso que fazemos quando filmamos.
Inventamos maneiras de levar conosco quem não pôde chegar até onde chegamos.
Você levou sua mãe com você, mesmo quando ela se recusava a aparecer.
Sandra voltou pra buscar a mãe numa fotografia.
Eu levei minha avó pra dentro de um filme que ela não pôde ver.
E aquelas mulheres que durante tanto tempo entraram pelas portas de serviço das casas dos outros agora podem existir sem compor o fundo da história de ninguém. Talvez seja essa a responsabilidade que sinto no nosso trabalho como pessoas negras fazendo cinema.
Não apenas colocar mais corpos negros na tela, mas expandir o nosso imaginário. Permitir que nossas mães sejam contraditórias, engraçadas, cansadas, desejantes, misteriosas. Que não precisem representar uma tese pra existir.
Por isso fico muito feliz de ter sido uma daquelas 1.375 pessoas.
Na época, minha contribuição era apenas um gesto de confiança na promessa de um filme. Hoje consigo entender que eu estava ajudando, sem saber, a tornar possível uma obra que, anos depois, também me ajudaria a pensar a minha.
Seu filme mexeu fundo comigo, Karol.
Espero que os caminhos que nossas mães, avós e bisavós abriram para nós continuem se abrindo. E espero principalmente que a gente não esqueça o trabalho que custou chegar até aqui.
Porque elas abriram uma passagem.
Agora nós podemos atravessar.
Alargar.
Para que mais gente como nós possa passar.
Com carinho 🖤
Carol Rodrigues
O filme Aqui não entra luz está em cartaz no cinema do IMS Paulista em outubro, como parte da mostra Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello.
Carol Rodrigues escreve e dirige histórias atravessadas por raça, classe, gênero, memória e afeto. Seu primeiro longa, Criadas, coloca mulheres negras no centro da imagem e venceu o Prêmio do Público na Mostra de São Paulo. Seu trabalho busca ampliar quem pode existir com complexidade na tela. Em 2026, recebeu o Prêmio Abraço da Abra.
