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Mães paralelas

08 de janeiro de 2026

O filme Jovens mães, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, está em cartaz em janeiro nos cinemas do IMS Paulista e IMS Poços.

 

O mundo desmoronando e a gente aqui, falando de cinema. É nosso papel (nossa sina?): cultivar o que ainda existe de humano em nós. Como diz uma velha canção, o importante é que a nossa emoção sobreviva.

Emoção é o que não falta em dois dos melhores filmes em cartaz neste início de ano, o belga Jovens mães, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, e o estadunidense Se eu tivesse pernas, eu te chutaria, de Mary Bronstein. Ambos têm como tema central a maternidade – e a miríade de questões (sociais, psicológicas, morais) que ela envolve. São duas obras contrastantes, no enfoque e na forma, por isso vamos encarar uma de cada vez.

Em Jovens mães, acompanhamos o drama de meia dúzia de meninas que convivem numa instituição de assistência a mães adolescentes sem dinheiro e/ou sem família. No estilo habitual dos Dardenne, a câmera perscruta cada uma delas bem de perto, quase colada em seus ombros. Cada sequência começa com a ação já em curso, e o corte entre uma e outra se dá de modo seco, sem aviso prévio.

O início, por exemplo, mostra Jessica (Babette Verbeek), garota de uns 16 anos, hesitando em abordar uma mulher que ela julga poder ser sua mãe, que a abandonou logo após o nascimento. Só depois da abordagem, num ponto de ônibus, a câmera se afasta o suficiente para vermos que a menina está grávida.

A partir daí, em sequências breves, compõe-se um painel de mães adolescentes e as raízes do desamparo de cada uma: abandono na infância, mãe alcoólatra, padrasto abusador, vício em drogas, fuga do companheiro, vida nas ruas, desemprego, racismo. O social e o psicológico se entrelaçam intimamente.

O quadro geral não é nada bonito, mas essas meninas sim, cada uma à sua maneira. O filme não as julga nem as rotula, mas procura captá-las em sua inteireza e em sua fragilidade. Desenha-se subterraneamente uma cadeia de seres vulneráveis: as adolescentes, suas mães e seus filhos. A vontade é de abraçar cada um, cada uma.

O acúmulo de dramas e dores tem um respiro na belíssima sequência final, que soa como uma aposta na educação, na arte e, sobretudo, no amor. A vida, de vez em quando, presta.

 

Mergulho no desvario

Se o filme dos Dardenne é uma obra coral, com protagonistas que se alternam no primeiro plano, Se eu tivesse pernas... concentra-se na trajetória de uma personagem única, Linda (Rose Byrne), que não sai de cena nem por um momento.

Ao estrito realismo social e psicológico dos irmãos belgas, a norte-americana Mary Bronstein contrapõe um mergulho quase expressionista na psique perturbada de Linda, uma psicoterapeuta cuja única filha sofre de uma inapetência grave, precisando ser alimentada por um tubo.

Não que não existam outros personagens, mas no fim das contas parece que eles estão ali só para tornar mais cruciante o drama da protagonista. É a paciente que não sabe como superproteger seu bebê, é a coordenadora do grupo de terapia de mães de crianças especiais (encarnada pela diretora do filme), é o marido ausente e exigente, é o vigia carrancudo do estacionamento da escola da filha, é a própria filha carente e geniosa. Todos a atormentam com pressão e cobrança. Sem contar o imenso buraco que se abriu no teto de seu apartamento, transformando-o numa piscina de água suja.

 

Estados alterados de percepção

Linda tenta manter o equilíbrio e desempenhar minimamente seus múltiplos papéis recorrendo a paraísos artificiais: vinho, maconha, comprimidos. A construção visual do filme busca mimetizar seus estados alterados de percepção, na montagem nervosa, nas distorções de imagem e som. Estamos distantes da câmera dos Dardenne, com sua objetividade de entomologista.

Esse mergulho no desvario da protagonista transforma o filme numa espécie de longo pesadelo, ou numa sucessão de pesadelos, não desprovidos de beleza, emoção e até mesmo humor, ainda que cruel. Nada disso seria possível se não fosse a atuação excepcional da australiana Rose Byrne, premiada com justiça em Berlim, Chicago, Boston, Stiges, Toronto e mais uma porção de festivais.

Uma última observação. Da filha de Linda, centro de seu drama, vemos apenas partes: pernas, uma orelha, barriga, mãos. É só no belo plano final que seu rosto aparece, sem que sequer saibamos se é real.