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O desconcerto do mundo

29 de outubro de 2019

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que entra em seus últimos dias, não apenas resistiu ao obscurantismo reinante no país, mas acabou apresentando uma de suas melhores edições dos últimos anos.

Sinais de inquietação com os rumos do homem e do planeta aparecem, sob as formas mais variadas – do cômico ao aterrorizante –, em produções vindas de todos os continentes, gerando a sensação geral de um mundo em transe. Os filmes ajudam a iluminar esse caos. Cabe tentar transformar esse caleidoscópio em lanterna mágica.

O jovem Ahmed

Se há cineastas em que a intenção social ou política às vezes se sobrepõe à preocupação com a forma (Ken Loach, por exemplo), há os que conseguem criar uma interdependência orgânica entre essas duas esferas, tornando indissociáveis o ético e o estético. É o caso, quase sempre, dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne.

Em O jovem Ahmed eles se mostram fiéis ao seu humanismo radical e ao seu estilo peculiar de representação, colando a câmera no personagem-título (Idir Ben Addi), adolescente belga de origem árabe que, influenciado por seu imã (sacerdote muçulmano), adota uma postura fanatizada diante do mundo que o cerca. Em sua visão, quase tudo é sacrilégio: dar a mão a uma mulher, aprender árabe em outros escritos que não o Corão, deixar de orar numa hora exata do dia. O confronto entre as pulsões da juventude e essa concepção ascética da vida é dramático e, potencialmente, explosivo.

É admirável o modo como os Dardenne (contemplados com o prêmio de direção em Cannes) desenham em torno desse rapaz atormentado toda uma realidade social, religiosa e moral complexa, sem perder de vista em nenhum momento a singularidade impenetrável e irredutível do protagonista. É uma visão que parte do indivíduo para o mundo, e não o contrário, ou seja, Ahmed não é a ilustração de uma tese predeterminada, mas uma inquietação, uma interrogação viva.

 

O paraíso deve ser aqui

Outro exemplo de simbiose inextricável entre forma e conteúdo é o novo filme do palestino Elia Suleiman (um dos homenageados da Mostra), com o título irônico O paraíso deve ser aqui. Se normalmente pensamos que um palestino – cidadão de uma nação sem território – tem como única preocupação sua identidade nacional, Suleiman resolve inverter a equação e mostrar o mundo exterior aos olhos de um palestino. Aliás, um palestino, esse desterrado por definição, talvez esteja numa situação privilegiada para observar o desconcerto do mundo.

É uma obra de uma originalidade desconcertante. O próprio diretor atua como protagonista, observando silenciosamente o absurdo que o cerca, primeiro em Nazaré (sua cidade natal, sagrada para os cristãos, de população majoritariamente árabe, mas que faz parte do estado de Israel), depois em Paris e, por fim, em Nova York.

A narrativa é episódica, dispondo cenas e situações autônomas, encenadas de modo sutilmente estilizado e exagerado, configurando no conjunto uma espécie de balé surreal – ou hiper-real – das coisas e objetos, um pouco à maneira de Jacques Tati. Observadas pelos olhos curiosos e ligeiramente divertidos do ator/autor (que lembra Peter Sellers na fisionomia e na expressão), essas cenas do cotidiano são atravessadas pelas contradições sociais, pela paranoia da segurança, pela violência urbana e, claro, pelas questões de identidade cultural. A meu ver, é um dos grandes filmes desta Mostra.

 

Brasileiros

As fraturas e arestas sociais brasileiras, em algumas de suas formas mais agudas e atuais, aparecem num punhado de filmes da mostra de São Paulo. Vejamos alguns exemplos significativos.

Em O homem cordial, de Iberê Carvalho, um roqueiro veterano e de relativo sucesso (Paulo Miklos, premiado como melhor ator em Gramado), numa confusão de rua, impede que um garoto negro seja agredido por um policial. Na sequência, de um modo não esclarecido, esse policial é morto. Alguns vídeos do entrevero “viralizam” na internet e o roqueiro passa a ser hostilizado virtualmente e ao vivo, chamado de “defensor de bandido” e coisas do tipo.

