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A voz humana

05 de fevereiro de 2026

O filme A voz de Hind Rajab, de Kaouther Ben Hania, está em cartaz em fevereiro nos cinemas do IMS Paulista e IMS Poços.

 

A voz de Hind Rajab, da tunisiana Kaouther Ben Hania, resume no próprio título seu ponto de partida, seu tema, sua substância e seu principal trunfo.

A ideia do filme, aliás, surgiu quando a diretora ouviu as gravações de um diálogo entre atendentes do Crescente Vermelho (a versão palestina da Cruz Vermelha) e uma menina de 6 anos, única sobrevivente de um ataque de soldados israelense que metralhou o automóvel onde ela estava com vários familiares. Essa menina acuada num carro era Hind Rajab.

A primeira decisão de Kaouther Ben Hania foi a de utilizar o áudio real dessas conversas/apelos/pedidos de socorro. Em torno desse fio de voz cabia a ela construir uma narrativa cinematográfica eficaz do ponto de vista estético e dramático. Em vez de encenar o ataque ao automóvel, ela optou por concentrar toda a ação no escritório do Crescente Vermelho, onde vários membros da equipe se afligem e se mobilizam para tentar salvar a menina. Foi uma opção ousada e poderosa.

 

Aflição e impotência

Assim, nos identificamos com a aflição e a impotência desse grupo de adultos diante do horror absoluto: a brutalidade do mundo contra uma criança indefesa, a ponta mais frágil da humanidade.

Há antes de tudo Omar (Motaz Malhees), o primeiro atendente a contatar a menina, e que tenta contagiar com seu desvelo seus colegas: a chefe de pessoal Rana (Saja Kilani), a psicóloga Nisreen (Clara Khoury) e, principalmente, o coordenador de ações, Mahdi (Amer Hlehel), encarregado de negociar com a Cruz Vermelha e o exército invasor israelense para abrir um corredor seguro e levar uma ambulância de resgate ao local onde está a pequena Hind.

Esboça-se uma oposição dramática entre o ardor salvacionista de Omar e a atitude mais pragmática de Mahdi, correndo por momentos o risco de transformar o filme num drama de escritório, onde se alinham de um lado os bons e de outro os maus funcionários. Felizmente isso não acontece. Um a um, todos se comovem com o drama de Hind, cuja voz sem rosto ressurge a cada momento para lembrar a todos ali – e a nós, na plateia – que “a matéria vida era tão fina” e que, afinal, somos todos humanos – com a possível exceção de Donald Trump, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu.

 

Som e imagem

Em termos formais, A voz de Hind Rajab reequaciona a complexa relação entre som e imagem, que rende reflexões intermináveis desde o início do cinema sonoro, há quase cem anos.

Aqui, trata-se o tempo todo de instigar o espectador a construir mentalmente o que está fora do quadro – sobretudo o cerco militar ao carro onde está Hind, mas também os locais dos interlocutores do Crescente Vermelho, como a Cruz Vermelha, embaixadas, imprensa, autoridades israelenses etc., numa rede infernal de contatos, negociações e obstáculos que impedem um carro de resgate de percorrer os poucos quilômetros que o separam da menina sitiada.

Uma voz cada vez mais sumida resiste ao caos de um planeta conflagrado. Ao ler nos jornais e portais que milhares de crianças morreram em Gaza é provável que o sujeito se comova e se indigne por um momento, antes de passar para a notícia seguinte. Ao ouvir a voz de Hind, sabendo que é real, sentimos o horror da guerra de modo imediato, físico, visceral. É toda uma outra coisa, pode acreditar.