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Nelson e a palavra filmada

23 de abril de 2018

 

No cinema brasileiro talvez tenha havido gênios de brilho mais intenso e fugaz (Mario Peixoto, Glauber Rocha, Rogério Sganzerla), mas nenhum outro cineasta teve a grandeza prolífica e perene de Nelson Pereira dos Santos, que morreu aos 89 anos no último dia 21.

Se o pioneiro Humberto Mauro foi a figura dominante da primeira metade do nosso século do cinema, a segunda foi, sem dúvida, dominada por Nelson e sua gigantesca sombra. Melhor seria dizer “sua gigantesca luz”, já que ele nunca abafou ou obscureceu a produção de seus contemporâneos e discípulos. Ao contrário, sempre a fecundou com suas ideias, sua cooperação e seu afeto.

Há uma justiça poética no fato de seu primeiro longa-metragem, o seminal Rio 40 graus (1955), ter sido feito com uma câmera emprestada por Mauro. Foi, sem que se soubesse na época, uma espécie de passagem do bastão.

Do livro ao filme

A esta altura, muito já se escreveu sobre o cinema de Nelson Pereira dos Santos e sua inserção na cultura brasileira contemporânea. Não quero chover no molhado, mas apenas chamar a atenção para um aspecto: a sólida relação do diretor com a literatura brasileira de ficção, o que talvez ajude a iluminar as intrincadas interações entre a escrita literária e a cinematográfica, entre a palavra e a imagem.

Não foi por acaso que Nelson foi o primeiro – e até agora o único – cineasta a entrar para a Academia Brasileira de Letras, entidade que congrega políticos ultrapassados, jornalistas, rábulas de província, cirurgiões plásticos e até alguns escritores.

Ao longo de seis décadas de carreira, o diretor levou às telas obras de autores como Graciliano Ramos (Vidas secas Memórias do cárcere, ambos lançados pela Coleção DVD IMS), Machado de Assis (Missa do galo, Azyllo muito louco), Nelson Rodrigues (Boca de Ouro), Jorge Amado (Tenda dos milagres, Jubiabá) e Guimarães Rosa (A terceira margem do rio). Mais do que meramente prestar tributo a esses escritores que admirava, ou “ilustrar” com imagens suas narrativas, Nelson buscou dialogar com eles, trazê-los para o seu tempo e circunstância, mantê-los vivos.

É consenso entre críticos e cinéfilos que sua relação mais fecunda e bem-sucedida foi com a literatura de Graciliano. Vendo Vidas secas (1963) e Memórias do cárcere (1984) temos a impressão de presenciar uma afinidade total entre os dois criadores, o escritor e o cineasta. Além da evidente preocupação sócio-política comum, une-os a abordagem realista, crítica, e a expressão clássica, no sentido de avessa ao barroco, ao expressionismo e a qualquer tipo de exibicionismo.    

A prosa agreste, concisa e substantiva de Graciliano em Vida secas encontra uma expressão perfeita no áspero preto e branco, na luz estourada, no laconismo dos diálogos e na objetividade da câmera do filme de Nelson. Há como que o rascunho de um mundo naquela escassez. Curiosamente, o momento em que o filme, assim como o livro, se permite uma maior subjetividade é o da morte da cachorra Baleia, em que escritor e cineasta buscam o ponto de vista do animal que, agonizante, sonha com um mundo de preás. Aqui o trecho correspondente do filme:

 

 

Inversamente, o escritor com quem talvez o cineasta tenha sido menos feliz foi Guimarães Rosa. Com sua exuberância verbal, sua verve barroca, sua metafísica inscrita na própria forma literária, o ficcionista mineiro é não apenas antípoda de Graciliano, mas também do próprio Nelson, discreto e sóbrio por temperamento e vocação. Certamente por isso sua adaptação de alguns contos de Primeiras Estórias (em A terceira margem do rio, de 1994) é tão irregular.

 

Atritos fecundos

Não que as diferenças, e mesmo atritos, entre um cineasta e um escritor não possam gerar coisas interessantes. Um exemplo é o Boca de Ouro (1963) que Nelson extraiu da peça homônima de Nelson Rodrigues. Como mostrou Ismail Xavier no livro O olhar e a cena, o filme é um brilhante entrechoque entre a visão mítica, pessimista e a-histórica do dramaturgo e a abordagem social, neorrealista, transformadora, do cineasta. Esta cena antológica resume o cinismo trágico do protagonista, que fascinou Nelson Pereira talvez por ser seu exato oposto moral, ou por revelar cruamente a hipocrisia da nossa classe média que se julga elite:

 

 

Foram de outra ordem as dificuldades encontradas pelo diretor ao enfrentar o universo de Jorge Amado. Aqui, o problema foi a fabulação desbordante do romancista baiano. “As histórias do Jorge se desdobram em outras histórias paralelas, novos personagens surgem a cada página, é uma loucura”, explicou uma vez Nelson, rindo, já não me lembro se numa entrevista ou numa conversa. “São histórias tão saborosas que a gente se perde, querendo incluir tudo.”

Talvez isso explique por que os livros do escritor tenham se dado melhor na televisão do que no cinema. Numa telenovela ou numa minissérie é possível dar conta com mais eficiência dessa miríade de personagens e tramas paralelas, ao passo que o cinema está constrito por sua necessidade de síntese.

Mesmo assim, Tenda dos milagres (1977) segue sendo um belo filme, em que a paixão com que se entrega a seu tema – a força da cultura afro-brasileira – compensa fartamente as deficiências de produção e encenação, a mais incômoda delas uma certa displicência na direção de atores, agravada em Jubiabá (1986). A perspectiva política revolucionária e o amor genuíno pelo povo e sua cultura aproximam Nelson Pereira e Jorge Amado.

 

Homem de seu tempo

Um caso à parte é Azylo muito louco (1970), inspirado na célebre novela (ou conto longo) O alienista, de Machado de Assis. Realizado no auge da ditadura militar e do cerceamento da liberdade de expressão, o filme é evidentemente uma alegoria política, marcada pela cultura psicodélico-libertária do período. Está longe de ser um grande filme e de estar à altura do texto que o inspirou, mas é, de um modo torto, um documento de época, e atesta outra característica admirável do cineasta: o profundo engajamento em seu tempo, a coragem de enfrentar com sua arte, a despeito de todas as dificuldades, os males do mundo.

Ele poderia subscrever o que disse uma vez Pasolini: “Contra a barbárie, mais vale uma prosa apressada e ruim do que o silêncio olímpico”.

  • José Geraldo Couto é crítico de cinema, jornalista e tradutor. Assina a coluna semanal No cinema no Blog do IMS.

Em 2013, quando do cinquentenário da estreia de Vidas secas, José Carlos Avellar publicou no Blog do IMS uma recapitulação da recepção crítica ao filme.

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