Enzo, de Robin Campillo, é o que se pode chamar de “romance de formação” (ou coming of age, na colonizada expressão em voga). Não é casual que suas primeiras imagens sejam de uma casa em construção. O personagem se constrói na tela ao mesmo tempo que a obra – na dupla acepção da palavra “obra”: o filme, a casa.
Enzo (Eloy Pohu) é um garoto de 16 anos de classe média alta que, para o espanto de todos, decidiu abandonar os estudos e trabalhar como aprendiz de pedreiro. O modo como ele nos é apresentado é significativo: vemos alguns operários executando em silêncio diferentes tarefas, e só depois de um minuto a câmera o individualiza. Ele faz seu trabalho (despeja areia numa betoneira) separado dos outros. Anônimo, invisível, sozinho, marginal entre marginalizados.
Zona de sombra
A partir daí o filme o acompanhará de perto, mas mantendo sempre uma certa opacidade, uma zona de sombra e mistério à qual não se tem acesso. Oscilando entre a timidez e explosões de revolta, Enzo parece sempre frustrar o que se espera dele, causando desconcerto e perplexidade. Os pais (Élodie Bouchez e Pierfrancesco Favino) o pressionam mais ou menos sutilmente para que volte aos estudos e abandone a ideia maluca de ser um trabalhador braçal. Os colegas de trabalho – em sua maioria imigrantes do leste europeu – se espantam ao descobrir que ele mora numa casa bacana com piscina e vista para o mar.
O que se espera é que ele cumpra um papel que parece escrito desde sempre: entre na universidade, vire doutor, case com uma mulher (de preferência caucasiana e da mesma classe social), constitua família. E Enzo começa por negar cada uma dessas expectativas. O que ele deseja? Talvez nem ele saiba muito bem. É como se ele repetisse as palavras de Alice Ruiz: “Dizer não/ tantas vezes/ até formar um sim”.
Se as atitudes do rapaz são erráticas e imprevisíveis, a construção narrativa do filme segue um andamento analogamente descontínuo, feito de saltos, recuos e surpresas. Nada parece se concluir num desfecho previsto, num equilíbrio pacificado. A atração física de Enzo por um colega de trabalho mais velho, o ucraniano Vlad (Maksym Slivinskyi), não chega a se concretizar num romance, ou mesmo numa relação homoerótica passageira. Permanece em estado de esboço, de possibilidade.
Espírito do tempo
A ideia (ou sensação) de incompletude permeia todo o filme, que começa num canteiro de obras e termina em ruínas romanas de uma cidade italiana. Como todo bom romance de formação, Enzo ilumina ao mesmo tempo uma personalidade singular em construção e o mundo que a cerca, com suas diferenças de classe, suas injunções geopolíticas, seu “espírito do tempo”.
Imigração, guerra da Ucrânia, opressão social, tudo isso faz parte da engrenagem do mundo, da qual o jovem Enzo parece ser um parafuso solto, um fio desencapado, uma falha na roda dentada. Poucos filmes de que me lembro conseguiram expressar de modo tão pungente a solidão da adolescência, a sensação de desajuste irreparável.
Duas observações sobre coisas que não estão (mas estão) na tela. O filme é apresentado como sendo “de Laurent Cantet, realizado por Robin Campillo”. Explica-se: Cantet escreveu e preparou todo o projeto, mas morreu prematuramente em 2024 antes de efetivá-lo, tarefa que coube então ao amigo e parceiro em filmes como Entre os muros da escola e A trama. Outra coisa: a história se passa quase toda em La Ciotat, no extremo sul da França, cidade que aparece num dos primeiros filmes da história, A chegada do trem à estação de La Ciotat, e em outras produções pioneiras dos irmãos Lumière.
Talvez não seja despropositado considerar que se trata de uma homenagem ao próprio cinema, essa arte de registrar o que se passa fugazmente entre a construção e a ruína.
