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O revés de um parto

14 de janeiro de 2021

A esta altura não é spoiler nenhum dizer que Pieces of a woman, em cartaz na Netflix, é um drama em torno de um parto feito em casa que não saiu como se esperava. A própria sinopse fornecida pelo canal de streaming diz isso. Dirigido pelo húngaro Kornél Mundruczó e ambientado em Boston, o filme chegou chancelado pelo nome reluzente de Martin Scorsese como produtor executivo e pelo prêmio de melhor atriz em Veneza para Vanessa Kirby, por sua atuação como a protagonista Martha.

Mesmo assim, muitos críticos torceram o nariz e descartaram a produção como um melodrama apelativo. Boa parte da discussão diz respeito à sequência de vinte minutos virtualmente sem cortes que descreve o passo a passo do parto malsucedido. Para uns, é uma mera exibição de virtuosismo técnico. Para outros, entre os quais me incluo, a tentativa de simular o tempo real da ação foi um esforço para tornar “palpável” um dos dramas mais terríveis que se pode imaginar na vida de uma mulher.

Chega a ser surpreendente que esse mergulho numa experiência tão visceralmente feminina tenha sido filmado por um homem, mas há que lembrar que o roteiro é de Kata Weber, mulher do diretor, que sofreu na pele e na alma o trauma de perder um filho durante a gravidez. A escrita do roteiro, inicialmente uma peça de teatro, mesmo mudando a história e todas as circunstâncias geográficas, sociais e pessoais dos personagens, foi a maneira que ela encontrou de elaborar a tragédia e o luto.

Isso não deve contar na avaliação crítica do filme, evidentemente. É só uma informação suplementar. O importante é como a dupla diretor/roteirista plasmou a situação em narrativa audiovisual. A meu ver, trata-se de um drama consistente e convincente, ainda que afrouxado aqui e ali por certas concessões à ideia de uma parábola de “superação”.

Despedaçamento

O título original, mantido no Brasil, dá a pista para o eixo de construção do filme: pedaços de uma mulher. Uma mulher em pedaços. Não é à toa que, diante de um acontecimento terrível, dizemos que alguém ficou “despedaçado”, ou que é preciso “juntar os cacos”.

A primeira cena, antes ainda do parto, acontece no canteiro de construção de uma grande ponte, onde o marido de Martha, Sean (Shia LaBeouf), trabalha como operário qualificado. A sequência que se segue, fragmentada em planos curtos, é do chá de bebê de Martha, destacando em primeiro plano o corte das fatias de bolo. A narrativa toda é pontuada pelas etapas da construção da tal ponte, numa simetria um tanto óbvia, ainda que invertida, com a evolução do drama dos personagens.

À sequência virtualmente sem cortes do parto, sucedem-se episódios de ruptura, fratura, despedaçamento. Fechada e eriçada em seu luto, Martha vê desmoronarem suas pontes com o mundo: com o marido Sean, com a mãe intrusiva (Ellen Burstyn), com o trabalho impessoal, com a cidade inóspita. Torna-se uma espécie de sonâmbula, alheia e hostil a tudo, inclusive às demonstrações de piedade e consternação à sua volta.

A noção de desmembramento ganha imagem literal na visita da protagonista à faculdade de medicina, onde ficam expostos em vitrines pedaços do corpo humano, conservados em formol ou reproduzidos em material sintético.

Na tentativa de abarcar o conjunto das relações desfeitas de Martha, e talvez de forçar uma identificação do espectador com seu drama, o filme acaba por se escorar em alguns clichês, mas eventualmente consegue driblá-los ou reagir a eles. Um exemplo: numa loja de roupas, vemos (pelos olhos de Martha) vestidinhos de meninas, depois uma menina propriamente dita. Encarada fixamente por ela, Martha esboça um sorriso terno, até perceber que o que atraiu o olhar da garotinha foi o leite que começou a vazar de seu seio e manchar a blusa. O idílio, portanto, é rompido por uma circunstância muito concreta. O drama real vence o clichê.

Pode-se criticar, por outro lado, uma certa “vilanização” do marido Sean, que não recebe o mesmo olhar compreensivo devotado a Martha. Já a figura de megera autoritária da mãe tem um atenuante: trata-se de uma descendente de vítimas do Holocausto. A tensão surda entre os húngaros cultivados e o bronco operário americano daria pano para um filme à parte.

Os clichês, em si, não são necessariamente um problema. Polanski disse uma vez que o clichê é o que existe de mais interessante, pois condensa o sentimento de uma época. E Hitchcock recomendava partir de um clichê para chegar a algo original. (O problema é que no mais das vezes acontece o inverso.)

Cenas de briga de casal, assim como as de sexo, tendem a cair no déjà-vu, mas em Pieces of a woman ao menos uma delas tem uma boa resolução visual: depois de ser atingida por uma bola de pilates atirada pelo marido em fúria, Martha continua sentada e apaga o cigarro na própria bola, fazendo-a murchar aos poucos. Muito mais expressivo que qualquer choro ou palavra.

Um raio de sol

Uma situação já batida que é encenada de modo eficiente em Pieces of a woman é a da imagem que, na sala escura de revelação, surge aos poucos no papel fotográfico. O espectador esperto já esperava que aquilo fosse ocorrer, mas há sempre algo de mágico nessa operação, e ela vem no tempo certo. Do mesmo modo, sabemos que algo vai acontecer na ponte concluída, depois de acompanharmos o progresso da sua construção. Mas isso não tira a beleza e o impacto do que vemos ali.

Já a indefectível sequência de tribunal serve como momento de catarse, redenção, lição edificante, enfraquecendo, a meu ver, a contundência do filme. O mesmo se pode dizer do epílogo, ambientado anos depois e apresentado sob os créditos finais. Parece estar ali para constar como mensagem de otimismo e superação, talvez por imposição dos produtores. Fellini dizia que o produtor, ao ver seus filmes prontos, costumava perguntar: “Mas como? Acaba assim, sem um raio de sol?” Pois bem: Pieces of a woman termina com um raio de sol.

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