O interessante é a forma como Carvalho constrói a narrativa dessa situação tristemente plausível e atual. Há, primeiro, uma longa jornada noite adentro, que começa com um desastroso show da banda do protagonista no centro de São Paulo e passa por hospitais, becos, bares de periferia, galpões abandonados, num pesadelo crescente. Um corte brusco e somos lançados de volta ao dia da confusão que deu origem a tudo. Muda-se o ponto de vista, desarrumam-se as convicções, atenta-se de maneira quase didática para a necessidade de conhecer melhor as coisas antes de chegar a um julgamento.

 

Três verões

Três verões, de Sandra Kogut, pode ser inserido, grosso modo, na linhagem das comédias dramáticas em que o âmbito doméstico serve como microcosmo a refletir ou comentar o contexto social mais amplo. (Pense por exemplo em Ugo Giorgetti, Anna Muylaert, Fellipe Barbosa, cada um com seu estilo e suas ênfases.) Aqui, o ambiente é a mansão de praia de um rico empresário (Otávio Müller, excelente como sempre) que a certa altura percebemos estar envolvido numa falcatrua das grossas, e o recorte temporal são as festas de fim de ano de 2015, 2016 e 2017, os três verões do título.

Entre familiares de várias gerações, convidados vips e um séquito de serviçais, o protagonismo é de Madá (Regina Casé), uma espécie de governanta da casa, que mantém paralelamente seus próprios pequenos negócios, como quiosque de açaí, produção de quentinhas, etc. À parte tudo isso, ela serve como “laranja” para as maracutaias do patrão.

Muito bem construído, aludindo de modo sutil e irônico a inúmeros temas candentes, Três verões tem, entretanto, alguns flancos que merecem ser discutidos. Um deles, a meu ver, é a visão um tanto paternalista, folclorizante, do comportamento e da mentalidade dos personagens populares, expressa não apenas na atuação exuberante de Regina Casé (num papel semelhante ao que desempenhou em Que horas ela volta?), mas também nas falas de alguns personagens secundários.

A certa altura, por exemplo, ao mostrar uma foto no celular, uma empregada diz: “Essa aqui é em Hollywood, aquele lugar que faz filmes”. Por melhores que sejam as intenções, é uma visão exterior, caricata, da ignorância ou ingenuidade dos pobres. Algo que chega a lembrar Domésticas – O filme (2001), de Fernando Meirelles e Nando Olival, que supostamente trazia o ponto de vista das empregadas, mas que acabava por expressar a visão que os patrões têm delas.

Do mesmo modo, se Três verões mostra a precarização do trabalho e o desdém dos ricos por seus empregados, sua visão final é conciliadora, apontando para o empreendedorismo e para a cooperação de classe como solução para os conflitos (o velho rico bonzinho deixa o apartamento para a empregada). Mas isso pode ser só uma leitura apressada. Voltaremos certamente a esse filme quando ele entrar em cartaz.

 

Vizinhos

Uma das obras mais curiosas desta Mostra é a coprodução internacional Vizinhos, longa-metragem de cinco episódios dirigidos por representantes dos cinco países do Brics: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O projeto e a produção executiva são do chinês Jia Zhang-ke. Com exceção do segmento russo, de Alexander Zolotukhin, uma comédia cruel inspirada em Tchekhov, todos os outros lidam de alguma maneira com a questão dos territórios sociais, com a ocupação dos espaços (incluindo a ação de uma espécie de MTST sul-africano).

O episódio brasileiro, dirigido por Beatriz Seigner (de Los silencios), tem como protagonista uma nonagenária negra (Lea Garcia) que mora num prédio com gente de várias classes e origens nacionais, às voltas com discussões sobre o uso da área comum do condomínio. Há um pouco de Edifício Master, um pouco de O som ao redor, e a impressão de que esse esboço dramático pode ser desenvolvido e transformado num longa ou numa série.