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O poder da carteirada

20 de maio de 2021

Judas e o messias negro, de Shaka King, é um drama histórico-policial cujo alcance vai muito além do episódio real específico que aborda: a atuação de um espião infiltrado pelo FBI nas fileiras dos Panteras Negras e sua contribuição para o assassinato do jovem líder Fred Hampton. O filme está em cartaz nos cinemas de algumas cidades brasileiras e em pré-lançamento no canal de streaming Now.

 

 

O agente em questão é o também jovem Bill O’Neal (LaKeith Stanfield), um pequeno marginal negro de Chicago que usava uma credencial falsa de agente federal para tapear cidadãos e roubar seus carros. Flagrado em seu esquema, ele acaba virando de fato um instrumento do FBI para monitorar a célula dos Panteras Negras na cidade, liderada pelo brilhante e carismático Hampton (Daniel Kaluuya, premiado com o Oscar de coadjuvante).

O detalhe da credencial é quase uma metonímia do tema geral do filme, pois condensa duas ideias que lhe são centrais: identidade e poder. O policial que interroga Bill, e que acabará por recrutá-lo para a ação de infiltração, manifesta curiosidade: por que a credencial falsa? “Porque um negro pobre pode até ter uma arma, mas quem tem uma credencial conta com todo o poder do exército americano atrás de si”, responde o ladrãozinho. Com a falsa identidade de policial, Bill extorquia negros da periferia como ele, acusando-os de ter roubado seus próprios automóveis.

 

Crimes da lei

Ocorre então uma inversão: se antes exibia uma credencial falsa para se impor como agente da lei, depois ele passa a servir secretamente à “lei” misturado aos militantes do movimento negro, para monitorá-los. Nessa ironia reside boa parte do sentido político do filme. Pois não serão poucos os crimes que presenciaremos, perpetrados pelos representantes do Bureau comandado por J. Edgar Hoover (Martin Sheen, irreconhecível), supostamente em defesa da lei e da ordem.

A defesa da ordem, parece dizer o filme, é sempre a defesa de uma certa ordem. Mas, se esse é o tema político subjacente, o foco é o drama pessoal do infiltrado Bill O’Neal, que já na primeira cena aparece dando uma entrevista à série televisiva documental Eyes on the prize, sobre seu papel nos acontecimentos que levaram à morte do líder Hampton.

Um pouco como o policial negro de Infiltrado na Klan, de Spike Lee, que tem sua consciência racial despertada ao se misturar com militantes do movimento pelos direitos civis, Bill também balança visivelmente ao ouvir os discursos épicos de Fred Hampton e acompanhar o apaixonado trabalho de base dos Panteras, que inclui escolas, creches e atendimento médico às populações negras desassistidas. A certa altura, não sabemos mais para que lado pendem seus sentimentos e, sobretudo, sua lealdade.

A julgar pelo filme, as autoridades temiam que Fred Hampton, então com apenas 20 anos, viesse a se tornar um líder da dimensão de um Malcolm X ou de um Stokely Carmichael. O que mais as apavorava era a tentativa de Hampton de unificar na luta por emancipação toda a comunidade pobre de Chicago, incluindo gangues de traficantes, grupos religiosos, latinos explorados e até brancos insatisfeitos.

 

Thriller policial

Ancorado nessas bases sólidas – evento histórico real, eixo político claro, drama íntimo do protagonista –, Shaka King constrói uma narrativa de thriller policial envolvente, ajudado pelo fato de que qualquer história de agente duplo (seja espião internacional, membro de gangue ou informante da polícia) propicia suspense a cada momento, bem como uma exploração dos limites psicológicos e éticos do indivíduo em questão.

Mais até do que Spike Lee em Infiltrado na Klan, quem trafega muito bem nesse terreno movediço é Martin Scorsese em Os infiltrados. Em Judas e o messias negro há uma espécie de equilíbrio entre a abordagem político-racial do primeiro e a habilidade do segundo na condução da tensão narrativa e do crescendo de violência.

Uma das sagacidades do diretor Shaka King é não se restringir ao ponto de vista do protagonista, eludindo assim vários momentos da sua vida e mantendo sombras de incerteza ao seu redor. No fim das contas, há um núcleo nele que permanece impenetrado. Quem é Bill O’Neal, afinal? O que estava pensando e sentindo?

O verdadeiro William O’Neal morreu aos 40 anos, meses depois da entrevista à série Eyes on the prize. Invadiu a pista de uma avenida movimentada e foi atropelado. Suicídio, ao que tudo indica. Segundo o tio a quem ele acabara de visitar, o sobrinho estava “torturado pela culpa”.

Um último comentário, sobre o oscarizado Daniel Kaluuya. Ele é o protagonista de Corra! (2017), de Jordan Peele, agora alguns anos mais velho e muitos quilos mais gordo. Com os olhos esbugalhados, voz imperiosa e uma presença física imponente, ele lembra em alguns momentos o Zé Pequeno (Leandro Firmino) de Cidade de Deus. Mas um Zé Pequeno com um rumo, um foco, uma razão para brigar.

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