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O que pensam as secretárias ao saírem do escritório?

13 de março de 2019

Nine to Five – título original de Como eliminar seu chefe – quer dizer, em inglês, “das nove às cinco” e faz referência ao horário padrão adotado por quem trabalha em escritório. 9to5 é também o nome de um sindicato de trabalhadoras americanas, criado nos anos 1970. Não por acaso, o título menciona essa luta – o filme em si é uma ode à subjetividade sindical, que vai à forra (dentro dos limites hollywoodianos, claro). Karen Nussbaum, fundadora do 9to5, já conhecia Jane Fonda dos protestos contra a Guerra do Vietnã quando Fonda fez a proposta para a realização do filme, que se tornou a primeira obra da atriz como produtora.

Para a criação do roteiro, Fonda e o diretor Colin Higgins ouviram as reclamações e os anseios de trabalhadoras. Como resultado, em Como eliminar seu chefe, estão presentes a diferença salarial entre homens e mulheres, o abuso sexual dos que se valem da posição de poder, o roubo de ideias, a promoção acelerada de colegas homens em detrimento de suas pares femininas igual ou melhor capacitadas, entre tantas outras injustiças que as mulheres conhecem de perto.

Nesse inventário de repressões a partir do qual o filme se estrutura, a opção é por um registro panorâmico em detrimento da densidade psicológica de suas personagens. Propositalmente dessexualizador de suas vedetes Jane Fonda e Dolly Parton, a obra se constrói em torno de tipos bem delineados – Judy Bernly (Jane Fonda), uma recém-divorciada travada e afetivamente confusa; Violet Newstead (Lily Tomlin), mãe de quatro filhos e com longa carreira de decepções na empresa; e Doralee Rhodes (Dolly Parton), a secretária tomada por todos por secretina e amante do chefe. São tipos que se revelam complementares. Não à toa, figurino e atributos físicos têm um papel fundamental na construção e desconstrução de expectativas. Dolly Parton e suas roupas justas jogam com o clichê da “loira burra”, a ausência de decotes e curvas sugere uma Jane Fonda sem traquejo e as roupas largas e confortáveis de Tomlin insinuam uma mulher prática e cansada.

Aos poucos, os antagonismos são amenizados, dando lugar ao convívio solidário e ao apoio mútuo neste ambiente em que todas são potenciais serventes, a despeito de sua posição profissional. Aos poucos, o que poderia parecer um panfleto esquemático na verdade se torna um libelo catártico contra o cotidiano repetitivo e opressor na firma. Melhor exemplo disso são os sonhos de Violet, Judy e Doralee, de realização tão improvável, mas tão verdadeiros em sua especulação imaginária, que compõem o ponto alto do filme, junto com a canção tema, interpretada por Dolly Parton.

 

Cena de "Como eliminar seu chefe", de Colin Higgins

 

Essa revanche contra as agruras que ainda alimentam as diversas correntes feministas até hoje é o que mantém (infelizmente) o caráter atual do filme. Em 2018, durante o relançamento de Como eliminar seu chefe em Londres, Jane Fonda foi perguntada sobre como seria uma versão atual do filme. “De certa forma, as coisas melhoraram, mas a vida para as mulheres no trabalho é pior hoje em dia, e eu te digo o porquê. Muitas delas não são contratadas por seu chefe ou pela empresa. Elas são contratadas por uma outra companhia e terceirizadas ao lugar onde trabalham, de forma que, se houver discrepância de salário, ou se uma mulher é demitida por estar grávida ou por conta de assédios sexuais, a quem ela deve recorrer? Ela não tem benefícios ou direitos, ela não tem aonde ir para se queixar ou pedir compensação. […] As coisas vão muito mal, e o pagamento é tão baixo, que eu acho que, se fizéssemos um filme como esse hoje em dia, estaríamos falando de pessoas que trabalham em dois ou três lugares diferentes e, mesmo assim, não conseguem pagar o aluguel. Essa é a realidade da classe trabalhadora nos EUA hoje.”

Ainda na perspectiva desse olhar atualizado, se o filme de 1980 adota um ponto de vista marcadamente branco – em termos de representatividade – com a presença muito coadjuvante de personagens negras e latinas, praticamente sem falas, dificilmente isso poderia se repetir em uma revisão. E, mais do que nunca, o que era tido como “delirante” ou improvável agora faz parte do debate – no contexto americano, basta pensar na figura de Alexandria Ocasio-Cortez, a mais jovem deputada eleita no país, de origem latina, e que assume como pauta várias das “viagens” propostas em Como eliminar seu chefe. Uma visita recente ao site da associação 9to5 revela também um conselho com iguais proporções de mulheres negras e brancas. Se a face do chefe não seria a mesma, também não seriam as das trabalhadoras.

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