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O espetáculo da brutalidade

21 de fevereiro de 2019

Dogman, de Matteo Garrone (Gomorra, Reality), um dos filmes mais interessantes da nova safra italiana, pode ser abordado de várias maneiras. Ambientado num balneário decadente da região da Campania, retrata, por um lado, o cotidiano de uma sociedade empobrecida, de gente derrotada e relações sociais à beira da anomia. É, portanto, uma espécie de herdeiro desencantado do neorrealismo italiano.

Nessa perspectiva, sobressai a atmosfera de desolação da paisagem natural, arquitetônica e humana. Ali, tudo é ruína, tudo é deserto, terra devastada. Um cenário de tristeza em que toda a energia restante parece canalizada para a mera necessidade de sobreviver.

Opressão física e emocional

Mas, desde o início, a câmera de Garrone parece interessada prioritariamente em outra coisa. A primeira cena, admirável, mostra o protagonista, o cuidador de cachorros Marcello (Marcello Fonte), tentando dar banho num cão furioso preso a uma corrente. Um homem cordato e franzino, um animal feroz – essa situação básica se repetirá ao longo do filme com a entrada em cena de outro personagem, o brutamontes Simone (Edoardo Pesce), ex-pugilista viciado em cocaína.

A violência descontrolada de Simone – que logo veremos destruir a cabeçadas uma máquina de fliperama quando perde no jogo – é um problema para a comunidade, mas principalmente para Marcello, sua vítima preferencial e seu fornecedor (nunca remunerado) de cocaína.

Dessa relação de opressão física e emocional Matteo Garrone faz o cerne de seu filme, sem temer o risco de transformar a brutalidade num espetáculo.

Há muitas formas de encenar a violência no cinema. A violência catártica de Peckinpah é diferente da violência operística de Sergio Leone e da violência cartunesca de Tarantino. Cada cineasta aborda esse universo, essas pulsões, de acordo com suas concepções estéticas e éticas.

Não é tanto a quantidade de cenas sangrentas que importa, e sim a maneira como são filmadas. Um filme como Não matarás, de Kieslowski, consegue expressar o caráter único e precioso de toda vida humana, qualquer que seja ela, até mesmo a de um assassino cruel.

E a abordagem de Garrone é, no mínimo, problemática, por resvalar, em alguns momentos, no mero sensacionalismo. Tomemos um exemplo: a certa altura, um transtornado Simone invade um galpão onde se amontoam bonecos, máscaras e alegorias de carnaval e espanca impiedosamente um homem. Quando este cai inerte no chão, a câmera se demora alguns instantes no rosto sorridente de um boneco em que respingou o sangue da vítima. É uma imagem sarcástica, quase sádica, difícil de ser justificada dramaticamente.

Vocação para a derrota

Mas há uma terceira maneira de encarar Dogman, um terceiro filme dentro desse filme, que é um estudo da personalidade do protagonista Marcello. Um homem triste e afetuoso, na fronteira entre a docilidade e o servilismo, que se move um tanto por desprendimento e outro tanto pelo medo. Um homem com vocação para a derrota, para a autoanulação.

E aí se destaca a extraordinária atuação de Marcello Fonte (premiado em Cannes e em outros festivais) na composição desse indivíduo. Duas sequências são exemplares: aquela em que ele divide um prato de massa com seu cachorro (“uma garfada pra mim, outra pra você”) e aquela em que volta à casa que acabou de ser assaltada para salvar um cachorrinho que ele nem conhece.

Dogman, em suma, suscitará reações diversas nos espectadores, do enternecimento à repulsa. O que não se pode dizer, em todo caso, é que seja um filme dispensável ou irrelevante.

Lembro mais dos corvos

Um título singular para um filme idem. A começar pela coragem do “dispositivo”: Lembro mais dos corvos, de Gustavo Vinagre, consiste num longo depoimento da atriz transexual Julia Katharine, supostamente durante uma noite de insônia em seu apartamento.

Só me ocorre um outro exemplo dessa opção radical de abordagem, o extraordinário Eu fui a secretária de Hitler (2002), de André Heller e Othmar Schmiderer, que se resume ao depoimento para a câmera da personagem do título, Traudl Junge.

Julia Katherine não foi secretária de Hitler nem nada historicamente tão espetacular, mas sua trajetória de vida é extremamente rica e a maneira como é contada, com graça, emoção contida e inteligência, envolve o espectador do início ao fim.

Há ali uma sucessão de eventos dramáticos: o abuso praticado por um tio-avô quando Julia ainda era um menino de oito anos; o bullying que a levou a trocar sucessivamente de escola até decidir abandonar os estudos ainda na adolescência; a vida dura no Japão, onde foi para juntar dinheiro e acabou vivendo na rua; os amores fracassados; a breve e patética tentativa de se prostituir; a carreira tardia de atriz e cineasta; o AVC sofrido há alguns anos.

Mas, mais interessante até do que a série de eventos, é o modo como Julia os reelabora, como os faz dialogar com seu imaginário formado primeiro pelas telenovelas e depois pelo cinema. Cinéfila compulsiva, Julia – cujo segundo nome é homenagem a Katharine Hepburn – sempre tem na ponta da língua uma personagem ou uma cena de filme para espelhar algum episódio de sua vida. O próprio título do documentário vem de sua lembrança do filme Os pássaros, de Hitchcock.

À parte isso, há também o modo como a atriz percebe as tentativas dos outros – sobretudo de homens – de moldá-la de acordo com seus próprios desejos, fantasias e projeções.

Vida inesgotável

O grande Eduardo Coutinho demonstrou que qualquer pessoa, devidamente estimulada e com tempo de se expressar, por palavras e gestos, diante da câmera, é um universo inesgotável. Gustavo Vinagre, com quem Julia já trabalhara como atriz em alguns curtas, leva essa lição ao extremo e revela ao mundo uma vida fascinante, feita, como todas, de um tanto de verdade e outro tanto de fantasia.

A notícia triste é que esse belo documentário será provavelmente o último lançado nos cinemas dentro do projeto Vitrine Petrobrás, que tem propiciado a exibição de filmes brasileiros independentes, que de outro modo teriam poucas chances no nosso estrangulado circuito exibidor.

Dentro da política de terra arrasada imposta à cultura por nossos novos governantes, a Petrobrás resolveu “descontinuar” seu apoio ao projeto e praticamente a todas as atividades artísticas e culturais que antes fomentava, o que ameaça não só a produção de inúmeros filmes e séries como a realização de vários festivais de cinema pelo país afora.