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O ator autor

21 de maio de 2020

Michel Piccoli, que morreu na última semana aos 94 anos, não foi apenas um grande ator. Durante seis décadas ele corporificou como ninguém o cinema autoral europeu, em quantidade e em qualidade. Atuou em mais de duzentos filmes, dezenas deles com os maiores diretores de seu tempo: Buñuel, Godard, Hitchcock, Resnais, Manoel de Oliveira, Chabrol, Ferreri, Malle, Scola, Moretti, Raoul Ruiz, Bellocchio, Rivette, Varda. A lista não acaba.

Michel Picolli na estreia de <EM>Habemus Papam</EM>. Foto de Franck Prevel
Michel Picolli na estreia de Habemus Papam. Foto de Franck Prevel

Qualquer que seja o papel desempenhado – e ele foi gângster e papa, o rei Luís 16 e o marquês de Sade, intelectual e camponês, médico e ladrão –, sua presença na tela parece sempre sugerir algo mais, instaurar uma dimensão oculta de mistério e cumplicidade, seja com o diretor, com os outros atores ou com o espectador. Há sempre algo não dito, uma energia contida, um segredo calado.

 

Parceiro criativo

Talvez isso decorra da sua atitude singular diante do próprio ofício. Em vez de “mergulhar no papel”, como fazem tantos atores e atrizes, Piccoli dizia que tentava se colocar “atrás do personagem”, mantendo assim um certo grau de distanciamento. Ao mesmo tempo, gostava de se ver como “uma marionete” nas mãos do diretor, mas isso talvez não fosse totalmente verdade, pois os cineastas com quem trabalhava o viam como um parceiro criativo, quase como um coautor. “Gosto da maneira como os italianos dizem ‘Faccio l’attore’, em vez de ‘Sou ator’”, dizia.

Piccoli se destacou no cinema depois de uma sólida carreira teatral, em especial na companhia de Jean-Louis Barrault. Dividiu durante muitos anos o trabalho no palco com pequenos papeis no cinema, até protagonizar, em 1963, um dos filmes-chave de Godard, O desprezo, ao lado de Brigitte Bardot. Dali em diante, o cinema o absorveu por completo. Só com Buñuel trabalhou seis vezes, três com Manoel de Oliveira, outras tantas com Louis Malle.

Cidadão de seu tempo, Piccoli era amigo de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, foi casado por uma década com a cantora e atriz Juliette Gréco, “musa dos existencialistas”, e militou sempre na esquerda, embora fosse avesso aos regimes comunistas do leste europeu. Esse estofo político, intelectual e moral não o impediu de encarnar ocasionalmente magnatas inescrupulosos e políticos corruptos – pelo contrário, conferiu mais consistência e ambiguidade a esses papeis.

 

Lista pessoal

Cada espectador terá seus momentos favoritos na imensa filmografia de Piccoli. A minha lista começaria, de modo um tanto óbvio, com O desprezo (1963), em que ele vive um roteirista dividido entre a arte, o salário e o amor (Bardot), durante as filmagens, na Itália, de uma nova versão da Odisseia por um cineasta veterano (Fritz Lang). Felizmente, o filme está disponível no Youtube, numa cópia legendada:

Outra obra-prima que está disponível com legendas na internet é A comilança (1973), de Marco Ferreri, que Buñuel definiu como “grande tragicomédia da carne”, na qual Piccoli contracena com outros monstros sagrados, como Marcello Mastroianni, Philippe Noiret e Ugo Tognazzi:

Um filme obrigatório em qualquer antologia é evidentemente A bela da tarde (Buñuel, 1967), em que o personagem de Piccoli, o insidioso Henri Husson, é o elo perigoso entre as duas vidas da protagonista Séverine (Catherine Deneuve), a de dama burguesa e a de prostituta vespertina.

O ator voltaria a ser Henri Husson numa curiosa continuação do filme de Buñuel, Belle toujours, dirigida por Manoel de Oliveira em 2006, infelizmente sem Catherine Deneuve, que declinou do papel de Séverine e foi substituída por Bulle Ogier.

Um filme menor, e talvez datado, mas que Piccoli valoriza com sua atuação extraordinária é Themroc (Claude Faraldo, 1973), comédia anarquista absurda, em que o protagonista se insurge como um animal primitivo contra todas as regras do convívio burguês, fazendo imperar a lei do desejo sobre o princípio de realidade. Ali, o ator mostrava que, a par da contenção e do silêncio, também era capaz de explodir em som e fúria.

Outro caso curioso é o de Casanova e a revolução (1982), de Ettore Scola, em que o ator encarna ninguém menos que o rei Luís 16 em fuga, durante a Revolução, mas só o que vemos dele são as pernas (e ouvimos sua voz).

Um favorito da maioria dos cinéfilos é o monumental A bela intrigante (1991), de Jacques Rivette, sobre a relação ambígua entre um pintor veterano (Piccoli) e sua jovem modelo (Emmanuelle Béart), “tão linda que só espalha sofrimento”, como diria Vinícius. Inspirado vagamente na novela de Balzac A obra-prima desconhecida, é um tratado sobre a beleza, os mistérios que ela encerra e as dores que pode desencadear. Para quem estiver disposto a encarar suas quase quatro horas de duração (garanto que vale a pena), há uma cópia legendada no Youtube:

O último grande papel de Piccoli foi, sem dúvida, o do papa relutante de Habemus papam (2011), de Nanni Moretti. Ali, assustado e perplexo ao ser escolhido sumo pontífice, seu personagem entra em crise, foge do Vaticano e é levado a fazer sessões de psicanálise. Nestas cenas de bastidores, é possível ter uma ideia do relacionamento de Moretti com a equipe, em especial com Piccoli, e perceber a desenvoltura do ator ao entrar e sair do personagem, bem como seu domínio da língua italiana.

 

Senhor Cinema

Por sua proeminência entre os atores, Piccoli foi presidente do comitê da Cinemateca francesa responsável pelas comemorações dos cem anos do cinema, em 1995. Nessa condição, aparece no documentário realizado para a ocasião por Godard, Deux fois 50 ans de cinéma français, também disponível no Youtube, infelizmente sem legendas. O diálogo entre o ator e o cineasta é divertido e revelador.

No mesmo ano, Piccoli protagonizou As cento e uma noites, de Agnès Varda, em que encarna o Senhor Simon Cinema, que está perdendo a memória e é visitado pelos que povoaram sua vida: astros e estrelas como Alain Delon, Catherine Deneuve, Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau, Jean-Paul Belmondo, Fanny Ardant, Sandrine Bonnaire, Robert De Niro, Gina Lollobrigida... É uma revisita irônica e nostálgica à arte do século, da qual Michell Piccoli foi um dos grandes. Que essa memória não se perca.

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